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Perigos Virtuais

Entre o silêncio e os sinais do abuso

Família, escola, sociedade e poder público têm papel fundamental na prevenção e identificação de abusos contra crianças e adolescentes

05 de Setembro de 2026 às 20:00
Thaís Verderamis [email protected]
Conhecer mudanças de comportamento, manter diálogo e oferecer educação sexual estão entre as formas de reduzir a vulnerabilidade de crianças e adolescentes também no ambiente virtual
Conhecer mudanças de comportamento, manter diálogo e oferecer educação sexual estão entre as formas de reduzir a vulnerabilidade de crianças e adolescentes também no ambiente virtual (Crédito: Arte: Vitor Moretti)

Existe um provérbio africano que diz que "é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". No Brasil, o artigo 227 da Constituição Federal de 1988 estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, direitos fundamentais como vida, saúde, educação, lazer, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Afinal, a responsabilidade por uma criança ou adolescente se tornar vítima de abuso ou exploração sexual é dos pais ou da família? Não. De acordo com a delegada da Polícia Civil e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise de Dados (Noad) do Estado de São Paulo, Lisandréa Zonzini Salvariego, cada família tem uma composição e uma realidade diferente. Pode haver mães, pais ou responsáveis que trabalham em mais de um emprego para garantir a sobrevivência de todos.

Conforme estabelece a Constituição, porém, a segurança, a proteção e o cuidado de crianças e adolescentes são responsabilidades de toda a sociedade.

Como explica a psicóloga especializada em violência do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps IJ) "Ser e Conviver", Paula Mazzetti, o silêncio beneficia os abusadores. A informação, por outro lado, permite que a população conheça os riscos, fique atenta e possa agir para impedir que predadores encontrem espaço para fazer novas vítimas.

Família

Qual é o comportamento habitual de uma criança ou adolescente? Como ela se comporta no dia a dia, como interage, conversa, realiza as tarefas e ocupa o tempo livre? Conhecer os filhos, sobrinhos, netos, alunos ou qualquer criança ou adolescente que faça parte da rotina pode ser determinante para perceber quando algo está errado, ainda que a vítima não tenha coragem de falar ou contar sobre o problema que está enfrentando.

A delegada Lisandréa apresenta um caso real que considera emblemático. Uma vítima passou a apresentar um rendimento excepcional na escola, justamente o ambiente em que não tinha acesso ao celular e no qual se sentia segura. A mudança de comportamento chamou a atenção e ajudou a revelar que havia algo errado.

Os sinais nem sempre são iguais para todas as crianças e adolescentes, mas mudanças bruscas de comportamento devem servir como alerta. Segundo a delegada, um dos principais sinais é o isolamento social. Uma criança ou adolescente muito conectado às telas que, de repente, passa a evitá-las, demonstra medo ou passa a associá-las a algo negativo pode estar sinalizando que existe um problema.

Outros comportamentos também merecem atenção, conforme explica a psicóloga Paula Mazzetti. Entre eles estão o retorno da enurese, ou seja, voltar a fazer xixi na cama, choro frequente, tristeza, pesadelos e comportamentos ou falas que não correspondem à faixa etária. "Uma criança com comportamento mais sexualizado que não condiz com aquela faixa etária", afirma.

Evidências físicas de sofrimento são um alerta ainda mais grave. A automutilação também pode estar relacionada a situações de violência virtual. De acordo com a conselheira tutelar Lígia Guerra da Cunha Geminiani, em alguns casos os pais só percebem a dimensão do problema quando os filhos apresentam ferimentos. Ao investigar a situação, descobrem que a criança ou o adolescente estava sendo vítima de ameaças feitas por pessoas conhecidas em jogos, plataformas ou desafios virtuais.

Mas por que algumas vítimas acabam sendo mais suscetíveis à manipulação? Em determinadas situações, a criança ou o adolescente pode estar simplesmente buscando atenção. 

"Todos nós queremos alguém que nos dê atenção, que nos valide, que nos ame, e que sejamos vistas. E aí, se ela não tem isso dentro do ambiente familiar, alguém que faça isso, uma pessoa que tem uma intenção de uma violência, ela pode cair" Paula Mazzetti

Depois do abuso, muitas vítimas não conseguem falar sobre o que aconteceu. Internamente, surgem questionamentos e sentimentos como culpa, medo e vergonha. "Ela não entende direito, mas o que é isso? É coisa da minha cabeça? Isso poderia ter acontecido? Será que eu tenho culpa? Então, fica tudo muito misturado e a criança é permeada por culpa, vergonha e nem sempre ela consegue buscar alguém, contar para alguém", acrescenta Paula.

A especialista explica ainda que crianças não possuem a compreensão sobre questões sexuais da mesma maneira que os adultos. Elas podem ter curiosidade, mas não interpretam essas situações com a maturidade de uma pessoa adulta. Por isso, a educação sexual, incluindo o conhecimento sobre o próprio corpo, a identificação das partes íntimas e as formas de proteção, é uma ferramenta importante para a prevenção.

