Perigos Virtuais
Como predadores identificam, manipulam e exploram crianças e adolescentes
Vulnerabilidades emocionais podem facilitar a aproximação no ambiente virtual, mas especialistas alertam: não existe um perfil único de vítima ou de agressor
O que faz com que uma criança ou um adolescente se torne um alvo fácil nas redes? Como os predadores selecionam as vítimas nas quais vão investir? Não há uma receita pronta ou um passo a passo que garanta sucesso, mas alguns fatores se repetem em muitas histórias de violência contra crianças e adolescentes.
Problemas relacionados à autoestima ou à convivência familiar podem contribuir para a ausência de atitudes importantes, como elogios, acolhimento e demonstrações de carinho. Essas vulnerabilidades podem facilitar a aproximação de pessoas estranhas no ambiente virtual, que passam a explorar as fragilidades de possíveis vítimas.
De acordo com a psicóloga especializada em violência do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps IJ) "Ser e Conviver", Paula Mazzetti, baixa autoestima, pouca atenção em casa, falta de supervisão dos pais ou responsáveis, negligência emocional, ausência de vínculo com adultos de referência e falta de educação sexual estão entre os fatores que podem aumentar a exposição de crianças e adolescentes ao risco.
"Existe um padrão de comportamento: crianças que não são vistas, não são cuidadas, não têm atenção"
A autoestima da criança é construída aos poucos, a partir das relações familiares e da maneira como ela é tratada durante o crescimento e o desenvolvimento. Para Paula, esse processo ocorre diariamente. "A construção da autoestima acontece todos os dias", comenta a psicóloga.
De acordo com a delegada da Polícia Civil e coordenadora do Núcleo de Observação e Análise de Dados (Noad) do Estado de São Paulo, Lisandréa Zonzini Salvariego, aquilo que não é oferecido no ambiente familiar pode ser utilizado como isca no ambiente on-line.
"Quando eu não tenho uma família conectada, que não faz uma refeição juntos. A mãe e o pai não olham no olho do filho, não perguntam como foi o dia. As meninas não estão acostumadas a receber mais elogios. Olha como seu cabelo é lindo, como seu olho tá lindo, como seu vestido tá lindo. Então, elas são muito vulneráveis on-line", explica.
Ainda conforme Paula, durante o crescimento e o desenvolvimento, a criança precisa ser ouvida, ter seus sentimentos validados, contar com adultos presentes e ter liberdade para expressar o "não" e ser respeitada. Isso, segundo ela, não significa criar uma relação permissiva, mas oferecer compreensão e acolhimento. "Toda criança vai dizer: 'não, eu não quero'. E não é por isso que você vai ser permissivo. Mas ela precisa ter, em alguma instância, alguém que a acolha."
Não existe, porém, um padrão determinante que permita afirmar que as vítimas vêm de famílias desestruturadas ou, ao contrário, de famílias estruturadas. Há fatores que aparecem em diferentes histórias, como solidão, falta de atenção e violência psicológica, que pode envolver humilhações, ameaças e agressões verbais.
Se, do lado das vítimas, algumas vulnerabilidades se repetem, entre os agressores a lógica é diferente. Crianças e adolescentes podem compartilhar determinadas fragilidades emocionais, mas não existe um rosto ou um comportamento único capaz de identificar quem está do outro lado da tela.
Informação de qualidade, na palma da sua mão.
Siga o canal do Jornal Cruzeiro do Sul no WhatsApp
Predadores
Qual é o rosto de um abusador? De um pedófilo? De um aliciador? É possível identificar essas pessoas no convívio social? De acordo com as especialistas, não.
Essas pessoas podem desempenhar diferentes papéis na sociedade e apresentar comportamentos distintos em diferentes ambientes. Podem ser trabalhadores, pais, maridos, irmãos ou filhos e não apresentar sinais evidentes de comportamento abusivo no cotidiano. No ambiente virtual, porém, podem assumir outra postura.
Segundo a psicóloga especialista em psicologia Jurídica e professora de graduação e pós-graduação Rosana Cathya Ragazzoni, não existe um perfil específico que permita identificar um agressor sexual de crianças e adolescentes.
"Não há um perfil específico. Quando a gente revisa a literatura tem muita coisa escrita a respeito de vários tipos. Mas eu entendo que, na vida prática do dia a dia, isso faz pouca diferença", afirma.
Na análise da especialista, há diferenças entre o chamado molestador e a pessoa com transtorno pedofílico. O primeiro pode apresentar um comportamento mais oportunista e aproveitar circunstâncias que favoreçam a prática do abuso. "Surgiu a oportunidade, se ele tem esse comportamento mais compulsivo, muito provavelmente vai aproveitar e cometer o abuso", acrescenta Rosana.
Já a pedofilia é classificada como um transtorno pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde, e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), da Associação Americana de Psiquiatria.
De acordo com os critérios clínicos apresentados pela especialista, o transtorno pedofílico envolve fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais recorrentes e intensos relacionados a crianças pré-púberes. O diagnóstico depende de critérios específicos, incluindo idade e diferença etária entre o indivíduo e a criança.
