Sorocaba 372 anos
Prédios históricos ganham novos usos e ajudam a revitalizar o Centro
Antigos imóveis voltam a receber atividades culturais, comerciais e artísticas sem romper com as marcas deixadas pelo tempo
Há algo de interessante na história, e os locais que preservam ruínas antigas deixam isso ainda mais evidente: nem tudo sobrevive. Antes da Sorocaba moderna, havia milhares de casas que foram derrubadas ou reformadas, às vezes de uma vez, às vezes em pequenas obras ao longo das gerações. Algumas casas antigas sobreviveram, muitas não. Algumas ficaram esquecidas, cobertas por camadas de modernidade.
Na rua Maestro Carlos Gomes, atualmente um calçadão, na lateral da Catedral Metropolitana de Sorocaba, um pequeno imóvel guarda uma dessas histórias. No número 59, um prédio que nasceu para ser um centro espírita e depois passou muitos anos como fábrica e loja de roupas hoje é ocupado pela Escola Sorocabana de Comunicação e Arte (Esca). O empreendimento foi fundado em 23 de agosto de 2025 e mantém na fachada original o ano de construção: 1924.
“Mexer com esse prédio fez parte de um processo muito importante meu, do ponto de vista psicológico. Parece que cuidar desse espaço era como cuidar de mim mesmo, uma parte de mim mesmo. Aquilo que estava no meu interior se projeta aqui”, comenta o fundador da Esca, o advogado e ator Felipe José Barbosa.
No andar de cima, a escola abriga um auditório intimista para 36 pessoas, um espaço onde companhias ensaiam obras autorais e clássicos. “Quando eu quis soltar, soltei no meio da cidade, no Centro. Foi um salto no escuro”, define Felipe.
Imóveis que atravessaram décadas encontram novos usos e ajudam a devolver movimento a áreas históricas do Centro
A recuperação da Esca não é um caso isolado na região central. A poucos quarteirões dali, outro imóvel, que permaneceu fechado por cerca de seis anos, alvo de vandalismo e sem uso, voltou a ganhar vida.
Desde 2022, o prédio pertencente à Associação 25 de Dezembro, fundada em 1910 — que já sediou diversos empreendimentos, como a sede da Ofebas —, localizado no número 91 do Largo de São Bento, abriga o JF Estúdio Musical, um polo que reúne cafeteria, escola de música, estúdio e espaço para exposições.
Antes da reforma, o local havia sido invadido e sofrido furtos de fiação. Durante a recuperação, um levantamento histórico resultou no tombamento de nível 2 do edifício, preservando sua fachada original.
A ocupação se deu de forma espontânea. “As coisas foram acontecendo naturalmente e a gente foi crescendo e virando esse espaço que a gente é hoje”, resume Flávio Esteves sobre o projeto, que atualmente recebe apresentações de jazz, viola caipira, oficinas e lançamentos de livros.
Hoje, a ocupação desses prédios centenários vai além da estética ou do lazer. Em parceria com a prefeitura, ações como o “Cultura na Praça” ajudaram a movimentar o entorno do largo, trazendo melhorias para o espaço público e incentivando novos empreendimentos.
Em janeiro de 2026, a cafeteria Flor de Café se incorporou à dinâmica do ambiente. “A gente atende os músicos que estão vindo ensaiar. Quando tem som, a cara do lugar muda. Tem exposição, lançamento de livro, vários encontros, aniversários, eventos diversos... e a facilidade de você estar no Centro da cidade”, aponta Marina Audrei Lemos, responsável pelo Flor de Café.
Ao explicar por que decidiu instalar a escola no Centro, Felipe resume a escolha em quatro palavras: “Eu precisava. E ponto.”
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