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Lula promete recursos para submarino nuclear

Presidente criticou descontinuidade dos investimentos e afirmou que levará a Brasília a discussão sobre o orçamento do projeto

19 de Agosto de 2026 às 17:40
Caroline Mendes [email protected]
Presidente Lula em Aramar
Presidente Lula em Aramar (Crédito: Fábio Rogério)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (19), durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar (CIANA), em Iperó, que vai trabalhar para garantir os recursos necessários à conclusão do submarino brasileiro de propulsão nuclear. Em discurso aos trabalhadores, engenheiros, pesquisadores e militares envolvidos no programa, Lula criticou a descontinuidade dos investimentos ao longo dos anos e disse que levará a discussão sobre o orçamento do projeto de volta a Brasília. “Eu volto para Brasília, e vou dizer para vocês, nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine de uma vez por todas esse submarino”, afirmou o presidente.

Lula lembrou que esteve em Aramar em 2007 e que, naquele momento, o projeto enfrentava problemas financeiros. Segundo ele, foram liberados R$ 1,4 bilhão para permitir a continuidade das atividades, mas a inconstância dos recursos nos anos seguintes voltou a comprometer o andamento do programa.

Para o presidente, um projeto de tamanha complexidade não pode depender exclusivamente da disponibilidade anual do Orçamento da União. Ele comparou a situação a uma casa que precisa de um telhado, mas recebe recursos suficientes apenas para cobrir pequenas partes a cada ano. Na avaliação de Lula, a falta de continuidade impede que o país estabeleça um cronograma seguro para a conclusão de projetos tecnológicos de longo prazo. “Isso não permite que tenha uma sequência de continuidade, para que a gente possa dizer: vamos concluir o projeto daqui a tanto tempo”, afirmou.

Projeto do Brasil


Durante o discurso, Lula fez questão de diferenciar o projeto do submarino de uma iniciativa restrita à Marinha. Segundo ele, os investimentos representam uma política estratégica de Estado, com reflexos em diferentes setores da economia e da ciência. “Esse navio não é uma coisa da Marinha. Esse navio é uma coisa do Brasil, feito pela Marinha, pela engenharia da Marinha”, declarou.

Na avaliação do presidente, a continuidade do programa é necessária não apenas para que o país tenha um submarino de propulsão nuclear, mas também para preservar e ampliar o conhecimento desenvolvido por engenheiros, pesquisadores e profissionais especializados.

Lula afirmou que, sem projetos capazes de absorver essa mão de obra, profissionais formados em áreas como engenharia podem acabar procurando oportunidades no exterior.

“Se a gente não qualificar alguma coisa para esse jovem ter trabalho depois que ele se formar, ele vai ter o engenho espacial para trabalhar onde? Em outro país. E nós queremos que ele fique no Brasil”, disse.

A preocupação com a formação e retenção de profissionais especializados também foi relacionada pelo presidente ao desenvolvimento de outras áreas estratégicas. Segundo ele, o conhecimento acumulado no programa nuclear pode gerar aplicações em diferentes setores, além de estimular a indústria nacional.

Soberania e tecnologia


Lula associou repetidamente o projeto à soberania nacional. Para o presidente, o domínio de tecnologias relacionadas à propulsão nuclear coloca o país em uma posição estratégica e reduz a dependência de outras nações.

Ele também afirmou que o desenvolvimento do submarino deve ser visto como parte de um esforço maior de domínio tecnológico, incluindo o ciclo do combustível nuclear e o enriquecimento de urânio para fins previstos na legislação brasileira.

“O submarino é importante para o Brasil. O submarino é importante para a nossa soberania. O submarino é importante para o nosso desenvolvimento tecnológico”, afirmou.

Segundo Lula, o desenvolvimento do programa poderá gerar conhecimentos que ultrapassam a área militar e alcançar setores como energia e saúde.“Não estamos pensando em fazer o submarino só porque é bonito fazer, não. É porque desenvolver o submarino vai desenvolver múltiplas coisas nesse país”, disse.

O presidente defendeu ainda que o país avance na capacidade de produzir e dominar tecnologias nucleares e que esse conhecimento possa, dentro das regras estabelecidas pela Constituição, ser utilizado também para fins pacíficos.

