Entrevista
Rejeição a adversários sustenta polarização na disputa presidencial
Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, Rodrigo Prando analisa a influência dos debates, das redes sociais e da abstenção eleitoral na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
A polarização política e a consolidação dos votos limitam o impacto de debates e episódios de desgaste na disputa pela Presidência da República. A avaliação é do cientista político e sociólogo Rodrigo Augusto Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (20). Segundo ele, apesar da vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a pequena diferença entre os candidatos mantém a disputa aberta.
Prando compara a reta final da campanha a uma corrida de Fórmula 1, na qual um dos competidores está à frente por uma margem estreita. Embora considere o cenário favorável ao candidato do PL, ele destaca que as pesquisas apontavam empate técnico dentro da margem de erro. “Se fosse na Fórmula 1, seria uma vantagem de poucos segundos, do Flávio Bolsonaro à frente do presidente Lula”, explica.
Ao analisar as eleições presidenciais desde 1989, o pesquisador observa que, nas disputas que tiveram segundo turno, o candidato que terminou a primeira etapa na frente também venceu. Na série histórica considerada por ele, a diferença atual é a menor já registrada: menos de dois pontos percentuais, ante cerca de cinco pontos entre Lula e Jair Bolsonaro em 2022. “A virada costuma ser muito difícil, mas ela não é impossível”. Apesar da possibilidade de mudança, sua avaliação é de que Flávio mantém vantagem na disputa.
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Votos consolidados
A polarização ajuda a explicar por que debates e controvérsias não provocam necessariamente mudanças expressivas nas intenções de voto. Prando estima que cerca de 90% dos eleitores de cada candidato já tenham a escolha consolidada.
Nesse cenário, os indecisos e aqueles que votaram em outros candidatos no primeiro turno podem ter importância para o resultado. “É nesse eleitor indeciso que um debate, ou um escândalo, ou um desgaste pode impactar”. Em uma disputa apertada, pequenas mudanças na preferência desse grupo podem fazer diferença.
Rejeição ao adversário
Na avaliação do sociólogo, parte do apoio aos candidatos é motivada menos pela identificação com suas propostas do que pela rejeição ao adversário. Ele observa que alguns eleitores de Lula votam contra Flávio Bolsonaro, enquanto parte dos apoiadores do candidato do PL tem como principal motivação a oposição ao presidente e ao PT.
Essa dinâmica também se relaciona às mudanças no campo antipetista ao longo dos anos. Segundo o professor, eleitores que anteriormente apoiavam o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) passaram, em parte, a se aproximar de Jair Bolsonaro e, agora, encontram em Flávio uma alternativa de oposição ao PT. “É o antipetismo se consolidando na candidatura de Flávio, candidaturas que, no passado, foram do PSDB e que, nos últimos anos, foram do Bolsonaro, do PL”, analisa.
Para o pesquisador, a rejeição ao adversário contribui para manter as escolhas mesmo diante de críticas ao próprio candidato. Essa estabilidade ajuda a explicar por que escândalos e episódios de desgaste nem sempre provocam alterações expressivas nas pesquisas.
Redes sociais
Para Prando, os candidatos passaram a privilegiar momentos curtos que possam viralizar, em detrimento da discussão de propostas e programas de governo. Ao comparar o cenário atual com a eleição de 1989, observa que, naquela época, quem não acompanhava um debate precisava buscar informações posteriormente nos jornais, no rádio ou na televisão. “Você tem candidatos treinados para os cortes e vão servir para as redes sociais”, avalia. Sobre o confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro transmitido pela emissora no último domingo (18), foi crítico: “Foi um debate horrível, um debate, no meu entendimento, medíocre, mas é o que tem para hoje”.
Na análise do sociólogo, a circulação acelerada de conteúdos amplia a exposição à informação e à desinformação até o dia da votação. Ainda assim, não é possível mensurar com precisão o efeito de declarações e vídeos sobre a decisão do eleitor, especialmente quando grande parte do público já definiu sua preferência.
Abstenção
A participação nas urnas também pode interferir no resultado. Durante a entrevista, o pesquisador recomenda que os eleitores consultem o aplicativo e-Título para confirmar o local de votação, diante de mudanças registradas em algumas seções eleitorais. “Qualquer fator extrapolítico de logística ou qualquer outra questão pode atrapalhar, só que a gente não tem como mensurar”, explica.
Na entrevista, foram mencionados cerca de 33 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno, aproximadamente 21% do eleitorado. Como a abstenção costuma crescer no segundo turno, o pesquisador considera que o fenômeno pode prejudicar Lula. Em sua análise, eleitores de menor renda e idosos com dificuldades de locomoção tendem a estar mais ligados eleitoralmente ao presidente. “Então, isso prejudicaria ainda mais o Lula, que já saiu atrás no primeiro turno”, considera.
As pesquisas eleitorais também têm limitações nesse aspecto. Os institutos registram as respostas dos entrevistados, mas não conseguem garantir que todos os que declaram intenção de votar efetivamente comparecerão às urnas. Da mesma forma, não é possível antecipar mudanças de escolha que ocorram apenas no momento da votação.
Para Prando, a pequena diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro faz com que esses fatores possam ter peso no resultado.