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Agosto Lilás

Agosto Lilás reforça importância de reconhecer e denunciar a violência contra a mulher

Registros policiais mostram cenário ainda preocupante, mas delegada e Conselho dos Direitos da Mulher apontam maior conscientização e procura por ajuda

28 de Agosto de 2026 às 20:43
João Frizo [email protected]
Em caso de emergência, acione a Polícia Militar pelo 190
Em caso de emergência, acione a Polícia Militar pelo 190 (Crédito: Divulgação)

O encerramento do Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher, coloca em evidência não apenas a permanência do problema, mas também mudanças na forma como ele é reconhecido e denunciado. Dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) mostram a dimensão das ocorrências registradas no Interior, enquanto profissionais que atuam diretamente na área apontam que mais mulheres têm identificado situações abusivas e procurado os serviços de proteção.

No primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025, houve redução em diversos registros no Interior paulista. Os casos de feminicídio passaram de 97 para 71, queda de 26,8%. Também recuaram os registros de lesão corporal dolosa, de 20.772 para 19.030 (-8,4%); ameaça, de 33.214 para 30.257 (-8,9%); perseguição, de 10.070 para 8.502 (-15,6%); e violência psicológica contra a mulher, de 2.428 para 1.790 (-26,3%). O Interior, vale ressaltar, é a divisão territorial utilizada pela SSP e reúne municípios de todo o Estado, não correspondendo exclusivamente a Sorocaba.

Mais denúncias

Para a delegada Renata Zanin, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Sorocaba, a análise dos números precisa considerar também a disposição crescente das mulheres em procurar ajuda. Segundo ela, a unidade registra, desde o início do ano, uma média de 420 a 430 solicitações de medidas protetivas por mês. O patamar, segundo a percepção da delegada, está acima do registrado no ano passado.

Zanin destaca que o aumento das denúncias tem dois lados. A violência ainda existir é motivo de preocupação, mas a maior procura pelos órgãos de proteção demonstra que as vítimas estão mais atentas aos sinais e se sentem mais seguras para falar. “O aumento das denúncias também me mostra que as mulheres estão cada vez mais atentas”, afirma. Para ela, procurar a delegacia também demonstra que a vítima se sente acolhida e reconhece que tem voz.

A delegada também chama atenção para o papel de pessoas próximas. Familiares, amigos e vizinhos podem perceber situações que a própria vítima ainda não identifica como violência. Segundo Zanin, esse apoio pode ser o primeiro passo para que a mulher compreenda que está em um ambiente abusivo e seja encaminhada aos órgãos de proteção.

Proteção ampliada

A proteção às mulheres também ganhou um novo entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF). Na semana passada, dia 19 de agosto, a Corte decidiu que medidas protetivas podem ser concedidas a mulheres mesmo quando não existe relação doméstica, familiar ou afetiva com o autor da violência. A decisão amplia a proteção para situações em que a agressão esteja relacionada à condição de gênero.

A delegada, explica que a medida não passa a ser automática pelo simples fato de a vítima ser mulher. “É importante que a gente defina que essa medida protetiva não é só porque ela é mulher, mas porque ela sofreu a violência em decorrência do gênero feminino”, afirma.

Segundo Zanin, a análise é semelhante à diferenciação entre homicídio e feminicídio. “Um homicídio de uma mulher, porque ela foi assaltada, ou um acidente de trânsito, é um homicídio. Ela morrer em razão da condição feminina, da condição de gênero dela, aí entra no feminicídio. Então, é a mesma coisa dessa medida protetiva”, explica.

Violência

A mudança na percepção também aparece no trabalho desenvolvido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM) de Sorocaba. A presidente da entidade, Vânia Carvalho, afirma que as mulheres estão mais informadas sobre seus direitos e mais seguras para falar sobre situações que durante anos permaneceram silenciadas.

Vânia, porém, faz uma ressalva importante: o aumento das denúncias não pode ser interpretado como aumento da violência. “Muitas vezes, significa que uma violência que já existia e permanecia escondida passou a ser reconhecida, nomeada e denunciada”, explica. Para ela, o acolhimento também contribui para que mais mulheres rompam o silêncio.

Nesse processo, também aumentou a compreensão sobre comportamentos que nem sempre eram reconhecidos como violência. Segundo o CMDM, atualmente há maior percepção sobre violência psicológica, moral, sexual e patrimonial, além de situações de perseguição, controle e ameaça. O reconhecimento é considerado um avanço porque comportamentos como ciúme, posse, humilhação e controle foram, durante muito tempo, naturalizados dentro das relações.

O Conselho também aponta um novo desafio entre adolescentes e jovens, relacionado à circulação de discursos misóginos e à banalização da violência nas redes sociais. Ao mesmo tempo em que a internet ampliou o acesso à informação, surgiram formas de violência como perseguição digital, exposição de imagens íntimas, chantagem, ameaças e humilhações públicas.

Responsabilidade

Outro avanço apontado pelo Conselho é a participação de terceiros. Segundo Vânia, a antiga ideia de que problemas entre casais deveriam permanecer restritos à vida privada vem sendo substituída pela compreensão de que a violência contra a mulher é uma violação de direitos e uma responsabilidade coletiva. Familiares, amigos e vizinhos podem incentivar a vítima a procurar ajuda e evitar que a situação permaneça escondida.

Para o CMDM, no entanto, ainda há desafios na prevenção, no fortalecimento e na integração da rede de proteção, na autonomia econômica das mulheres e na garantia de proteção depois da denúncia. O Conselho também defende que homens e meninos sejam incluídos nas ações preventivas, com educação sobre respeito, consentimento, igualdade e responsabilidade nas relações.

Onde buscar ajuda

Mulheres vítimas de violência podem procurar a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ou qualquer delegacia para registrar a ocorrência e solicitar medida protetiva. O registro também pode ser feito pela Delegacia Eletrônica. Em situações de emergência, quando houver risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.

Em Sorocaba, a rede municipal conta ainda com o Centro de Referência da Mulher (Cerem), que oferece acolhimento e orientação às vítimas, além de serviços da Secretaria da Mulher e da Guarda Civil Municipal. O município também mantém o Protege Mulher, programa voltado a mulheres que possuem medida protetiva e que permite o acionamento da GCM em situações de risco.

Entre as ações municipais estão o acolhimento de mulheres vítimas de violência e seus filhos, capacitação profissional e iniciativas de orientação jurídica.

Para Vânia, o combate à violência precisa ultrapassar as campanhas de determinadas épocas do ano. “O enfrentamento à violência não começa somente depois da agressão. Ele começa muito antes, com educação, informação, prevenção, fortalecimento da autonomia e construção de relações baseadas em respeito.”

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