Buscar no Cruzeiro

Buscar

De 1926

Um século de histórias

Nascidos em outubro de 1926, Maria e José se preparam para completar 100 anos

19 de Setembro de 2026 às 19:53
Thaís Verderamis [email protected]
Maria Marquesi Galhardo
Maria Marquesi Galhardo (Crédito: Thaís Verderamis )

Os cabelos brancos, o rosto marcado pelo tempo e o sorriso tranquilo revelam histórias de quem acompanhou quase um século de transformações. Ao longo da vida, acompanharam mudanças de costumes e avanços tecnológicos, do telefone e da televisão à chegada da internet.

Nascidos no mesmo mês e no mesmo ano, Maria Marquesi Galhardo e José de Paula Rosa esperam agora por um momento especial: completar 100 anos. Ela comemora a marca no dia 20 de outubro; ele, no dia 26.

Maria recebe a reportagem sorridente, com os cabelos brancos bem cuidados, brincos e colar de pérolas, blusa polo rosa-clara, calça preta e unhas pintadas de vermelho. Mantém o jeito alegre e comunicativo que, segundo a filha Gislaine Galhardo, sempre marcou sua personalidade.

Maria cresceu na zona rural e estudou até a quarta série. Conheceu Manuel Galhardo Dias em uma fazenda onde ele trabalhava com o plantio de algodão. Os dois se casaram em 1946, quando ela tinha 20 anos. Em 1948, nasceu a primeira filha, Rosa Maria Salgado.

Manuel tornou-se caminhoneiro, enquanto Maria costurava para complementar a renda. O casal teve seis filhos, todos nascidos em casa, com a ajuda de parteiras. Três morreram ainda bebês, em decorrência de problemas de saúde. Permaneceram Rosa Maria Salgado, Elizabeth Galhardo e a caçula, Gislaine Galhardo.

Gislaine nasceu prematura, com cerca de seis meses de gestação. A parteira chegou a dizer que a criança "não ia vingar". Maria, porém, não desistiu. Com ajuda da filha mais velha e do marido, limpou o bebê e improvisou uma espécie de incubadora com uma caixa de uva e garrafas PET com água morna. A alimentação era dada com um conta-gotas, até que a menina ganhasse força.

Desde a morte de Manuel, em 2012, Gislaine mora com a mãe.

Quando perguntada sobre o segredo para chegar aos 100 anos, Maria responde com bom humor. Diz que sempre procurou comer alimentos naturais e acrescenta, sorrindo: "Uma tacinha de vinho". Para Gislaine, a disposição da mãe é uma das características que mais chamam a atenção. Ela conta que Maria sempre acompanhou as mudanças dos tempos.

"Os jovens, filhos de amigas e todos os netos, bisnetos que são jovens, sentam, puxam a cadeira e ficam horas conversando. Ela acompanhou a evolução do tempo, então ela se modernizou", conta.

Com a visão prejudicada, Maria também encontrou na tecnologia uma companhia. A assistente virtual Alexa faz parte da rotina, conversa com ela, responde perguntas e coloca suas emissoras de rádio preferidas.

Maria completa 100 anos em 20 de outubro. É mãe de três filhas, tem seis netos e cinco bisnetos. A família ainda espera a chegada da primeira tataraneta, prevista para fevereiro de 2027.

Sentado em uma poltrona de couro marrom, com camisa xadrez e os cabelos penteados, José de Paula Rosa demonstra uma memória impressionante. Conta sua trajetória em ordem cronológica, desde o nascimento, em Pilar do Sul, em 1926, quando a cidade era conhecida simplesmente como Pilar.

Em 1949, participou de um concurso para agente municipal de estatística. Aprovado, trabalhou no levantamento que antecedeu o Censo de 1950, realizado pelo IBGE, e foi para Juquiá. Foi lá que conheceu a futura esposa, Maria Izabel de Oliveira Rosa, na igreja.

Nas festas da comunidade, os dois trocavam olhares e mensagens pelo "correio elegante". Casaram-se em 1953. Seis anos depois, nasceu o primeiro filho, José Roberto. Maria Lúcia também estava a caminho.

A família mudou-se para Sorocaba para que os filhos pudessem estudar o ginásio, oferecido na época apenas em cidades maiores.

"Era uma cidade que me agradava e onde meus filhos poderiam estudar. Foi um lugar que nos recebeu muito bem", lembra.

Em Sorocaba nasceram a terceira filha, Inês, e a quarta, Márcia. José pediu transferência, e a família voltou para Juquiá e, posteriormente, para Pilar. Naquele momento, acreditava que terminaria a vida na cidade onde havia nascido.

"Achei que iria passar o resto da vida na minha cidade, perto da família e dos amigos", recorda.

Mas a trajetória profissional ainda teria novas mudanças. José prestou outro concurso, desta vez para auxiliar de fiscal de renda do Estado de São Paulo, e foi chamado para trabalhar em Tatuí. Maria Izabel estava grávida da quinta filha, Alice.

"O que é bom para você é bom para mim. Eu casei para acompanhar o meu marido", disse ela, segundo José.

Em 1968, uma reorganização na Secretaria da Fazenda levou a uma nova transferência para Sorocaba. Desta vez, a família permaneceu na cidade, onde José criou raízes.

Ele completa 100 anos em 26 de outubro. É pai de cinco filhos — um homem e quatro mulheres —, avô de nove netos e bisavô de sete. Também tem duas tataranetas.

Para Maria, manter-se ativa e não deixar a tristeza tomar conta são atitudes importantes para seguir em frente.

"Nunca deixei tomar conta, entende? Bem que tem dia que a gente está meio 'jururu'. Devido à minha força de vontade de falar 'não vou deitar', porque se eu deitar hoje, amanhã eu quero deitar de novo."

José, por sua vez, fala sobre a ansiedade que o acompanhou durante boa parte da vida.

"A ansiedade acompanha todos os dias da nossa vida. Eu sempre fui muito ansioso, queria tudo e já. E isso me prejudicou bastante. Com os conselhos dos médicos, dos familiares, a gente foi aprendendo a viver uma coisa de cada vez."

Entre os hábitos que considera importantes para a longevidade, José destaca a atividade física e a alimentação.

"Fazendo exercícios, caminhando a pé longas distâncias, isso daí foi uma das melhores coisas que eu fiz. Me alimentando bem, comendo nas horas certas foi assim que cheguei até aqui."

Maria também continua ativa. Gosta de caminhar, dançar, viajar e sair. Aos 86 anos, chegou a desfilar durante dois anos consecutivos pela escola de samba Águia de Ouro, em São Paulo.

Agora, os dois se aproximam do centenário. Em outubro, Maria e José terão motivos para comemorar trajetórias construídas ao longo de quase um século, atravessando gerações e acompanhando profundas transformações no mundo.


Galeria

Confira a galeria de fotos