372 anos
Real Fábrica de Ferro de Ipanema marca início da siderurgia no Brasil
Complexo instalado no Morro Araçoiaba produziu matéria-prima, abasteceu diferentes setores e deixou vestígios que atravessam dois séculos
Quando dois metais se chocam, o barulho é um clangor. Quase sempre, o resultado é uma faísca, e faíscas produzem fogo. Fogo produz história. E a história produz monumentos. Quem anda pelas terras da Floresta Nacional (Flona) de Ipanema hoje em dia se depara com uma das paisagens da região de Sorocaba.
A área do Morro Araçoiaba guarda uma riqueza natural e histórica. Na região, já foram registradas mais de 500 espécies de animais vertebrados, o que corresponde a 28,9% da fauna registrada em todo o Estado de São Paulo. O som da água, produzido pelos caminhos de pedra construídos há mais de 200 anos e pela barragem de Hedberg, transmite tranquilidade. Mas uma rápida olhada nas placas históricas do parque já traz pequenos excertos dos sons que ecoavam naqueles barracões.
A primeira atividade metalúrgica registrada na região remonta ao fim do século 16. Em 1597, o bandeirante e colonizador português Afonso Sardinha encontrou minério de ferro no Morro Araçoiaba e iniciou experiências de fundição em fornos rudimentares. A descoberta chamou a atenção da Coroa Portuguesa, que passou a enxergar a área como estratégica devido ao potencial de exploração do minério, considerado um recurso de grande valor naquele período por sua importância na fabricação de armas, ferramentas e utensílios.
Onde hoje turistas caminham ouvindo o som constante da água, há mais de quatro séculos ecoavam os clangores do ferro sendo moldado. A fumaça dos fornos marcava a paisagem, enquanto homens livres, europeus e trabalhadores escravizados dividiam o cotidiano de um lugar que se tornaria um dos berços da siderurgia brasileira.
Em 1810, já com a família real instalada no Brasil, Dom João VI determinou a criação da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, considerada um marco da industrialização brasileira.
“A Real Fábrica de Ferro de Ipanema foi a primeira grande experiência siderúrgica do Brasil”, afirma Fernando José Gomes Landgraf, professor titular do departamento de engenharia metalúrgica e de materiais da Escola Politécnica da USP.
Ao longo do sítio arqueológico, as estruturas ainda impressionam, mesmo dois séculos depois. A maioria dos prédios, feitos de pedra e extremamente altos, levanta dúvidas sobre como puderam ser erguidos. A Real Fábrica de Ferro abasteceu diferentes setores da economia brasileira com o ferro extraído das encostas do Morro Araçoiaba. No local foram forjados materiais para ferreiros, como barras de ferro, mas também produtos finais, a exemplo de cruzes — muitas delas presentes no Cemitério da Saudade, em Sorocaba.
Durante décadas, a qualidade do ferro produzido em Ipanema foi alvo de críticas e chegou a ser apontada como um dos motivos para o declínio da fábrica. No entanto, pesquisas recentes contestam essa interpretação. Segundo o professor Fernando Landgraf, análises metalúrgicas realizadas pela USP demonstram que o material produzido em Ipanema apresentava qualidade comparável e, em alguns aspectos, superior ao ferro importado da Inglaterra e da Escócia no século 19.
Ao contrário do que se imagina, a Real Fábrica de Ferro não se dedicava apenas à produção de armamentos. Ao longo do século 19, o complexo fabricou diversos produtos, embora o foco estivesse nos lingotes de ferro. Segundo pesquisadores, a produção abastecia arsenais militares, obras de infraestrutura e atividades agrícolas, tornando Ipanema um dos principais fornecedores de ferro do país durante o período imperial.
“Ipanema não fazia o produto acabado, ela fazia a matéria-prima”, explica Fernando. “O cara comprava uma barra de ferro e forjava grades, sacadas e outras peças. Ipanema fazia a matéria-prima.”
Entre as peças mais emblemáticas produzidas pela Real Fábrica de Ferro estão os canhões fundidos em 1840 e 1841, dois dos quais permanecem expostos na Praça Arthur Fajardo, sob os olhares do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, em Sorocaba. Eles foram desenvolvidos como uma demonstração da capacidade técnica da fábrica.
Fernando explica que as peças passaram por rigorosos testes antes de serem apresentadas ao Império. Apesar do sucesso nos testes, a Marinha Imperial considerou que os canhões eram pequenos para a defesa do litoral brasileiro, e eles nunca entraram em produção em larga escala.
Pouco tempo depois, durante a Revolução Liberal de 1842, os canhões foram retirados da fábrica pelos revoltosos e levados para Sorocaba. Um dos exemplares acabou incorporado ao acervo do Museu Paulista, enquanto outros dois permanecem expostos na cidade, se tornando símbolos materiais da história da siderurgia brasileira.
Após décadas de funcionamento e períodos alternados de expansão e dificuldades, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema teve suas atividades encerradas oficialmente em 1895.
Fernando comenta que, após algumas tentativas de reativação pelo governo federal, principalmente visando à Primeira Guerra Mundial, a fábrica foi definitivamente desativada em 1926.
Outro marco histórico preservado na Flona é o chamado Cemitério Protestante, considerado o primeiro do gênero no Brasil. Sua criação está ligada à chegada de técnicos europeus, principalmente suecos luteranos, contratados para atuar na Real Fábrica de Ferro. Como não podiam ser sepultados nos cemitérios católicos da época, foi reservado um espaço dentro da própria fábrica para seus enterros.
As imensas línguas de fogo foram se apagando aos poucos. Com o fim do Império e as mudanças políticas trazidas pela República, antigos empreendimentos ligados à Coroa perderam espaço. Ipanema, que durante décadas simbolizou o projeto industrial do período imperial, entrou em declínio.
Hoje, pelos gramados da Flona, sobram histórias: algumas se perderam pelo tempo, outras foram enterradas, mas faltou registro.
Na Universidade de Sorocaba (Uniso), um imenso relógio de sol, monumento que adorna o campus, foi fundido na Real Fábrica. Hoje, pesquisadores usam a arqueometalurgia para analisar a composição desses objetos e entender sua origem, seus métodos de fabricação e a qualidade do material utilizado no século 19, inclusive a do próprio relógio de sol que, mais de dois séculos depois, ainda marca as horas na Uniso.
Galeria
Confira a galeria de fotos