Entrevista
Sorocaba envelhece e especialista alerta para falta de preparo da sociedade
Sônia Aparecida da Silva destaca aumento da população idosa e necessidade de preservar autonomia
O envelhecimento da população brasileira exige mudanças que vão além dos cuidados com a saúde. Para a gerontóloga social Sônia Aparecida da Silva, o avanço da população idosa precisa ser acompanhado por transformações na família, na educação, na infraestrutura das cidades e na forma como a sociedade encara a velhice. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (1º), Dia Internacional da Pessoa Idosa e Dia Nacional do Idoso no Brasil, Sônia destaca que o envelhecimento da população de Sorocaba ocorre em ritmo acelerado. Segundo os números apresentados durante a conversa, a parcela de pessoas idosas passou de cerca de 7,5% da população em 2010 para 16% no Censo de 2022, o equivalente a aproximadamente 115 mil pessoas. “O envelhecimento é heterogêneo”, ressalta.
Para ela, os cuidados precisam considerar as condições e características de cada pessoa, mas há três aspectos que devem caminhar juntos: “cabeça, corpo e relações”.
Autonomia
A manutenção da autonomia aparece como um dos principais pontos da entrevista. Para Sônia, a família pode acabar prejudicando esse processo quando adota uma postura de superproteção e passa a impedir que a pessoa idosa faça atividades que ainda consegue realizar. “A família superprotetora não quer deixar o idoso fazer nada. ‘Ah, porque você já não pode, porque você já está velho, porque você vai se machucar’. Então, com a superproteção, acaba tirando a autonomia do idoso”, explica.
A orientação, segundo ela, é permitir que a pessoa continue fazendo aquilo que tem condições de realizar, enquanto a família acompanha possíveis riscos.
A relação também envolve uma questão emocional. Ela chama atenção para a frequência com que pessoas idosas dizem não querer “dar trabalho” aos familiares. “Ela se acha um fardo. Não é um fardo”, afirma.
A gerontóloga considera necessário que familiares observem a rotina de quem mora sozinho sem transformar esse acompanhamento em invasão. Para ela, cada situação exige uma avaliação própria, principalmente porque o envelhecimento não ocorre da mesma maneira para todos.
Perda de autonomia
A própria experiência com o envelhecimento também modifica a percepção da gerontóloga sobre determinadas atitudes dos idosos. Ela conta que passou a compreender melhor situações que antes poderiam parecer apenas resistência ou teimosia. “A maioria dos casos tem as suas exceções, não é frescura. É difícil você saber que perdeu a sua autonomia”, afirma.
Como exemplo, citou o uso de fraldas por pessoas que precisam de cuidados. Segundo ela, a questão não envolve apenas o objeto, mas a sensação de perda da autonomia e de exposição da intimidade. “A fralda não é uma fralda. Uma fralda é a perda da sua autonomia, é a exposição da sua intimidade para outra pessoa”.
Para Sônia, a velhice também precisa ser encarada como uma fase da vida que pode envolver projetos e atividades. “Viva sua vida com projetos, pensando que é uma fase da sua vida que precisa ser aproveitada. Não é uma fase para você esperar o fim”, diz.
Envelhecimento
O aumento da população idosa também traz responsabilidades para o poder público e para a sociedade. Além da saúde, a entrevistada cita acessibilidade, calçadas, transporte público e condições de trabalho como questões que precisam ser consideradas.
Na avaliação apresentada durante a entrevista, o Brasil ainda não está preparado para o envelhecimento da população. “Infelizmente, não está. Falta muito. É uma questão de educação mesmo, é uma questão de cultura”, afirma.
Ela defende que o preparo para o envelhecimento comece ainda na infância e não fique restrito às pessoas que já chegaram à terceira idade. “A escola tem que parar de preparar a criança só para ser adulto. Ela tem que preparar para ser velha”.
A gerontóloga também defende que ações de conscientização ocorram durante todo o ano, e não somente em datas relacionadas à população idosa. “A visibilidade do idoso não pode ser só no dia 1º de outubro, tem que ser o ano todo”.
Quando dirigir
A entrevista também aborda a relação entre envelhecimento e direção. Para Sônia, deixar de dirigir pode representar uma perda importante de autonomia, mas a redução dos reflexos pode tornar a permanência ao volante um risco. “Perder a carteira de motorista significa a perda quase total da autonomia”, afirma. Segundo ela, o momento exige diálogo e paciência da família para buscar alternativas de deslocamento sem colocar o idoso e outras pessoas em risco.
Dependência
Outro desafio apontado está na relação entre a população idosa e a tecnologia. Ela diferencia o uso das redes sociais dos aplicativos utilizados para acessar serviços essenciais.
Ela considera que as redes podem ter aspectos positivos, como permitir aprendizado e mostrar diferentes experiências de envelhecimento. Por outro lado, a comparação com perfis que apresentam uma vida considerada ideal pode gerar frustração. “A rede social para o idoso é uma faca de dois gumes”, afirma.
Já a digitalização de serviços pode representar uma dificuldade ainda maior. Marcar consultas, movimentar contas bancárias, realizar procedimentos relacionados a documentos e acessar serviços públicos são algumas das situações citadas por ela. “A tecnologia é uma coisa que eu adoro, gosto muito de tecnologia, mas do jeito que está a tecnologia, ela está excluindo muito o idoso”.
Para Sônia, não se pode simplesmente transferir para a pessoa idosa a responsabilidade de aprender a utilizar todos esses sistemas. “O idoso não tem obrigação de aprender, porque às vezes ele nem tem condições”.
Segundo ela, a dificuldade acaba criando uma dependência adicional. O idoso passa a precisar de filhos, netos, vizinhos ou outros familiares para realizar procedimentos que antes conseguia fazer sozinho.
Responsabilidade coletiva
Para a gerontóloga, o envelhecimento não deve ser tratado apenas como uma questão individual. A preparação começa com os cuidados pessoais, mas também depende da família e das condições oferecidas pela sociedade. “Todos nós vamos envelhecer”, lembra.
Nesse cenário, a discussão sobre a terceira idade também passa pela maneira como a sociedade valoriza a juventude. Também observa que padrões relacionados à aparência, trabalho e vida social podem aumentar o peso enfrentado por quem envelhece, especialmente pelas mulheres. A proposta, portanto, é mudar a forma de pensar a velhice antes que ela chegue.
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