Sorocaba 372 anos
Mercado Municipal mantém viva a memória e a rotina da cidade
Prédio inaugurado em 1938 reúne comerciantes, famílias e frequentadores que transformaram corredores em pontos de encontro
A história de Sorocaba é marcada pelos caminhos que se cruzam e formam feiras, mercados e pontos de encontro. Incrustado no Centro da cidade, entre as ruas Francisco Scarpa e Padre Luiz, está o imponente Mercado Municipal. O local já nasceu com essa vocação: inaugurado no feriado de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 1938, o edifício de traços art déco, estilo arquitetônico que estava em destaque na época, foi erguido no antigo Largo Santo Antônio, ocupando o espaço de uma antiga igreja dedicada ao santo.
O historiador Henrique Cavalcanti conta que a localização não foi obra do acaso, mas resultado de um projeto logístico. Posicionado de forma estratégica desde a época dos tropeiros, o novo prédio ficava a poucos passos da estação de trem e da importante fábrica de tecidos Nossa Senhora da Ponte, hoje Shopping Pátio Cianê. A localização facilitava o deslocamento dos consumidores e garantia acesso aos bairros mais distantes, com o objetivo de abastecer os milhares de operários da indústria têxtil. Era o grande centro comercial de Sorocaba em uma época em que a palavra “supermercado” sequer existia.
Passear pelos longos corredores do mercado, reconhecido e tombado como patrimônio municipal desde 1988, é uma experiência, antes de qualquer coisa, sinestésica. Os aromas chegam primeiro, em uma mistura de temperos, carnes e fumo de corda. Em seguida, vem a diversidade visual de produtos de cores, formas e tamanhos diferentes, à vista e ao alcance do toque. Mas nenhuma dessas dimensões é maior do que a humana.
Pelas bancas, as histórias se confundem. Muitos comerciantes estão ali há várias décadas, vendendo produtos típicos da mesa sorocabana e mantendo vivas referências da cidade. São itens que evocam diretamente a memória tropeira: fumo, facas, couro. Ferro.
Entre bancas, cafés e conversas, gerações de comerciantes e frequentadores mantêm viva a rotina de um dos espaços mais tradicionais da cidade
Foi essa atmosfera que, em 1964, chamou a atenção de um barbeiro de Porto Feliz. Passeando com o pai, ele parou para tomar um café, soube que o dono queria vender a lanchonete, voltou para sua cidade, vendeu a barbearia e fincou raízes naqueles corredores.
“O meu pai chegou aqui há 61 anos. Eu nasci e cresci aqui dentro”, conta João Carlos Padovani Cortez, filho daquele barbeiro, que hoje comanda a mesma lanchonete e preside a organização social que administra o prédio.
Sob seu olhar, o Mercado Municipal de Sorocaba mostra que é um organismo vivo, capaz de unir diferentes épocas. Se nos porões ainda resistem bancas com quase 70 anos de tradição, no telhado o prédio exibe placas solares que o tornam autossuficiente em energia. O passado e o futuro dividem, todos os dias, o mesmo corredor.
Pelos corredores
Os produtos podem até contar histórias centenárias, mas nada se compara às histórias das pessoas que constroem o mercado todos os dias. Seu Hélio Ramos, por exemplo, está lá desde os anos 1960 e, em 1972, abriu sua lanchonete, que permanece até hoje. Com a voz baixa e divertida, ele conta: “Eu sou um satélite do mercado. O senhor não sai lá da sua casa só para vir comer um salgadinho meu. O senhor vem comprar outras coisas, passa aqui e acaba com tudo”.
Em sua vitrine, se destacam salgados tradicionais das antigas padarias sorocabanas: a coxa-creme e o bolinho caipira. De produção própria, os salgados agradam aos sorocabanos há décadas.
As histórias se misturam e se confundem no mercadão, assim como os aromas e até os sabores. Rafael Gomes da Silva é a terceira geração atrás do balcão da peixaria da família. “Antes do mercado, meu avô e meu pai vendiam miúdos na rua, no lombo do cavalo. Desde os anos 1980 estão aqui”, relata.
