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Entrevista

Fim da escala 6x1 pode melhorar qualidade de vida, mas traz desafios econômicos

Renato Vaz Garcia avalia que a redução da jornada sem ganhos de produtividade pode elevar custos das empresas, pressionar preços e afetar o poder de compra

19 de Outubro de 2026 às 11:42
João Frizo [email protected]
Para ele, a redução da jornada precisa ser analisada não apenas pelos benefícios imediatos aos trabalhadores
Para ele, a redução da jornada precisa ser analisada não apenas pelos benefícios imediatos aos trabalhadores (Crédito: João Frizo)

A redução da jornada de trabalho sem ganhos de produtividade pode aumentar os custos das empresas, pressionar os preços e comprometer o poder de compra dos trabalhadores. A avaliação é do professor e mestre em Economia Renato Vaz Garcia, que participou do Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã desta segunda-feira (19), para discutir os possíveis impactos do fim da escala 6x1.

Durante a entrevista, Garcia reconhece que a mudança pode trazer benefícios aos trabalhadores, como mais tempo para a família e possíveis melhorias na qualidade do sono e na saúde mental. No entanto, afirma que os efeitos sobre a economia são difíceis de prever, devido à falta de estudos que permitam estimar os resultados nas condições brasileiras.

Segundo o economista, a redução da jornada costuma ser discutida em países que já registraram ganhos de produtividade, permitindo que parte dos resultados seja convertida em salários maiores ou menos horas de trabalho. No Brasil, a produtividade permanece estagnada há mais de duas décadas, o que, na opinião dele, dificulta a absorção dos custos de uma mudança desse tipo. “Quando você faz isso antes de ter ganho de produtividade, aí já é quase que um tiro no escuro”.

Para o professor, a discussão precisa considerar como as empresas poderão se adaptar e quais medidas podem evitar efeitos negativos sobre a atividade econômica.

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Custos e preços

Um dos principais riscos apontados pelo economista é o aumento do custo da hora trabalhada caso a jornada seja reduzida sem diminuição proporcional dos salários. Para compensar a diferença, as empresas poderiam absorver as despesas adicionais, repassá-las aos preços ou reorganizar as equipes e os horários de funcionamento.

Garcia cita um estudo atribuído à AGV que estima aumento de 20% nos custos empresariais. Também menciona uma projeção de queda de até 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) caso a redução da jornada, com manutenção dos salários, seja implementada sem outras mudanças.

Acredita ainda que setores que dependem mais de mão de obra, como os de serviços e alimentação, podem sentir os efeitos mais rápido. Se houver repasse dos custos, os consumidores pagarão mais por produtos e serviços.

O impacto, segundo ele, pode ser maior para as famílias de menor renda, que comprometem parte significativa do orçamento com despesas cotidianas. Caso os preços subam sem reajustes equivalentes nos salários, o poder de compra será reduzido. “Se você vai ter um aumento da inflação, o poder de compra do trabalhador vai diminuir”.

Ele também alerta para o risco de agravamento do endividamento das famílias. Para complementar a renda, parte dos trabalhadores poderia buscar outras atividades, inclusive informais, durante o tempo livre.

Mercado de trabalho

Questionado sobre a possibilidade de a redução da jornada gerar novas contratações, o economista avalia que não é possível prever com segurança o comportamento do mercado de trabalho. Segundo ele, estudos sobre experiências internacionais não indicam aumento generalizado de admissões após mudanças semelhantes.

Garcia pondera que os resultados observados em outros países não podem ser aplicados automaticamente ao Brasil, devido às diferenças de produtividade, condições econômicas e legislação trabalhista. Como exemplos, cita França, Suécia, Islândia e Chile.

Na França, a redução da jornada para 35 horas semanais ocorreu em um contexto de produtividade superior à brasileira e de regras trabalhistas distintas. Já o Chile adota uma transição de cinco anos para reduzir a jornada de 45 para 40 horas semanais, conforme o exemplo apresentado por Renato.

Também comenta da possibilidade de empresas substituírem vínculos formais por outras modalidades de contratação. Ao responder a uma pergunta de ouvinte sobre demissões seguidas de recontratações com salários menores, Garcia diz que esse cenário pode ocorrer.

Produtividade

Para o mestre em economia, a discussão sobre a jornada deveria vir acompanhada de medidas para elevar a produtividade, como o incentivo à adoção de tecnologia e a redução de custos que dificultam a atividade empresarial.

Ainda, critica a aprovação de políticas públicas sem avaliações aprofundadas de seus efeitos. Na avaliação dele, é necessário acompanhar os resultados para identificar consequências sobre emprego, preços e renda.

Ele também destaca que a renda dos trabalhadores é um problema que precisa ser enfrentado. Embora a redução da jornada possa melhorar a qualidade de vida, considera que o aumento sustentável dos rendimentos depende de condições econômicas que permitam elevar a produtividade.

Período de adaptação

O prazo de 60 dias são para os ajustes iniciais nas empresas e uma redução da jornada, de 44 para 42 horas semanais e, depois, para 40 horas.

Ele considera o período curto para reorganizar escalas, negociar condições de trabalho e realizar mudanças administrativas. Como comparação, volta a citar o modelo chileno, cuja implementação foi planejada para ocorrer em cinco anos.

O economista defende que a adaptação considere as diferenças entre setores e portes de empresas. Também diz sobre a necessidade de avaliar medidas relacionadas ao sistema tributário, às despesas públicas e aos incentivos empresariais.

Para ele, a redução da jornada precisa ser analisada não apenas pelos benefícios imediatos aos trabalhadores, mas também pelos possíveis efeitos sobre os custos de produção, a inflação, o emprego e a renda.