Buscar no Cruzeiro

Buscar

Sorocaba 372 anos

Caminhada pelo Centro revela marcas da história do município

Arquitetura, monumentos e espaços públicos ajudam a contar diferentes momentos da formação e das transformações da cidade

14 de Agosto de 2026 às 21:03
Vernihu Oswaldo [email protected]
Na Praça Coronel Fernando Prestes, a Catedral divide espaço com diversos prédios históricos
Na Praça Coronel Fernando Prestes, a Catedral divide espaço com diversos prédios históricos (Crédito: Reinaldo Santos)

Sorocaba é a terra dos caminhos. Mas caminhar pela cidade nem sempre é uma atividade tão aproveitada: as subidas e descidas, o calor e o ritmo frenético do Centro tornam a experiência um desafio, ainda que cheia de surpresas. O jornalista João do Rio, no começo do século 20, popularizou a figura do “flâneur”, aquele observador urbano que caminha sem rumo fixo para capturar a essência da cidade.

Andar e observar. A tarefa do flâneur. Ele escreveu em “A alma encantadora das ruas”: “A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento”. E o Centro de Sorocaba é um prato cheio para esse olhar atento. Se a gente desacelerar o passo e começar a olhar para cima, nas fachadas, praças e esquinas, a cidade revela uma série de detalhes escondidos no meio da rotina.

Fachadas, monumentos, praças e edifícios históricos revelam detalhes que passam despercebidos na rotina de quem atravessa o Centro

O pesquisador Gabriel Kanazawa comenta que “esse caminhar programado, apressado, em função do trabalho principalmente, faz a gente ignorar a cidade, a experiência do contato com os edifícios, com as outras pessoas, transformando o espaço urbano em mera passagem”.

Como resume a arquiteta Silvana Dudonis: “A rua é pública. A casa é privada. A arquitetura organiza essa passagem entre os dois espaços”. Sabe aquelas marquises enormes que cobrem as calçadas de várias lojas? Elas não estão ali por acaso. “As marquises acabam criando uma ligação entre os espaços públicos. A gente sai de um lugar, vai para outro e consegue percorrer a cidade protegido do sol e da chuva”, pontua Silvana.

A turma do bronze

Pelo Centro também estão espalhados vários “vigias” ilustres. Os vultos históricos ficam ali, parados no tempo, observando o vai e vem. Logo no começo da São Bento, Baltazar Fernandes paira altivo, admirando a cidade que ajudou a erguer. A poucos metros dele, o monumento guarda os restos mortais de Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878), o Visconde de Porto Seguro, um paulista de Sorocaba considerado o pai da história do Brasil.

Logo atrás da estátua do fundador repousa a própria certidão de nascimento da cidade: o Mosteiro de São Bento. Fundado em 1660, a partir da doação feita por Baltazar Fernandes aos monges beneditinos, o conjunto preserva um dos capítulos mais antigos da história sorocabana. As espessas paredes de taipa de pilão e a fachada de linhas sóbrias guardam um dos mais antigos testemunhos da arquitetura colonial da região.

Na Praça da Catedral, um busto relembra o Doutor Braguinha, o médico assassinado que hoje dá nome a uma das vias mais conhecidas da cidade. Na Praça Arthur Fajardo, além dos canhões, o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar segue firme, vigiando a avenida São Paulo, por onde, segundo a história, as tropas inimigas poderiam chegar.

Os grandalhões de pedra

O primeiro grupo escolar de Sorocaba, o Grupo Escolar Antônio Padilha, teve sua sede construída em 1910. A escola é de autoria de Manuel Sabater, que projetou diversos prédios semelhantes distribuídos pelo Estado. O prédio do Padilha tem pelo menos cinco “irmãos gêmeos”: Sorocaba (Antônio Padilha), Bebedouro (Abílio Manoel), Tatuí (João Florêncio), Mococa (Oscar Villares) e São Paulo (Romão Puiggari).

O Padilha, assim como seus “gêmeos”, foi tombado em 2010 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), junto com outras 121 escolas do Estado construídas no mesmo período.

