Buscar no Cruzeiro

Buscar

Saúde

Canetas emagrecedoras mudam o mercado de estética em Sorocaba

Medicamentos alteram rotina alimentar e composição corporal e podem ampliar procura por cuidados durante e após a perda de peso

17 de Outubro de 2026 às 20:12
João Frizo [email protected]
Depois da perda de peso, alterações na pele e no contorno do corpo
podem levar a novas procuras por tratamentos estéticos
Depois da perda de peso, alterações na pele e no contorno do corpo podem levar a novas procuras por tratamentos estéticos (Crédito: Divulgação)

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras tem mudado não apenas a forma como parte dos pacientes busca perder peso, mas também as necessidades que aparecem durante esse processo. Com a redução do apetite provocada pelos medicamentos, questões relacionadas à alimentação, à preservação da massa muscular e à composição corporal ganham espaço. Depois da perda de peso, alterações na pele e no contorno do corpo podem levar a novas procuras por tratamentos estéticos.

Profissionais de nutrição, educação física e estética ouvidos pelo Cruzeiro do Sul apontam que o fenômeno não deve ser observado apenas pela quantidade de quilos eliminados. A mudança envolve o que foi perdido, como o organismo está sendo alimentado e quais cuidados são necessários para manter os resultados. Do ponto de vista econômico, esse movimento também pode alterar a relação entre serviços que antes disputavam o mesmo público e criar novas oportunidades dentro do setor.

Massa muscular

O professor e coordenador do curso de Educação Física da Universidade de Sorocaba (Uniso) Vagner Marcelino chama atenção para uma diferença entre perda de peso e emagrecimento. A balança considera a massa corporal total, que inclui gordura, músculos e água. Por isso, uma redução do peso não significa necessariamente que o organismo tenha eliminado apenas gordura. “Portanto, perder peso não significa necessariamente perder apenas gordura”, pontua.

Essa distinção interfere diretamente na etapa seguinte do tratamento. A perda excessiva de massa muscular pode comprometer força e funcionalidade, especialmente com o avanço da idade. Para Marcelino, o treinamento de força tem papel importante nesse período, enquanto os exercícios aeróbicos contribuem para o gasto energético e o condicionamento cardiorrespiratório.

Por isso, a atividade física não deve ser pensada apenas como uma etapa posterior à perda de peso. Quando o uso do medicamento é indicado, Marcelino defende que o exercício faça parte do cuidado desde o começo, com aumento gradual da intensidade e adaptação às condições de cada pessoa. Depois que o peso desejado é alcançado, o objetivo passa a incluir a manutenção da composição corporal, com preservação ou aumento da massa muscular e controle do percentual de gordura.

A questão muscular aparece também no consultório de Nutrição. A nutricionista, docente e coordenadora do curso de Nutrição da Uniso, Luciane Lopes Sant’Anna, relata mudanças nas dúvidas e nas necessidades apresentadas por pacientes que utilizam medicamentos para obesidade. A redução do apetite pode fazer com que algumas pessoas tenham dificuldade para atingir a quantidade necessária de alimentos e proteínas. Também são relatados sintomas como náusea, constipação, diarreia, refluxo e sensação prolongada de saciedade.

Redução do peso não significa necessariamente que o organismo tenha eliminado apenas gordura - Divulgação
Redução do peso não significa necessariamente que o organismo tenha eliminado apenas gordura (crédito: Divulgação)

Alimentação

Com menos comida sendo ingerida, aumenta a importância da qualidade nutricional de cada refeição. Luciane ressalta que não há uma alimentação padronizada para quem utiliza esses medicamentos, já que a orientação precisa considerar as condições e necessidades de cada paciente. “Não existe uma ‘dieta da caneta’. Existe uma conduta nutricional individualizada para uma pessoa que está utilizando determinado medicamento”, afirma.

A preservação da massa muscular volta a aparecer nesse ponto. A nutricionista recomenda atenção à quantidade adequada de proteínas e à distribuição desse nutriente ao longo do dia, mas ressalta que a alimentação, sozinha, não substitui o estímulo provocado pelo exercício. O treinamento de força e a orientação nutricional, portanto, atuam de maneira complementar.