Educação sexual e proteção

Segundo Paula, a educação sexual é importante e deve começar desde cedo. "A educação sexual acontece desde bebê", atesta. Isso não significa antecipar discussões sobre sexualidade, mas ensinar a criança a nomear as partes do corpo, compreender quem pode ajudá-la durante momentos de higiene e reconhecer comportamentos incomuns que devem ser comunicados aos responsáveis.

Esse conhecimento também funciona como instrumento de proteção no ambiente virtual.

"Se eu não instrumentalizo essa criança, ela fica mais vulnerável" Paula Mazzetti

Conforme a idade e o nível de acesso às redes, os pais ou responsáveis devem orientar e acompanhar o que crianças e adolescentes consomem, quais jogos utilizam e com quem se comunicam nas plataformas digitais.

Os profissionais ressaltam que acompanhar a atividade dos filhos no ambiente on-line não significa necessariamente invadir sua privacidade. Trata-se, segundo eles, de uma forma de cuidado e proteção.

A conselheira tutelar Lígia destaca que o diálogo entre pais e filhos é fundamental e que os responsáveis precisam conhecer os ambientes digitais frequentados pelos menores. Ela também cita o ECA Digital, que estabelece regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual.

Além dos riscos representados pelo contato com desconhecidos, o ambiente digital expõe crianças e adolescentes a outro tipo de violência: o acesso precoce a conteúdos sexuais. A apresentação de material sexual para menores também pode configurar uma forma de violência sexual no ambiente virtual.

A exposição pode ser especialmente prejudicial durante a fase de crescimento, quando crianças e adolescentes ainda estão formando sua compreensão sobre relacionamentos, corpo e sexualidade.

Pornografia

A exposição precoce à pornografia pode levar a uma percepção distorcida sobre relacionamentos e sobre a própria sexualidade. Sem maturidade para compreender que o conteúdo exibido é uma produção destinada ao público adulto, crianças e adolescentes podem interpretar a ficção como representação da realidade.

"Eu atendo crianças que têm vício em pornografia. Eles estão absorvendo isso, sendo nutridos por isso, acreditando que uma relação sexual é aquilo. Não é. É um filme, é uma performance" Paula Mazzetti

Durante o crescimento e o desenvolvimento, esse contato pode contribuir para a reprodução de comportamentos abusivos apresentados nas telas ou para dificuldades nos relacionamentos reais, diante da diferença entre a expectativa criada pelo conteúdo e a realidade.

O consumo também pode levar à busca por conteúdos cada vez mais extremos para produzir o mesmo nível de estímulo. "Chega uma hora que consumir a pornografia pode não satisfazer mais", afirma a psicóloga especialista em psicologia jurídica e professora de graduação e pós-graduação Rosana Cathya Ragazzoni.

Sociedade

A violência sexual contra crianças e adolescentes também precisa ser compreendida dentro de um contexto social mais amplo. Estruturas culturais que reproduzem desigualdades entre homens e mulheres podem contribuir para a manutenção de comportamentos abusivos e para a naturalização de relações baseadas em poder e controle.

O machismo estrutural, por exemplo, coloca homens e mulheres em posições desiguais. Em determinados grupos e movimentos on-line, como os chamados "red pills", termo associado à ideia de "pílula vermelha", discursos misóginos — de aversão ou desprezo às mulheres — podem reforçar essa visão.

Esses comportamentos também podem ser reproduzidos dentro de casa. Um pai que grita com a mãe, agride ou não respeita a companheira transmite uma mensagem às crianças. Da mesma forma, filhas que recebem mais restrições e responsabilidades domésticas enquanto filhos homens são educados sem os mesmos limites podem aprender, desde cedo, papéis desiguais entre os gêneros.

Na escola, comportamentos como meninos que não respeitam o "não" das meninas também fazem parte desse processo de construção social de limites e relações.

De acordo com Rosana, os fatores socioculturais têm peso importante na compreensão da violência. "Culturalmente, os aspectos socioculturais, dentro desses múltiplos fatores, têm um peso enorme. Porque a gente ainda tem o parâmetro da mulher mais submissa, a gente ainda tem a desigualdade salarial, a gente ainda tem as diferenças todas de gênero que acabam trazendo as desigualdades", explica.

Essas questões, segundo a especialista, podem contribuir para a formação de um ambiente social em que determinadas atitudes são naturalizadas conforme o gênero. "Esse caldo sociocultural traz autorizações e negações conforme o gênero e normalmente quem sofre é a mulher", conclui Rosana.

Continua... 

Este conteúdo faz parte de uma série de reportagens que aborda o abuso e a exploração sexual virtual de crianças e adolescentes. Na próxima edição será abordado como denunciar, como acolher a vítima e como funciona a rede de proteção de Sorocaba.

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