Sorocaba 372 anos
Casarão preserva memória de família e acompanha transformação de Sorocaba
Construído na década de 1930, Mirante Ondina mantém características originais e histórias de uma família ligada à formação da cidade
Algumas ruas e lugares são tão familiares que até esquecemos de olhar com calma, com olhos que se demoram sobre as coisas. Na rua Cesário Motta, no centro de Sorocaba, entre a passagem acelerada dos carros e o barulho das escolas, um casarão chama a atenção: o Mirante Ondina. A casa impressiona não pelo tamanho, mas pela arquitetura e pela beleza ainda preservada. O local guarda memórias que entrelaçam uma família inteira à história de Sorocaba.
“Meu nome é Maria Luiza Santarini Moreira Porto. ‘Maria Luiza’ foi uma homenagem ao meu avô Luigi, pai do meu pai. Meu pai se chamava Alfredo Santarini, era italiano e engenheiro químico”, apresenta-se a anfitriã. Alfredo chegou ao Brasil em 1927. Passou primeiro pelo Rio de Janeiro e, depois, foi trabalhar nas fábricas do Grupo Pereira Inácio, em Votorantim.
Maria Luiza demonstra no olhar o orgulho de suas raízes. Com voz calma e presença marcante, ela caminha pelo imóvel contando passagens da família. Pelas paredes, dezenas de quadros: alguns pintados pela própria mãe, outros por artistas renomados, além de fotografias de família, incluindo retratos dos antepassados. O mobiliário antigo está preservado. O local, ao mesmo tempo em que tem ares de museu, deixa claro que ainda é um lar.
Entre objetos, fotografias e lembranças de família, casarão atravessou a transformação da região central e mantém viva uma história iniciada há quase um século
A própria fundação da casa é um marco desse amor familiar. O terreno, que antigamente marcava “os arrabaldes” e o fim da cidade, foi escolhido por Alfredo para eternizar sua união com a esposa. A paixão foi tão intensa que, no mesmo dia em que conheceu Ondina, em 1935, o italiano decidiu pedir sua mão em casamento e abriu, simbolicamente, os alicerces do Mirante, construindo o recanto com o requinte da época.
Em uma das paredes, dona Maria Luiza aponta para o que afirma ser sua maior relíquia: as medalhas recebidas pelo pai por defender o exército italiano nas montanhas cobertas de neve durante a Primeira Guerra Mundial.
“Ele recebeu medalhas de bronze, prata e ouro. Quando eu era menina, imaginava que a de ouro era a mais importante. Mais tarde, descobri que a medalha de prata possuía um valor militar muito maior, porque vinha acompanhada da descrição do ato de bravura que justificava a condecoração. A de bronze era concedida a todos que fizeram a guerra, mas a de prata era um reconhecimento excepcional”, orgulha-se. A medalha de ouro, infelizmente, foi levada em um assalto. As demais ainda adornam a parede.
Dona Maria Luiza nasceu em 1936, se casou com Motaury Moreira Porto e teve dois filhos. Vivendo entre São Paulo e Sorocaba, criou sua família sem nunca esquecer suas raízes e mantendo o mirante preservado.
Resistência ao tempo
Aos 90 anos, a anfitriã sabe que a história precisa de cuidado diário para continuar viva. O mobiliário original em estilo art déco, as madeiras e os delicados tecidos demandam atenção e manutenção constantes contra a ação do tempo. Mais do que valor artístico, esses elementos guardam memórias e histórias que, embora pertençam a uma família, ajudam a compreender uma parte da trajetória de Sorocaba.
Ao redor do casarão, a cidade mudou. Aquele terreno tranquilo, que marcava o limite da área urbana na década de 1930, foi envolvido pelo desenvolvimento e hoje está inserido no movimentado centro de Sorocaba. Atualmente, um complexo comercial foi construído ao redor da casa. Sua presença, além de aproximá-la ainda mais da cidade, contribui para sua preservação, inclusive por meio de observação e segurança. Com a ajuda dos filhos e netos, que administram os negócios, o patrimônio segue de pé.
O mirante, lá em cima, mesmo cercado pelos arranha-céus que surgiram ao redor, ainda mantém uma bela vista e coroa Sorocaba, a cidade que se desenvolveu com a contribuição de famílias como a de Maria Luiza.
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