Entrevista
Crise do varejo muda hábitos de consumo e desafia comércio físico
Economista Renato Vaz Garcia relaciona dificuldades de grandes redes a juros altos, endividamento e avanço do comércio eletrônico
As dificuldades enfrentadas por grandes redes varejistas brasileiras refletem mudanças no comportamento do consumidor e um cenário econômico marcado por juros elevados e endividamento das famílias. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (18), o economista Renato Vaz Garcia avaliou os impactos da recuperação judicial das Casas Bahia e afirmou que o comércio físico enfrenta um desafio cada vez maior diante do crescimento das vendas pela internet.
Segundo o especialista, a situação das grandes redes não pode ser explicada por um único fator. Ele aponta que existem problemas específicos de gestão e questões societárias em algumas empresas, mas também há um ambiente macroeconômico que dificulta a operação do varejo. Entre os fatores estão a concorrência com grandes plataformas de comércio eletrônico, a entrada de empresas estrangeiras no mercado brasileiro e o custo elevado do crédito.
Renato cita, além das Casas Bahia, outras empresas que enfrentam dificuldades financeiras e avalia que parte do varejo tradicional não conseguiu acompanhar a velocidade de transformação do mercado.
"A questão do comércio físico hoje é muito complexa. É muito difícil você conseguir se sustentar financeiramente somente com o comércio físico. Nós vemos nos centros das grandes cidades, em Sorocaba também acontece muito isso, a quantidade de lojas fechadas, a quantidade de pontos que são passados, porque o comércio físico não conseguiu, de certa forma, fazer frente a esse e-commerce", diz.
Comércio eletrônico
Na avaliação do economista, uma das principais vantagens do comércio eletrônico é a escala. Enquanto uma loja física concentra seu mercado na cidade ou região onde está instalada, uma plataforma digital pode alcançar consumidores de diferentes localidades e países.
Segundo Garcia, essa escala permite trabalhar com preços mais competitivos e amplia a concorrência enfrentada pelas lojas físicas. Ele afirma que, mesmo quando grandes redes tradicionais também oferecem vendas pela internet, precisam disputar espaço em um mercado muito mais amplo.
O profissional também aponta que empresas maiores e com estruturas mais pesadas têm mais dificuldade para adaptar rapidamente seus modelos de negócio às mudanças no comportamento do consumidor.
Juros e endividamento
Outro fator destacado durante a entrevista é o nível de endividamento dos consumidores. Renato explica que a taxa básica de juros elevada afeta simultaneamente as famílias e as empresas do varejo.
Segundo ele, o consumidor endividado reduz a capacidade de realizar novas compras, enquanto as empresas enfrentam um custo maior para obter capital de giro. No caso das Casas Bahia, explica o economista, a necessidade de recursos para adquirir produtos e manter a operação se torna mais difícil quando o dinheiro fica mais caro.
"O nível de endividamento nosso já está atingindo 85% das pessoas que estão endividadas no Brasil", comenta. Garcia ressalta que ter uma dívida, por si só, não representa necessariamente um problema, já que financiamentos podem ser utilizados para aquisição de bens. A dificuldade aparece, segundo ele, quando o consumidor recorre ao crédito, especialmente ao cartão, para cobrir despesas e passa a acumular juros.
O efeito também chega às empresas. Segundo ele, o varejo precisa de capital de giro para manter os estoques e realizar novas compras. Com o crédito mais caro e margens pressionadas pela concorrência, as despesas financeiras podem comprometer o resultado das operações.
Consumidor
A dificuldade financeira das famílias também modifica o momento em que elas decidem substituir bens duráveis. Durante a entrevista, Renato comenta que consumidores têm prolongado o tempo de uso de produtos como eletrodomésticos e veículos para evitar assumir novas dívidas.
Segundo ele, esse comportamento reduz a circulação de produtos no varejo e interfere diretamente na demanda das empresas. "As pessoas estão ficando mais tempo com os seus bens duráveis e evitando essa troca, porque, como elas já estão endividadas, às vezes, para comprar esse novo equipamento, elas têm que criar uma nova dívida", afirma.
Na avaliação dele, esse movimento também produz efeitos em cadeia, atingindo bancos e financeiras. Ele explica que, diante de um cenário de maior cautela, instituições financeiras podem reduzir a oferta de crédito, o que tende a aumentar o custo do dinheiro.
Parcelamento
Questionado sobre o impacto da recuperação judicial das Casas Bahia para consumidores que possuem compras parceladas na rede, Garcia diz que as pessoas podem continuar comprando normalmente. Segundo ele, para a própria empresa, é fundamental manter o giro das vendas.
O economista, porém, chama atenção para o cenário geral da economia e explica que o crescimento previsto para este ano é inferior a 2%. Para ele, o momento exige cautela e planejamento por parte das famílias.
Renato também defende a educação financeira, mas afirma que ela, sozinha, não resolve o problema do endividamento. Na avaliação dele, o país precisa enfrentar questões relacionadas à renda e ao crescimento econômico. "A questão da educação financeira, óbvio que é fundamental, é uma coisa extremamente importante, mas o grande problema do Brasil eu acho que é muito mais grave do que isso, é uma questão mais de aumento de renda, de crescimento econômico".
Perspectivas
Para o economista, o cenário para o próximo ano exige atenção. Renato compara as condições atuais com o período de 2015 e 2016, quando o país enfrentou uma crise econômica, e afirma que a dificuldade de crescimento da renda compromete o consumo.
Segundo ele, parte dos brasileiros já possui uma parcela significativa da renda comprometida com dívidas. Garcia cita ainda que 30% dos brasileiros que possuem dívidas afirmam não conseguir pagar os débitos em atraso.
"O cenário do ano que vem, que aparentemente está se mostrando, é um cenário muito desafiador". O especialista recomenda planejamento para consumidores e empresas diante das perspectivas econômicas.
Casas Bahia
Sobre a recuperação judicial das Casas Bahia, Renato explica que a possibilidade de recuperação depende, entre outros fatores, da capacidade de a empresa reorganizar sua situação financeira e manter o funcionamento da operação.
Segundo ele, a companhia já havia recorrido anteriormente a uma medida semelhante e não conseguiu solucionar completamente seus problemas financeiros. O economista avalia que, embora a operação da empresa ainda apresente resultado positivo, a estrutura financeira representa um dos principais obstáculos.
"O grande problema da Casa Bahia e eu acho que isso é uma questão realmente bem séria é o que vem a seguir", diz, ao destacar a necessidade de a empresa continuar recebendo produtos de fornecedores e manter a capacidade de gerar receita.
Para ele, a situação também demonstra que os problemas enfrentados pelo varejo brasileiro não estão restritos a uma única empresa. Ele cita outras redes que passam por dificuldades e afirma que o ambiente para o comércio no país permanece desafiador.
Galeria
Confira a galeria de fotos