Buscar no Cruzeiro

Buscar

Entrevista

Juros, gastos públicos e impostos são entraves para crescimento do Brasil, diz economista

Em entrevista à Cruzeiro FM, Daniella Marques defende ajuste das contas públicas, redução do custo para empresas e preparação do país para os efeitos da inteligência artificial

02 de Setembro de 2026 às 20:43
João Frizo [email protected]
"Custo Brasil" representa cerca de R$ 1,7 trilhão e corresponde ao custo adicional para produzir no país em comparação com a média dos países desenvolvidos (Crédito: Divulgação)

Os juros elevados, o desequilíbrio das contas públicas e a alta carga tributária estão entre os principais obstáculos para o crescimento da economia brasileira, na avaliação da economista Daniella Marques. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (2), ela afirmou que o país precisa reorganizar as contas públicas para criar condições para a redução dos juros e, consequentemente, diminuir o custo do crédito para famílias e empresas.

Segundo Daniella, o Brasil enfrenta uma combinação de endividamento, juros elevados e aumento da carga tributária. Ela afirma que o governo tem recorrido à criação e ao aumento de tributos para compensar o crescimento das despesas, sem solucionar o problema das contas públicas.

Para a economista, o primeiro passo para uma retomada sustentável seria colocar as contas públicas em ordem. Com isso, seria possível criar condições para que o Banco Central reduza os juros, diminuindo o custo do crédito e o peso das dívidas para empresas e famílias. "O primeiro passo essencial e urgente para o Brasil voltar a crescer (...) é justamente botar as contas no lugar para possibilitar que o Banco Central reduza os juros", afirma.

Impacto no bolso

A economista relaciona o cenário fiscal ao preço dos produtos básicos. Segundo ela, quando os juros sobem, o custo de capital também aumenta para quem produz alimentos. Esse custo acaba sendo incorporado aos preços pagos pelo consumidor.

Daniella afirma ainda que a elevação de impostos contribui para pressionar os preços. Segundo ela, o chamado "custo Brasil" representa cerca de R$ 1,7 trilhão e corresponde ao custo adicional para produzir no país em comparação com a média dos países desenvolvidos.

Na avaliação da economista, uma parcela significativa do preço final de produtos e serviços está relacionada a essa estrutura de custos. "Hoje, quase 40% de um preço de um alimento ou de um serviço vem dessa estrutura de custo Brasil", afirma.

Por isso, ela defende a redução de impostos e juros e uma administração pública mais eficiente. Entre as alternativas citadas estão o uso de tecnologia e inteligência artificial para reduzir custos e melhorar a prestação de serviços.

Pequenos negócios

Para Daniella, a retomada econômica também depende de medidas direcionadas aos pequenos empreendedores. Ela defende políticas de crédito, capacitação e incentivos à formalização.

A economista cita como exemplo o programa Minha Primeira Empresa, que, segundo ela, prevê registro automático, diferimento de impostos e acesso a crédito para quem está começando um negócio. A proposta, na avaliação dela, reduz parte da burocracia enfrentada pelos empreendedores antes mesmo de iniciarem suas atividades.

Daniella também cita Sorocaba como um polo de empreendedorismo e afirma que a região possui mais de 130 mil empresas ativas. Ao mesmo tempo, aponta a falta de mão de obra qualificada como um dos problemas enfrentados pela indústria.

Uma das soluções defendidas por ela é aproximar empresas e trabalhadores por meio de tecnologia, permitindo identificar vagas, oferecer capacitação e facilitar o ingresso ou a recolocação no mercado de trabalho.

Tecnologia e bancos

A transformação provocada pela inteligência artificial também foi abordada durante a entrevista. Daniella avalia que a tecnologia já faz parte da economia e que o desafio é preparar a população para acompanhar essa mudança.

A discussão também envolve o fechamento de agências bancárias e a substituição de parte dos serviços presenciais por plataformas digitais. A economista afirma que a digitalização pode facilitar a vida de muitos consumidores, mas ressalta a importância de manter atendimento adequado para idosos e pessoas que têm dificuldade de utilizar ferramentas digitais.

Ela defende que bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal, tenham também uma função de orientação financeira. A ideia seria oferecer atendimento capaz de ajudar famílias endividadas a reorganizar as contas e voltar a construir patrimônio.

Daniella também cita a experiência do programa Caixa para Elas, implementado durante sua gestão na instituição, como referência para esse modelo de atendimento.

Reforma Tributária

A Reforma Tributária também foi criticada pela economista. Daniella afirma que a proposta, em sua avaliação, se afastou do objetivo inicial de simplificar o sistema e reduzir a carga tributária.

Ela questiona a quantidade de exceções criadas durante a tramitação e afirma que isso pode elevar os custos para empresas e consumidores. Segundo Daniella, o impacto poderá ser percebido em serviços. "Ela ficou deformada, ela é uma deforma, porque o objetivo era simplificar impostos e chegar em dois impostos e ficou em cinco", afirma.

A economista defende ajustes na reforma antes que a transição avance e afirma que um grupo de especialistas trabalha em propostas para aprimorar o modelo. Segundo ela, o objetivo seria reduzir distorções e evitar novos aumentos de preços.

Daniella reconhece, porém, que a reforma criou uma estrutura que não precisa ser abandonada. Na avaliação dela, o caminho seria fazer ajustes para reduzir os efeitos negativos sobre empresas e consumidores.

Eleições

Com a proximidade das eleições, Daniella também relaciona o cenário político às perspectivas econômicas para 2027. Para ela, o ambiente institucional é importante para que investidores tenham segurança para realizar investimentos de longo prazo.

A economista defende uma maior estabilidade institucional e afirma que o resultado das escolhas políticas terá impacto sobre a condução da economia nos próximos anos.