Tradição
Padaria do Gonçalo atravessa um século preservando sabores e laços de amizade
Fundado em 1922, tradicional estabelecimento da Vila Hortência mantém receitas de origem espanhola, conquista novas gerações e se adapta às mudanças de Sorocaba
O clima interiorano, ainda preservado em alguns bairros de Sorocaba, se revela em histórias como a de José Renato Nóbrega. Nascido na rua Coronel Nogueira Padilha, no coração da Vila Hortência, ele cresceu ao lado de uma padaria. A convivência com os vizinhos e a proximidade com o estabelecimento plantaram uma semente que só germinaria anos mais tarde. Formado em marketing, trabalhou por cerca de cinco anos na área antes de descobrir, em 2010, seu interesse pelo setor de alimentação.
A experiência profissional, somada ao antigo desejo de ter o próprio negócio, levou José Renato a estudar o ramo e a juntar dinheiro para realizar o projeto. Em junho de 2012, a história que conhecia desde a infância ganhou um novo capítulo: ele assumiu a padaria que sempre fez parte de sua vizinhança. Hoje, 14 anos depois, continua à frente do estabelecimento e já vê a filha mais velha, de 14 anos, ajudá-lo nos fins de semana, aprendendo desde cedo o ofício de fazer pão, um dos alimentos mais antigos do mundo.
Houve um tempo em que a vida seguia outro ritmo. Os carros não formavam as intermináveis filas que hoje se veem na rua Coronel Nogueira Padilha. As pessoas utilizavam os bondes elétricos, caminhavam pelas ruas e se conheciam. A tradicional Vila Hortência sempre foi marcada pela presença de uma expressiva comunidade espanhola.
Em 1922, Gonçalo Vecina, imigrante espanhol, inaugurou a Padaria Hispano-Americana. Com o tempo, porém, o nome oficial acabou ficando em segundo plano. Os vizinhos passaram a chamá-la de "Padaria do Gonçalo", denominação que permanece estampada na fachada até hoje, mais de um século depois. A trajetória do estabelecimento tem uma particularidade: José Renato é o terceiro proprietário, mas não há laços consanguíneos entre os três. O que os une é a amizade.
Gonçalo Vecina permaneceu à frente do negócio até 1959, quando o vendeu ao professor Cláudio Ouro, seu amigo. Mais de cinco décadas depois, em junho de 2012, Ouro transferiu a padaria a José Renato, que também já mantinha uma relação de amizade com a família de Gonçalo. Apesar das mudanças de proprietário, o estabelecimento nunca abandonou suas raízes espanholas. Até hoje, as vitrines exibem quitutes típicos do país ibérico.
José Renato conta que alguns funcionários estão com ele desde o início de sua gestão. Mesmo depois de tantos anos, porém, eles ainda não conhecem os segredos de algumas receitas. "Mas algumas receitas, algumas coisas, a gente tem um segredinho aí no meio do caminho, que, no momento, só eu sei", revela.
Um dos produtos mais conhecidos da casa é o pãozinho d'água, feito com fermentação natural. Uma fornada sai do forno a cada hora e, segundo José Renato, cerca de 2.500 unidades são vendidas diariamente. Outros produtos de origem espanhola também ocupam as vitrines, como o doce madrileño, feito com goiabada, as bolachinhas de manteiga e o lanche de jamón, um dos mais vendidos. O sanduíche leva presunto espanhol importado da região de Sevilha.
O pãozinho d'água, assim como outras receitas, está presente na padaria desde sua inauguração. A receita foi transmitida contratualmente junto com a propriedade do estabelecimento. José Renato se lembra da infância, quando era vizinho do local. "Ah, era o sonho, né? E o pãozinho d'água, que já existia desde essa época."
Se algumas receitas permanecem as mesmas desde 1922, a maneira de consumir os produtos da padaria mudou. Ao longo dos 14 anos em que José Renato está à frente do estabelecimento, o café ganhou espaço entre os clientes. A transformação ficou ainda mais evidente em 2024, quando ele construiu um estacionamento para facilitar o acesso de quem chega pela rua Coronel Nogueira Padilha. Com mais espaço para estacionar, o movimento aumentou e, junto com ele, cresceu também o consumo no próprio local. Foi necessário ampliar a área de atendimento para acompanhar a nova rotina dos clientes.
Atualmente, os períodos de maior movimento são a manhã e o fim da tarde. Doze funcionários trabalham no estabelecimento, que funciona diariamente, das 7h às 19h. Além do atendimento no balcão e das mesas disponíveis para os clientes, a padaria oferece delivery por aplicativos e conta com serviço próprio de entregas.
A próxima mudança está sendo preparada nos fundos do estabelecimento. José Renato pretende começar a oferecer almoços executivos, uma demanda que, segundo ele, surgiu dos próprios clientes, diante da falta de opções de restaurantes na região durante o horário do almoço. Para viabilizar o projeto, uma nova cozinha está sendo construída, separada da área de produção dos demais produtos e preparada para atender às normas necessárias ao preparo das refeições.
As mudanças, porém, não significam abandonar aquilo que fez a padaria chegar até aqui. O pãozinho d'água continua saindo do forno de hora em hora, os produtos de origem espanhola permanecem nas vitrines e algumas receitas seguem guardadas a sete chaves.
Enquanto José Renato busca equilibrar a tradição e as novas demandas dos clientes, outra história começa a ser escrita. A filha mais velha, de 14 anos, já o acompanha nos fins de semana e participa das atividades do estabelecimento. Mais de um século depois de Gonçalo Vecina abrir as portas, a história continua sendo construída por pessoas que chegam, aprendem e deixam um pouco de si.
A rua Coronel Nogueira Padilha continua sendo uma das principais vias da cidade. Na Vila Hortência, a comunidade que ajudou a construir o bairro preserva, apesar das transformações urbanas, o espírito de convivência e parte de suas raízes. Enquanto Sorocaba cresce ao redor dos antigos bairros, histórias como a da Padaria do Gonçalo mostram que os laços que sustentam uma comunidade nem sempre são de sangue. Muitas vezes, são de amizade.
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