A mudança no apetite também faz com que o acompanhamento nutricional assuma outra função. Em vez de estabelecer uma dieta para reduzir o peso, o profissional precisa lidar com um paciente que pode ter menos fome, comer volumes menores e apresentar sintomas que dificultam a alimentação. Para Luciane, esse período pode ser utilizado para construir hábitos que permaneçam mesmo depois da interrupção da medicação.

Ela observa que alguns pacientes procuram orientação justamente porque percebem essas mudanças. Outros, no entanto, chegam ao tratamento acreditando que o medicamento sozinho será suficiente. Na avaliação da nutricionista, a medicação pode facilitar a adesão às mudanças alimentares, mas não substitui alimentação adequada, exercício, preservação muscular ou os aspectos comportamentais e emocionais relacionados à obesidade.

Essa preocupação se estende ao período posterior ao uso do medicamento. Luciane explica que a obesidade é uma condição crônica e que mecanismos biológicos relacionados ao aumento da ingestão e à recuperação do peso podem voltar a atuar depois da interrupção do tratamento. Por isso, de acordo com ela, o período em que o paciente está utilizando a medicação deve também ser aproveitado para desenvolver hábitos sustentáveis.

Estética

É justamente quando a perda de peso começa a produzir mudanças visíveis no corpo que a questão chega ao campo da estética. Coordenador do curso de Estética e Cosmética da Uniso, Pedro Zille Dutra observa que pessoas que emagrecem rapidamente podem apresentar flacidez cutânea, perda de volume, alterações no contorno corporal e mudanças na aparência facial.

A partir dessa percepção, Pedro identifica uma mudança no tipo de cuidado procurado. “Hoje, a gente está tratando de uma estética pós-emagrecimento. Não é mais uma estética do emagrecimento”, afirma.

A diferença está no momento em que o paciente chega ao profissional. Em vez de procurar exclusivamente um procedimento com o objetivo de perder medidas, a pessoa pode chegar depois de uma redução significativa de peso em busca de cuidados relacionados à pele e ao contorno corporal. Entre os recursos citados por Pedro estão tratamentos como radiofrequência e produtos voltados à elasticidade, hidratação e estímulo de colágeno.

Isso não significa, porém, que a estética deva entrar apenas depois do emagrecimento. Pedro defende que a prevenção comece durante o próprio tratamento. O acompanhamento de diferentes profissionais pode permitir que as mudanças sejam observadas ao longo do caminho, com participação de médico, nutricionista, educador físico, psicólogo e profissional da estética, de acordo com as necessidades de cada paciente.

A própria relação entre essas áreas ajuda a explicar por que o mercado pode estar passando por uma mudança. O paciente que antes procurava um serviço específico para emagrecer pode passar a circular por diferentes profissionais durante o processo: primeiro pela avaliação e indicação médica, depois pelo acompanhamento nutricional e pela atividade física e, conforme as alterações corporais aparecem, também pela estética.

Mercado

Para o economista e professor da Uniso Renato Vaz Garcia, esse movimento pode ser entendido pelo chamado efeito de substituição. “Pode ocorrer um efeito de substituição. Parte dos consumidores troca o serviço existente pelas novas alternativas”, avalia.

No caso dos medicamentos para perda de peso, parte dos serviços tradicionalmente associados ao emagrecimento pode perder espaço, enquanto tratamentos realizados após a perda de peso podem ganhar procura. Para Renato, esse movimento representa uma oportunidade para o setor de estética, mas não significa que a demanda será permanente. A entrada de novos concorrentes pode aumentar a oferta e pressionar preços e margens.

Por isso, antes de investir em equipamentos ou ampliar estruturas, as clínicas precisam observar a evolução da procura pelos medicamentos e pelos procedimentos estéticos, além dos preços, da concorrência e do comportamento dos consumidores.

A mudança, portanto, envolve diferentes etapas: a redução do apetite interfere na alimentação; a alimentação e a atividade física ajudam na preservação da massa muscular; e as alterações corporais podem gerar novas necessidades na estética.

Luciane resume essa mudança ao defender que o resultado do tratamento não seja medido apenas pela balança. “O peso é um indicador importante, mas não é o único desfecho que devemos acompanhar.”

Para Pedro, a mudança já pode ser percebida na própria natureza dos cuidados estéticos procurados por quem passou por uma perda de peso significativa. Para Vagner, o desafio começa antes, com a preservação da massa muscular. E, para Renato, o resultado dessas mudanças pode ser uma reorganização da oferta e da procura no mercado.

Galeria

Confira a galeria de fotos