Sorocaba 372 anos
Cemitério da ‘Saudade’ guarda a história do município entre pedras, símbolos e memórias
Mausoléus, arte tumular, personagens históricos, lendas e episódios marcantes transformam o principal cemitério da cidade em um patrimônio da memória coletiva
As portas, quase sempre abertas, do Cemitério da Saudade podem até assustar, mas também fazem um convite: o de conhecer a própria história, o de relembrar as próprias raízes. “Os mortos não morrem quando morrem, morrem quando são esquecidos. E os mortos não são só os nossos entes queridos, são nossos sonhos, ideais, o que nós acreditamos”, avisa o historiador José Rubens Incao.
O Cemitério Saudade tem uma ligação com a morte que antecede seus próprios muros. A pracinha em frente, hoje arborizada e com bancos, foi marcada por capítulos dolorosos: era lá que ficava a forca da cidade. O espaço foi utilizado para a execução de escravizados, em um dos poucos capítulos da história penal brasileira em que a pena capital era aplicada quando estes se rebelavam e matavam seus senhores.
Na entrada do cemitério, a citação em latim: “Ego sum via, veritas et vita”. É uma das frases mais conhecidas de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
Cruzando a porta do local, as sepulturas se confundem em uma geografia sem lógica aparente. Falta espaço, sobram detalhes escondidos. Ao longo do cemitério, mausoléus grandes e pequenos chamam a atenção, a maioria ligada a famílias conhecidas, que facilmente nos lembram de ruas com aqueles nomes. Em outros casos, homenagens e até promessas.
O poder, a fé e o povo
Em torno dos cemitérios sempre existiu uma aura de medo e até de negação, como explica o historiador Carlos Cavalheiro: “Na época, o ideal era que o cemitério ficasse o mais longe possível”. Mas essa aura nem sempre é necessária; muitas pessoas encontram nos cemitérios locais de contemplação e memória.
O maior mausoléu do cemitério é o da família Festa, construído originalmente por Domingos Festa. Como a maioria dos mausoléus do local, está em mau estado. Falta manutenção. Outras lápides chamam a atenção não pelas histórias conhecidas, mas pelas imaginadas. Um dos mais conhecidos tem um violão moldado em cima; Carlos conta que seria um dos maiores violeiros e cantores da época. A música se perdeu, a memória permanece.
É a chamada arte tumular, repleta de símbolos: colunas partidas demarcam vidas precocemente interrompidas, enquanto tochas invertidas indicam que a chama da vida continua em outra dimensão. Cada pedra virou frase; cada símbolo, uma palavra que ainda pode ser lida.
Em contraste com as elites, Carlos Cavalheiro destaca a força do mausoléu de João de Camargo: “Ele era pobre, preto e ex-escravizado; mesmo assim, o mausoléu dele se destaca aqui, está entre os maiores e mais bonitos. Isso é muito significativo, demonstrando uma importância que se sobrepôs à classe social. Ele se eternizou, enquanto outros estão sendo esquecidos”.
Alguns túmulos no Cemitério da Saudade são de pessoas que, popularmente, são conhecidas como santas. No túmulo do Dr. Francisco Carvalho, havia uma estátua de Jesus, a qual, segundo contam fiéis, vertia água. Mas o objeto foi roubado. Em outro ponto do cemitério, está a capelinha para a menina Julieta, obra de uma promessa de um de seus fiéis: Nicolau Scarpa. Carlos conta que a menina foi assassinada aos 7 anos de idade. O condenado pelo crime foi o professor João Vieira Pinto. Ele era vizinho da casa da menina, na Rua Santa Clara, e teria atraído a vítima para o local. Em 1899, a família enterrou a menina e voltou para São Paulo. Em sua sepultura, o povo sorocabano começou a cuidar, depois veio a capelinha. Até hoje, brinquedos e doces são colocados no local, e existe até um livro para pedidos e agradecimentos.
Cada pedra, um conto
Em cada uma das sepulturas espalhadas ao longo do cemitério existem milhares de histórias, algumas que já estão perdidas pela maldade do tempo, ou depredadas. Placas, esculturas e cruzes já foram roubadas ou danificadas. Outras histórias são mantidas por historiadores e até pelo boca a boca da cidade. Lendas, histórias e fatos que se confundem, enquanto vão sendo deglutidos por uma cidade.
No Cemitério da Saudade, os exemplos e artes tumulares, monumentos de tempos passados, se espalham por todos os corredores, em demonstrações que, mesmo sem pesquisas aprofundadas, demonstram o poder aquisitivo das famílias ao longo do tempo e a vontade de se eternizar, ou até de se destacar entre os outros.
Das famílias tradicionais a figuras populares como João de Camargo e a menina Julieta, cemitério preserva histórias que ajudam a compreender a formação e a identidade de Sorocaba
Tradicionalmente, a sepultura 94 é considerada a mais antiga do cemitério. Hoje em dia, ela tem uma cerca branca adornada por anjos; a placa, ainda presente, aponta para o dia 22 de fevereiro de 1864. Mas o historiador Carlos alerta que “não é possível saber exato, já que não há muita documentação antiga”. Ele conta ainda que, antigamente, as pessoas eram enterradas em igrejas. O primeiro cemitério sorocabano foi construído por volta de 1819, próximo ao Centro, por volta da Praça Coronel Fernando Prestes. Benzido em 1824, funcionou até 1864.
Foi o Saudade, inaugurado no mesmo período, que herdou os enterros da cidade dali em diante. Seguindo a rua principal do cemitério, o atravessando todo, chegamos a uma parede, onde antigamente havia outra porta. Lá, uma grande rachadura no chão indica uma história quase esquecida: uma cova coletiva, na qual estariam enterradas vítimas da febre amarela de 1900.
Saudade
A maioria dos sorocabanos, pelo menos aqueles que estão na cidade há mais de uma geração, possui um parente enterrado no Cemitério da Saudade. Às vezes, um parente de quem nem se tem muita lembrança, um tio-avô, uma pessoa da qual só as histórias são preservadas. No Saudade, e na saudade, há um espaço grande para uma monumentalidade pequena, pequenos monumentos de cada um.
Como bem define Carlos Cavalheiro, “o cemitério é um lugar de memória”. Um monumento que, assim como os mortos citados por José Rubens Incao, também corre o risco do esquecimento. A diferença é que este ainda tem portas abertas.
Galeria
Confira a galeria de fotos