Entrevista
Mudanças de discurso marcam reta final da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Professor de opinião pública da USP, Luiz Alberto de Farias avalia que candidatos ajustam estratégias conforme pesquisas e aponta abstenção e eleitores indecisos como fatores que podem influenciar o resultado
As mudanças de posicionamento de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em temas de interesse público refletem a tentativa das campanhas de conquistar eleitores na reta final da disputa presidencial, segundo o professor de opinião pública da Universidade de São Paulo (USP), Luiz Alberto de Farias. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Rádio Cruzeiro FM 92,3 na manhã de ontem (23), ele avalia que os candidatos acompanham as demandas da população por meio de pesquisas e ajustam seus discursos conforme a repercussão de determinadas pautas.
“Os trackings são permanentemente feitos pelas campanhas eleitorais, pelos grupos tanto de um lado quanto de outro, e recorrentemente busca-se entender quais são as grandes demandas da população”, explica.
Na avaliação do professor, o comportamento das duas campanhas muda entre o primeiro e o segundo turno. Enquanto Lula teria apresentado uma campanha com pouca mobilização inicial, Flávio ganhou força na primeira etapa da disputa. No segundo turno, o cenário teria se invertido, com pesquisas indicando queda nas intenções de voto do candidato do PL e crescimento do petista.
Farias também relaciona esse movimento à postura adotada pelos candidatos após o primeiro turno. Para ele, a expectativa de vitória antecipada pode ter prejudicado as duas campanhas.
Pressão eleitoral
As alterações de posicionamento também aparecem em pautas como o fim da escala de trabalho 6x1 e a redução da maioridade penal. No caso de Flávio Bolsonaro, o professor associa o voto favorável à discussão sobre a jornada de trabalho à pressão da opinião pública e ao acompanhamento das pesquisas internas da campanha. “Certamente, ele atendeu a demandas de pesquisa e mudou o seu voto, como praticamente todos os demais também mudaram, e ele não quis ficar ali associado a ser um dos poucos ou o único”.
Segundo Farias, os candidatos estão atentos às mudanças de percepção dos eleitores e aos temas que ganham repercussão durante a campanha. A estratégia, nesse contexto, é evitar que um posicionamento contrário a uma pauta popular provoque desgaste eleitoral.
Votos consolidados
Apesar das mudanças de discurso, Farias avalia que uma parte expressiva do eleitorado já tem uma decisão consolidada. Por isso, acontecimentos novos durante os últimos dias de campanha dificilmente devem alterar a escolha de quem já está convencido. “Haja o que houver, quaisquer informações novas, quaisquer aberturas de sigilo, quaisquer novidades que aconteçam mesmo até o domingo, não vão fazer com que essas pessoas mudem, porque elas estão absolutamente convictas”.
Nesse cenário, o desafio das campanhas é alcançar quem ainda não decidiu o voto e estimular a participação de quem deixou de comparecer às urnas no primeiro turno. O professor destaca que a abstenção, além dos votos em branco e de eleitores que escolheram outras candidaturas, representa uma parcela relevante do eleitorado que ainda pode influenciar a disputa.
Segundo ele, Flávio tem trabalhado com a ideia de renovação e com indicadores econômicos, como a cotação do dólar e o desempenho da Bolsa de Valores. Lula, por sua vez, tem destacado os riscos à democracia. Para Farias, no entanto, os argumentos econômicos podem ter alcance limitado entre pessoas que não investem no mercado financeiro. “Os jovens pensam, com democracia ou sem democracia, o que muda na minha vida, qual a minha perspectiva de futuro?”. Na opinião do professor, as duas campanhas precisam apresentar perspectivas que mobilizem esses eleitores e os levem às urnas.
Debates e redes
A disputa também passa pelo conteúdo dos debates presidenciais e pela repercussão dos trechos publicados nas redes sociais. Para Farias, o primeiro debate foi marcado pela preocupação com a performance dos candidatos e pela produção de vídeos curtos capazes de circular na internet, em detrimento da discussão de propostas. “Havia ali, talvez, especialmente por parte de um dos candidatos, uma ideia de construir cortes para as redes sociais”, afirma. Ele acrescenta que o formato pode favorecer a repercussão de determinadas falas, mas nem sempre contribui para uma discussão aprofundada dos temas.
O professor acredita que esses vídeos são utilizados principalmente para mobilizar eleitores que já apoiam cada candidato, mais do que para convencer quem ainda está indeciso. Também alerta para o risco de trechos retirados do contexto alterarem a compreensão das falas. “Eles mudam o sentido da pergunta e da resposta, sempre para transformar uma resposta lacradora, que é o que a internet fundamentalmente trabalha”.
Na avaliação de Farias, os debates ainda podem influenciar a reta final, especialmente em uma eleição equilibrada, mas o efeito depende da capacidade dos candidatos de apresentar conteúdos relevantes e conquistar a parcela do eleitorado que não consolidou sua escolha.
Disputa acirrada
Sobre a possibilidade de um resultado muito apertado, o professor considera que a eleição deve ser decidida por uma diferença pequena de votos, embora avalie como impossível um empate exato na apuração. “Eu acredito que vai ser uma disputa bastante acirrada e que o candidato que vencer vai vencer por um número pequeno de votos”.
Farias também chama a atenção para a tensão que pode acompanhar a divulgação do resultado. "Uma diferença reduzida pode alimentar questionamentos e manifestações de grupos políticos, o que torna importante que eventuais protestos ocorram de forma pacífica".
O professor finaliza falando sobre as possíveis repercussões internacionais caso o resultado seja contestado. Para ele, o cenário exige atenção tanto à reação da população quanto à forma como o processo eleitoral será recebido fora do país.