372 anos
Sorocaba Clube completa 100 anos como espaço de encontros e memória
Fundado em 1926, clube atravessa mudanças nos hábitos sociais, passa por restauração e mantém no Centro parte da história da cidade
“O Sorocaba Clube que vae ter a sua séde no espaçoso prédio da rua de S. Bento, fronteiro à praça Fernando Prestes, onde até ha pouco estava installado o E. C. Sorocabano.” Foi assim que o Cruzeiro do Sul descreveu a nova agremiação da cidade, na ocasião de sua “assembléa geral” de fundação, em 5 de novembro de 1926.
Benedito Maciel de Oliveira Filho, o atual presidente, resume o momento da instituição: “O clube vai de vento em popa socialmente. Recuperou a credibilidade, o prestígio, as boas frequências e as boas festas. É um clube consagrado novamente, como sempre foi. Ficou meio doentinho uma época, mas já não está mais”.
Os grandes bailes não são uma tradição restrita a Sorocaba. Ao longo do tempo, eles marcaram a vida social de boa parte do interior paulista. É comum ouvir histórias de casais que se conheceram entre uma valsa e outra ou de poetas e músicos que ganharam os holofotes sob os lustres desses salões.
Encravado na rua São Bento, de frente para a praça central, o Sorocaba Clube não nasceu apenas para ser um endereço. Embora idealizado por dissidentes de antigas rodas de carteado que queriam um ambiente próprio para o jogo, o espaço ganhou outra vocação quando as esposas exigiram algo além das cartas: elas queriam bailes, carnavais e vida social. O resultado foi a construção de um edifício que logo ganhou o apelido de “Palaciano”.
Entre 1957 e 1984, o salão principal foi palco de um dos eventos mais tradicionais da história da cidade: os bailes de debutantes. Atualmente, passear pelos corredores do edifício é como caminhar por um museu. Nas paredes, obras de arte dividem espaço com fotografias históricas, registrando as noites de gala de um período que permanece na memória de quem frequentou o clube.
A manutenção da estrutura, porém, esbarrou no desgaste do tempo. Quando a diretoria procurou empresas para reformar o prédio, ouviu de engenheiros que a obra era complexa demais para intervenções rápidas. A saída foi assumir o restauro de forma independente durante a pandemia. Com as portas fechadas para o público, o trabalho interno não parou.
“Trabalhamos todos os dias. Fomos parede por parede, pedaço por pedaço”, lembra Maciel. No salão principal, a intervenção foi extensa: “Nós tiramos o piso, esses tacos grandes, lixamos todos, fizemos um novo contrapiso e colamos novamente, camada por camada, para chegar nesse salão esplendoroso.”
O clube no centro da cidade, palco de tantas histórias, passou pelo processo de modernização sem abandonar suas características. A escritora Teresa Baddini, que por muitos anos assinou colunas sociais nos tempos de maior movimento do salão, descreve essa nova fase: “O Sorocaba Clube se tornou um espaço democrático e acessível, o único da cidade com um olhar verdadeiramente social, capaz de acolher a população em sua diversidade”.
Diante de um marco tão expresssivo, ela deixa um veredito sobre o significado do “Palaciano” para o município: “Diante de um século de história, resta um gesto à altura: levantemo-nos e aplaudamos. Aplaudamos o clube, o público e a memória daqueles que por ali passaram. Aplaudamos o solo sagrado deste chão de encontros e sonhos que Sorocaba deve reverenciar como quem beija sua própria história”.
Em 2026, o Sorocaba Clube completa 100 anos. Hoje, com sua varanda preservada, o prédio mantém tradições e histórias que atravessaram gerações. “Toda moça de Sorocaba precisa ter uma foto neste banco”, aponta Maciel.
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