A especialista explica ainda que, segundo o DSM-5-TR, estima-se que entre 3% e 5% dos homens apresentem o transtorno pedofílico, embora existam limitações na precisão dessas estimativas, entre outros motivos, pela subnotificação dos casos.
Os dois perfis também apresentam diferenças em relação à prática de outros crimes. "O molestador, até por ele ser mais oportunista, muitas vezes tem uma ficha criminal mais variada. Então, ele não necessariamente se envolve só num comportamento abusivo com crianças. Ele pode praticar outros tipos de crimes. O pedófilo geralmente não pratica outros tipos de crime, porque é uma relação muito mais dele com ele mesmo, que faz com que ele tenha esse comportamento", detalha Rosana.
Ainda de acordo com a especialista, os agressores podem criar justificativas para seus próprios comportamentos. Isso, porém, não elimina a responsabilidade pelo abuso ou pela exploração sexual de crianças e adolescentes.
"Nós precisamos que o agressor assuma a sua responsabilidade"
Para Rosana, reconhecer essa responsabilidade é importante tanto para a prevenção quanto para a compreensão dos fatores que podem estar relacionados à formação de comportamentos abusivos.
A construção da manipulação
No ambiente virtual, também surgem padrões de comportamento ainda pouco conhecidos pelo público. Entre eles estão o sadismo, o zoosadismo e a zoofilia.
O sadismo envolve a obtenção de prazer a partir da dor, do sofrimento, da humilhação ou do controle sobre outra pessoa. O zoosadismo está relacionado ao prazer obtido com a tortura de animais, enquanto a zoofilia se refere à atração ou ao interesse sexual por animais.
De acordo com a delegada Lisandréa Zonzini Salvariego, os casos identificados pelas autoridades são especialmente graves. Entre as situações investigadas estão transmissões ao vivo em que vítimas são submetidas a violência ou obrigadas a praticar atos contra si mesmas ou contra animais.
No ambiente virtual, os predadores podem identificar possíveis vítimas e passar tempo construindo uma relação de confiança. Segundo Rosana, a palavra que define esse processo é "intencionalidade".
Quando uma vítima é identificada, o agressor passa a observar suas reações e avaliar se ela corresponde ao comportamento esperado. Caso contrário, pode buscar outra vítima. Todo o processo de aproximação e manipulação pode levar tempo.
No início, os predadores observam e selecionam possíveis vítimas. "Ele vai observando o movimento desses grupos, o modo como cada um se posiciona. Em algum momento ele vai percebendo alguns fatores mais vulneráveis", explica Rosana.
Depois, começa a manipulação, inicialmente de maneira sutil. O objetivo é construir um vínculo e estabelecer uma relação de confiança com a vítima. "Essa manipulação psicológica vai visando construir um vínculo, uma relação de confiança", destaca.
Após o contato e a aproximação, o predador passa a acumular informações sobre a vítima. Pode descobrir onde ela mora, onde estuda, qual é sua rotina, se frequenta alguma igreja ou outro espaço, onde os pais trabalham e outros detalhes da vida familiar.
Com acesso a essas informações, o agressor passa a dispor de elementos que podem ser utilizados para ameaçar, extorquir e obrigar a vítima a cumprir determinadas exigências. Em alguns casos, as ameaças também podem envolver familiares.
Biologia
Diante de crimes tão violentos, surge uma pergunta: existe alguma explicação biológica para esse tipo de comportamento? No imaginário popular, ainda é comum ouvir justificativas relacionadas a um suposto maior desejo sexual masculino ou a uma dificuldade natural de controle.
A psicóloga Rosana, porém, explica que a ciência ainda não identificou diferenças biológicas capazes de explicar isoladamente comportamentos de abuso ou exploração sexual. "Mais recentemente se retoma esse assunto de verificar se há alguma alteração neuroquímica, genética, biológica, que a gente pudesse usar para fundamentar uma análise. Não encontrei nenhum estudo que trouxesse ou que isolasse um gene, ou que trouxesse uma questão endócrina, hormonal. A gente não tem, a nível biológico, nada que isoladamente possa caracterizar esse tipo de comportamento."
Segundo a especialista, do ponto de vista psicológico, podem existir dificuldades relacionadas ao controle inibitório, à tomada de decisões e até ao desenvolvimento da empatia pelo outro. Nenhum desses fatores, entretanto, explica ou justifica a prática de violência, abuso ou exploração.
Compreender quem são as vítimas, como atuam os predadores e quais mecanismos sustentam esse tipo de violência é um passo importante para a prevenção. Mas reconhecer o abuso enquanto ele acontece continua sendo um dos maiores desafios para famílias, profissionais e para a própria sociedade.
Continua...
Este conteúdo faz parte de uma série de reportagens que aborda o abuso e a exploração sexual virtual de crianças e adolescentes. Na próxima edição será abordado como as famílias podem identificar e ajudar as vítimas e explicar como funciona a rede de proteção em Sorocaba.
Galeria
Confira a galeria de fotos