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Capela de João de Camargo preserva memória de fé e acolhimento

Templo reúne referências de diferentes tradições religiosas e preserva a memória de uma das figuras que marcaram a formação social de Sorocaba

04 de Setembro de 2026 às 14:17
Vernihu Oswaldo [email protected]
Espaço de fé, calma e pertencimento
Espaço de fé, calma e pertencimento (Crédito: Fábio Rogério)

A capela de João de Camargo parece escondida entre o vai e vem dos carros em uma das vias mais movimentadas de Sorocaba. Apesar do grande fluxo de veículos, a avenida Barão de Tatuí não é exatamente o lugar mais receptivo para pedestres. Ainda assim, uma pequena construção resiste ao cenário: um espaço de fé, calma e pertencimento.

Fundada em 1906 pelo líder religioso João de Camargo, a capela se tornou um centro de diferentes tradições religiosas. A experiência de entrar ali pela primeira vez é como abrir os olhos para outro espaço. Milhares de figuras de diferentes denominações religiosas estão reunidas no mesmo ambiente. Pelas vitrines e prateleiras, orixás, santos católicos, pretos-velhos, deuses hindus e até a figura de Buda dividem o mesmo teto.

Esse amálgama de crenças também reflete a trajetória de seu criador. Como cita o historiador Carlos Cavalheiro, João de Camargo era um ex-escravizado, analfabeto e marginalizado em uma Sorocaba que buscava se tornar a “Manchester Paulista”. Ele não construiu apenas um templo de orações; ergueu um espaço de acolhimento. Na antiga região da Água Vermelha, atualmente Jardim Paulistano, loteou terras, abriu uma escola, formou uma banda de música e atuou junto à população negra e pobre que enfrentava restrições de acesso ao centro da cidade.

A força de sua liderança comunitária incomodou o poder público, lhe rendendo perseguições e até um processo criminal por curandeirismo em 1913. Mas João resistiu. Absolvido pela Justiça e reconhecido pela devoção popular, o líder religioso transformou a experiência de exclusão em uma prática de acolhimento que marcou sua trajetória até a morte, em 1942.

Entre as figuras da capela, algumas se destacam pela raridade ou pela representatividade popular. Como lembra Carlos, o acervo guarda imagens pouco conhecidas ou raras, como a da Menina Julieta, uma escultura de Santa Joana D’Arc, o Bom Jesus Negro, São Elesbão e um busto de João de Camargo.

Permanência

Em janeiro de 2024, as fortes chuvas que atingiram a cidade causaram alagamentos em diversos locais. Um dos mais atingidos foi a capela, que passa por trabalhos de restauração desde então. Apesar de alguns itens terem sido perdidos na inundação, parte do acervo foi recuperada, e a igreja permanece de portas abertas diariamente, além de sediar eventos em datas importantes e reunir líderes de diferentes religiões.

Para quem desce a avenida com pressa, a capela pode parecer apenas uma casa antiga, um respiro em meio ao concreto. Lá dentro, ainda sobrevivem um quintal, algumas árvores e bancos. A obra de João de Camargo crava os pés no chão de Sorocaba com uma força que os prédios vizinhos não alcançam. É uma estrutura pequena, de tijolo e telha, que sustenta uma parte da história social e religiosa da cidade.

Popularmente, conta-se que a capela servia de pouso e apoio para muitos viajantes. Alguns chegavam com pedidos e preces; outros, precisando apenas de acolhimento e água. Para todos, João de Camargo oferecia “chá de magnólia”. As magnólias ainda estão pelo quintal, e muitos fiéis continuam colhendo suas folhas para preparar a bebida.

Alguns monumentos permanecem apenas como lembrança. O de João de Camargo continua vivo. Em pedra ou em chá.