E, se o assunto é tradição em carnes e miúdos, o Açougue Santo Antonio resiste desde 1953. Mais do que história, o balcão esconde talentos de nível internacional. José Elder Reis Dias, que trabalha no local há mais de duas décadas, é campeão mundial. Em 2025, ele foi campeão com a seleção brasileira de açougueiros na Copa do Mundo da profissão, disputada em Paris, desossando bois, porcos e cordeiros em uma arena cronometrada.
Mas o mercado é, acima de tudo, o retrato de quem soube resistir e se reinventar. A delicadeza de Yolanda Tomiko Serikiaku abriga uma vida inteira de feira. Ela começou ali mesmo, aos 15 anos, em um cantinho modesto, vendendo frutas e verduras que a própria família plantava na chácara. Após dez anos vivendo em São Paulo, retornou na década de 1990 para oferecer temperos e produtos orientais a uma clientela fiel, que recusa os grandes hipermercados para comprar diretamente de suas mãos.
As mudanças de hábito da cidade também ditam o ritmo das vendas e ajudam a manter o movimento. Alexandra Ishii, há 30 anos no local com sua banca de produtos naturais, percebeu que a busca por saúde transformou os corredores.
“O mercado virou referência. O pessoal vem procurando coisas a granel, porque, além de ser mais barato, como a gente repõe todos os dias, os produtos são bem mais frescos”, explica.
Entre um atendimento e outro, as pessoas entram e saem do mercadão, levando produtos a granel e carnes embrulhadas em papel-pardo. Como sempre foi, como ainda é. Atualmente, as 55 bancas do local estão ativas e cerca de cinco mil pessoas passam por ali todos os dias. Um espaço que, aos poucos, recupera sua movimentação e se mantém como ponto de referência para os sorocabanos.
Entre confrarias e escritórios
Cinco mil pessoas passam diariamente pelo local. Algumas em busca de produtos, outras atrás de coisas que não encontram em nenhum outro lugar: fumo de rolo, erva-mate para um chimarrão que relembra o Rio Grande do Sul.
Mas algumas são diferentes. Elas buscam se reconhecer nos balcões do Mercado Municipal. O som inconfundível das risadas soltas, por exemplo, tem endereço e horário fixos na lanchonete de João Carlos. É ali, entre um gole de café e outro, que um grupo de aposentados montou seu “escritório”.
Diariamente, Gilson Lima senta-se à mesa, ladeado pelos companheiros de longa data: Francisco Yabiku, Nilson Rodrigues da Silva, Jeferson Sampaio e, agora, pelo neto Davi Miramontes Akaishi, que leva a tradição no sangue. “Aqui a gente discute os problemas do mundo, dá as soluções, damos risada, contamos piada. O gostoso desse ambiente é isso, é descontraído, é familiar”, resume Gilson.
A relação dele com o espaço vem de berço. Criado na rua Miranda Azevedo, ele frequenta o local desde criança. Conhece todas as famílias fundadoras, viu repórteres crescerem e faz questão de manter a tradição viva.
Para a confraria de aposentados, o mercado é tão acolhedor que as visitas costumam acontecer em dose dupla. “Eu bato o ponto aqui duas vezes por dia. De manhã, lá pelas dez horas, e à tarde. O amigo me liga quando estou dormindo e me acorda: ‘vamos nos encontrar lá no escritório?’. E a gente vem para cá, porque a gente se sente bem, acolhido”, brinca.
As conversas do grupo não se limitam aos problemas do mundo. Vira e mexe, passa um conhecido e a conversa, naquele tom sorocabano de sempre, logo começa: “Como tá o seu pai?”, “Continua morando no mesmo lugar?”.
Os velhos conhecidos dividem as xícaras de café antes de continuar a caminhar pela cidade. Pelo Centro. Pela velha Sorocaba.
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