Três projetos recebem investimentos


Durante a cerimônia, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou a parceria entre o governo federal e a Marinha no desenvolvimento do Programa Nuclear da Marinha.

Segundo ela, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação apoia atualmente três projetos diretamente relacionados ao desenvolvimento tecnológico do submarino e das tecnologias nucleares.

Um deles é o Projeto Atomum, voltado à análise de transientes e acidentes operacionais por meio de modelagem computacional. De acordo com a ministra, o projeto conta com R$ 88 milhões e tem como objetivo viabilizar análises de segurança relacionadas a reatores de pequeno porte, considerando sua utilização na propulsão do submarino.

Outro projeto, com R$ 58 milhões, está relacionado ao desenvolvimento tecnológico do processo produtivo de elementos para combustíveis nucleares. A iniciativa busca criar condições para a produção nacional desses elementos destinados a reatores de pequeno porte.

O terceiro projeto mencionado por Luciana Santos envolve R$ 93 milhões para o desenvolvimento do processo produtivo de hexafluoreto de urânio. Segundo a ministra, a iniciativa busca concluir o desenvolvimento tecnológico e a instalação de uma unidade relacionada ao ciclo do combustível nuclear.

Somados, os três projetos mencionados pela ministra representam R$ 239 milhões em investimentos.

Luciana Santos afirmou que os recursos fazem parte de uma estratégia de redução da dependência tecnológica e fortalecimento da indústria nacional. Para ela, o programa também tem potencial para estimular a pesquisa científica, a inovação e a geração de empregos qualificados.

Aramar


A ministra também destacou o papel de Aramar como polo de desenvolvimento científico e tecnológico. O complexo em Iperó concentra atividades relacionadas ao Programa Nuclear da Marinha e ao desenvolvimento de tecnologias que serão utilizadas no projeto do submarino.

Durante a cerimônia, Luciana Santos afirmou que a parceria entre ciência e defesa é fundamental para o avanço do programa e destacou a participação da Marinha brasileira na produção de conhecimento, pesquisa e inovação.

O objetivo, segundo ela, é ampliar a capacidade nacional e criar condições para que o Brasil domine tecnologias consideradas estratégicas.

Falta de continuidade


A questão orçamentária ocupou boa parte do discurso de Lula. O presidente lembrou que esteve em Aramar há quase duas décadas e que, apesar dos investimentos realizados naquele período, o projeto voltou a enfrentar períodos de restrição financeira.

Segundo ele, o problema não está apenas no volume de recursos, mas na dificuldade de garantir previsibilidade para um programa que exige investimentos durante vários anos.

Lula afirmou que o submarino nuclear precisa receber tratamento diferenciado dentro do planejamento orçamentário do governo federal. “Isso não pode estar na nossa cartelinha de tira na padaria. Isso tem que ter uma coisa especial”, disse.

O presidente reconheceu que o governo precisa conciliar o programa com outras prioridades nacionais, como saúde, educação e habitação, mas defendeu que projetos estratégicos de longo prazo tenham mecanismos que garantam sua continuidade.

Para Lula, a falta de previsibilidade pode levar à perda de profissionais e conhecimento acumulado. “Todo dia falta um pouquinho, todo dia falta um pouquinho”, afirmou, ao criticar a redução dos recursos destinados ao projeto ao longo dos anos.

Compromisso em Brasília


Ao final do discurso, Lula voltou a afirmar que pretende tratar pessoalmente da questão orçamentária após retornar à capital federal. “Portanto, ele tem que ser prioridade. Então eu quero hoje (...) dizer para vocês, eu volto para Brasília, e vou dizer para vocês, nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine de uma vez por todas esse submarino”, afirmou.

O presidente também mencionou a possibilidade de ampliar a participação de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento de iniciativas relacionadas ao programa.

Lula terminou o discurso elogiando os profissionais que trabalham em Aramar e defendendo a capacidade brasileira de desenvolver tecnologia de alta complexidade. “O Brasil pode. O Brasil é grande. O Brasil só falta acreditar nele mesmo. E eu acredito”, finalizou.