A caminhada continua e a gente esbarra com o “Fórum Velho”. É um prédio que impõe respeito. “É um tipo de prédio institucional, bem à época mesmo. Se você andar pelo Estado inteiro, vai achar esse mesmo tipo de modelo”, observa Silvana.

Com suas colunas gigantes e frontão marcado, ele foi desenhado para transmitir autoridade. Depois que o fórum deixou o local, o prédio foi utilizado pela Escola de Teatro Grande Otelo, ajudando a formar uma geração de artistas sorocabanos. Hoje, porém, o edifício aguarda, abandonado e depredado.

Ao longo das ruas existem dezenas de prédios com histórias que não couberam nos livros, pequenos imóveis com arquiteturas antigas que foram cobertas pelas camadas do tempo, pelas fachadas das lojas e pelos produtos.

Gabriel explica: “Ao longo dos anos, o comércio foi ocupando as fachadas com placas, luminosos e vitrines cada vez maiores, e a arquitetura antiga acabou ficando escondida atrás disso. É um pouco como se a cidade fosse coberta por camadas de publicidade, e o que sobra visível é só a loja, não o prédio”.

Ainda descendo a rua São Bento, a imponência do histórico prédio dos Correios e Telégrafos chama a atenção. Inaugurado na década de 1930, o edifício carrega a solidez da arquitetura eclética e foi, por décadas, um dos principais pontos de comunicação da cidade. No alto, se destaca o relógio. Silvana explica que as curvas e a simetria são algumas das principais características da construção.

Chegando à Praça Coronel Fernando Prestes, a Catedral divide espaço com diversos prédios históricos. Entre eles, sobrevive o Gabinete de Leitura Sorocabano. Fundado em 13 de janeiro de 1867, o prédio exibe uma fachada de inspiração neoclássica. O local guarda um dos maiores acervos de livros e jornais da cidade. O imperador Dom Pedro II visitou o espaço pelo menos três vezes.

Quando a rua São Bento já se transformou na rua XV de Novembro e encontra a rua Brigadeiro Tobias, está o prédio onde hoje funciona a Fundação de Desenvolvimento Cultural de Sorocaba (Fundec). Enquanto prédios públicos costumam ter uma portinha para controlar quem entra, a Fundec exibe três portões largos. “É essa permeabilidade maior do espaço da rua para dentro do prédio”, diz a arquiteta.

E tem mais um detalhe nas janelas da Fundec: as famosas “bandeiras”, aberturas na parte superior. Elas foram pensadas para deixar a luz do sol entrar, mas barrar o barulho do trânsito. Assim, a cidade continua pulsando do lado de fora, enquanto a música segue tranquila do lado de dentro. Um detalhe sutil de uma cidade que, no fim das contas, só pede que a gente caminhe com um pouco menos de pressa.

O prédio, um grande palácio branco, foi construído em terreno doado pela família do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. Edificado em taipa de pilão, foi inaugurado em 1844 para funcionar como o Teatro São Rafael. O nome foi escolhido seguindo a tradição de usar o nome do santo onomástico, ou seja, o santo associado ao nome de Rafael Tobias. O teatro trouxe diversos espetáculos para a cidade, atraindo grande público e até o imperador Dom Pedro II.

Aos poucos, a frequência foi diminuindo, assim como os bons espetáculos. Em 1933, o teatro foi fechado definitivamente. De 1935 a 1981, foi ocupado pela prefeitura; de 1981 a 1999, pela Câmara, até que, em 2001, o prédio reencontrou sua vocação com a arte e a Fundec encontrou uma sede.

O flâneur guarda o caderno e volta a ser só mais um no fluxo da rua Brigadeiro Tobias.

O Centro só pede a coragem de olhar para cima. Silvana alerta: “Quanto mais a gente fica do lado de fora, mais as diferenças acontecem. Daí a gente não participa dos espaços e é pior ainda”.

Sorocaba está ali, inteira.

Galeria

Confira a galeria de fotos