Eleições 2026
Quatro anos depois, eleitor lembra o voto, mas pode mudar a decisão
Especialista explica que identificação com candidatos e contexto político ajudam a fixar escolhas de 2022, mas eleitor pode mudar de opinião até a votação deste ano
A maioria dos participantes de uma enquete realizada pelo Cruzeiro do Sul no Instagram afirmou se lembrar em quem votou nas eleições de 2022, mas isso não significa necessariamente que manterá a mesma escolha em 2026. A diferença entre memória eleitoral e decisão de voto é explicada pela internacionalista e cientista política Denise Lícia Boni de Oliveira Gasparini, que destaca o peso da identificação com candidatos, do contexto político e da avaliação de governos e mandatos.
Na enquete, 29 pessoas responderam à pergunta: "Você se lembra em quem votou na última eleição?". Deste total, 27 (93%) disseram que sim e duas (7%) responderam que não. Em outra pergunta, sobre a definição do voto para este ano, 37 pessoas participaram: 29 (78%) afirmaram que já sabem em quem votar, enquanto oito (22%) ainda não definiram a escolha.
Os números, porém, não podem ser tratados como uma pesquisa eleitoral. A participação foi espontânea e restrita aos usuários que responderam à enquete no perfil do jornal. Segundo Denise, esse tipo de levantamento pode atrair proporcionalmente pessoas que já têm maior interesse pelo tema político ou uma opinião formada.
Para a especialista, a memória do voto está relacionada principalmente ao tipo de eleição e ao grau de identificação estabelecido entre eleitor e candidato. Nas disputas majoritárias, como para presidente, governador e prefeito, essa lembrança tende a ser mais forte. "São disputas muito mais personalizadas", explica.
O candidato tem rosto, discurso e trajetória, além de poder despertar identificação política ou emocional. Como há menos candidatos e apenas um é eleito, o resultado também cria uma narrativa mais simples para o eleitor, seja pela vitória ou pela derrota do nome escolhido.
A experiência também pode assumir um caráter semelhante ao de uma torcida. O acompanhamento da campanha, a expectativa pelo resultado e a comemoração de uma vitória ou frustração com uma derrota ajudam a tornar a escolha mais marcante.
O menos lembrado
A relação tende a ser diferente nas eleições proporcionais, para deputados estadual e federal. Nesses casos, o eleitor encontra um número maior de candidatos e pode ter menos clareza sobre as atribuições do Legislativo e sobre a forma como o voto se transforma em representação política.
A própria regra eleitoral também torna o resultado menos intuitivo. Nas eleições proporcionais, a distribuição das cadeiras considera a votação dos partidos e federações, e não apenas a quantidade de votos individualmente recebida por cada candidato.
Para a internacionalista e cientista política, Denise Lícia Boni de Oliveira Gasparini, essa dinâmica pode fazer com que o voto proporcional seja percebido como uma escolha menos personalizada. Quanto menor o significado atribuído àquela decisão no momento da votação, maior pode ser a dificuldade de recuperá-la posteriormente.
Lembrar não significa repetir o voto
A especialista ressalta que os 93% dos participantes que afirmaram lembrar do voto de 2022 não podem ser comparados diretamente aos 78% que disseram já saber em quem votar este ano.
Isso porque as duas perguntas tratam de momentos diferentes. A primeira é retrospectiva, enquanto a segunda é prospectiva. Um eleitor pode se lembrar perfeitamente de seu candidato em 2022 e, desde então, ter mudado de opinião.
Entre uma eleição e outra, entram em cena a avaliação de governos e da oposição, o desempenho de mandatos, o cenário econômico e político e as próprias mudanças nas prioridades do eleitor.
A eleição de 2022, especialmente para presidente, também teve forte identificação política e polarização, fatores que podem contribuir para que a escolha permaneça na memória quatro anos depois. Isso, no entanto, não significa que a preferência tenha permanecido a mesma.
O que pesa na escolha
À medida que a eleição se aproxima, diferentes fatores podem influenciar a decisão. A internacionalista e cientista política, Denise Lícia Boni de Oliveira Gasparini, cita questões concretas, como economia, emprego, renda, segurança e qualidade dos serviços públicos, além da avaliação que o eleitor faz do momento vivido pelo país.
O chamado "humor social" também pode interferir. Percepções de melhora ou piora, otimismo ou pessimismo e confiança ou descontentamento podem participar da formação da escolha.
Essa avaliação, porém, não é necessariamente igual entre os eleitores. Duas pessoas podem observar os mesmos acontecimentos ou indicadores econômicos e chegar a conclusões diferentes, de acordo com suas próprias identificações políticas e valores.
As propostas dos candidatos também entram nesse processo, principalmente quando dialogam com preocupações concretas e são percebidas como viáveis. Já as redes sociais funcionam como um importante ambiente de circulação de informações, embora, segundo a especialista, nem sempre sejam responsáveis por determinar a escolha.
Muitas vezes, elas reforçam posições e identidades políticas que o eleitor já possui.
Confiança ganha espaço
Outro elemento apontado por Denise é a confiança. Conforme a eleição se aproxima, a disputa passa não apenas pela apresentação de propostas, mas também pela interpretação que cada candidato faz da realidade do país.
Nesse processo, escândalos e denúncias surgidos durante o período eleitoral também podem influenciar a avaliação dos eleitores. Segundo a cientista política, esses episódios podem ser utilizados politicamente para associar adversários a ideias como corrupção, incompetência ou falta de confiabilidade.
A especialista ressalta, portanto, que a definição do voto é resultado de uma combinação de fatores e não ocorre necessariamente no mesmo momento para todos os eleitores.
A enquete do Cruzeiro do Sul mostra, dentro do universo de participantes, que a lembrança do voto de 2022 é maior do que a parcela que já afirma ter definido a escolha para 2026. O dado não permite projetar o comportamento do eleitorado, mas ajuda a ilustrar uma distinção: lembrar em quem se votou é uma experiência diferente de decidir em quem votar novamente.
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