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Sorocaba 372 anos

Entre pontes, romarias e devoção, a fé que moldou Sorocaba

Catedral Nossa Senhora da Ponte, Romaria de Aparecidinha e tradições populares revelam como a religiosidade ajudou a construir a identidade da cidade ao longo dos séculos

15 de Agosto de 2026 às 12:47
Vernihu Oswaldo [email protected]
Catedral Nossa Senhora da Ponte está na praça, bem no Centro, como um farol para referenciar as direções dos fieis
Catedral Nossa Senhora da Ponte está na praça, bem no Centro, como um farol para referenciar as direções dos fieis (Crédito: Arquivo JCS)

A fé brasileira é desses fenômenos que, mesmo entre especialistas, é difícil de definir: em cada rincão, uma nova forma de se enxergar o mundo. Mesmo no panteão de religiões, o fato é um só: a fé popular não se prende a diretrizes; ela se desenvolve em cada lugar de uma forma, com os monumentos próprios falando e falando demais. Misturando diversas tradições.

Nossa Senhora é um caso à parte na devoção popular brasileira. E na sorocabana. O escritor Luiz Antônio Simas explica: “No mundo inteiro, a fé no poder da Virgem Maria se expressa numa profusão de títulos que Nossa Senhora recebe, pelos quais é incomodada nos ritos marianos. Como diz a sabedoria popular, há uma Nossa Senhora para cada necessidade do fiel”.

E em Sorocaba não é diferente. Ali na praça, bem no Centro, como um farol para referenciar as direções, está a Catedral Nossa Senhora da Ponte. Como explica padre Tadeu Rocha Moraes: “O título ‘Ponte’ é um título de Nossa Senhora. É a única catedral do Brasil que tem esse título. É uma devoção pessoal do fundador da cidade, Baltazar Fernandes, que trouxe essa devoção de Portugal.”

Independente da geografia da história, a referência é a mesma: ao lado da tal ponte havia uma capela, e os fiéis repetiam: “Vamos rezar na ponte, na capela da ponte”. E ali nascia a devoção a Nossa Senhora da Ponte. Luiz Antônio Simas divide as denominações da Virgem Maria em três: cotidiana, litúrgica e histórica. Nossa Senhora da Ponte, provavelmente, está no primeiro grupo, junto com Nossa Senhora do Bom Parto e Nossa Senhora dos Navegantes.

Da devoção trazida por Baltazar Fernandes às multidões que seguem rumo a Aparecidinha, monumentos, símbolos e histórias mostram que a fé também é patrimônio cultural sorocabano

Marcos religiosos rapidamente se transformam em marcos cotidianos. Marcos cotidianos quase sempre se tornam monumentos. E monumentos sempre contam histórias. A Catedral de Nossa Senhora da Ponte guarda milhares de histórias, bem no coração de Sorocaba: desde as mais íntimas, como casamentos, batizados e confissões, até as mais gerais, como a fé de Baltazar Fernandes — o mesmo que foi homenageado ali perto, no começo da Rua São Bento, olhando para a praça e para a catedral.

A igreja também guarda os corpos dos que vieram antes: “Aqui na nossa igreja estão sepultados Dom José Carlos de Aguirre [primeiro bispo], Dom José Melhado Campos [segundo bispo] e Dom José Lambert [terceiro bispo e primeiro arcebispo]”.

A Ponte se conecta com Sorocaba de milhares de formas. Padre Tadeu também faz uma leitura simbólica: “Outra questão já é uma questão assim, mais espiritualizada: qual é a função de uma ponte? A função de uma ponte é unir o que está separado. Aqui em Sorocaba nós temos várias pontes sobre o Rio Sorocaba, e seria difícil a gente transpor, passar o rio sem essas pontes. A ponte aproxima, une o que está separado, aproxima o que está distante. E Nossa Senhora é esta ponte. Ela nos deu Jesus”.

A catedral de Sorocaba, além do clichê, se conecta com a cidade de um jeito próprio. O padre, mesmo depois de 28 anos à frente do local, ainda estranha algumas características: “Muita circulação de pessoas. E os nossos horários de missas aqui são horários muito esquisitos até, né? Por exemplo, missa ao meio-dia. Muito estranho pode parecer isso, mas, entretanto, é a missa mais frequentada, de segunda a segunda”. À noite, o Centro se aquieta e as missas ficam mais vazias.

Fé, estradas e tradições

Mas não é só de pedra e cimento que se fazem os monumentos. Às vezes, as melhores histórias estão em pequenos monumentos, cuidados e levados não apenas pelas mãos dos historiadores e religiosos, mas pelo povo. Simas define: “A santinha bochechuda e sorridente, ainda que esteja coroada com ouro e diamantes, parece mais ser como certa feita me falou uma tia-avó: aquela amiga que mora na vizinhança e socorre a gente na hora do sufoco”.

A Catedral também é o ponto de partida e de chegada de uma das maiores expressões da fé no estado de São Paulo: a Romaria de Aparecidinha. Padre Tadeu lembra a grandiosidade do evento que toma conta do centro de Sorocaba logo nas primeiras horas da manhã. “Às cinco horas da manhã, a Praça Coronel Fernando Prestes estava tomada de fiéis”, relata.

Na missa da Catedral, cerca de 2.500 comunhões dão a dimensão do volume de pessoas que encaram uma jornada longa, de 16 a 17 quilômetros, que começa ao raiar do dia e se estende até as 18h. “O diminutivo é sempre carinhoso, né? Aqui é ‘Aparecidinha’”, resume o padre sobre a devoção popular.

Embora o Brasil celebre a padroeira em 12 de outubro, a romaria sorocabana tem seu próprio calendário, moldado pelas marcas da história e das crises sanitárias. A tradição secular remonta ao século 19, quando preces contra a seca, tempestades e doenças mobilizaram os fiéis.

Foi no final daquele século, assolado por uma grave epidemia de febre amarela, que o Monsenhor João Soares do Amaral fixou as datas tradicionais: o dia primeiro de janeiro para trazer a imagem a Sorocaba, e o segundo domingo de julho para levá-la de volta. Ironia trágica da história, o próprio Monsenhor viria a falecer vítima da mesma epidemia, em abril de 1899. Monsenhor, hoje, está sepultado na Santa Casa de Sorocaba.

Diferente da imagem de Nossa Senhora da Ponte — trazida por Baltazar Fernandes —, a pequena imagem de Aparecidinha, com seus 13 centímetros, chegou à região pelas mãos de tropeiros, não os famosos como Baltazar, mas os desconhecidos que abriram estradas pelos rincões paulistas. Eles a abrigaram em um nicho na árvore antes de chegar ao santuário. E até os detalhes de sua guarda carregam a identidade local: a redoma que envolve a pequena escultura foi moldada nas oficinas da própria Estrada de Ferro Sorocabana. Os monumentos são interligados. Como pontes.

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