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Memória

O jornal que Paraná nunca largou

Ídolo do São Bento revela como um jornal encontrado na rua mudou sua vida e por que, 71 anos depois, ainda não larga a leitura diária do Cruzeiro do Sul

14 de Agosto de 2026 às 20:38
Thaís Verderamis [email protected]
Ademir de Barros, o Paraná, ex-atacante da seleção brasileira, construiu família e história na cidade que adotou ainda na infância
Ademir de Barros, o Paraná, ex-atacante da seleção brasileira, construiu família e história na cidade que adotou ainda na infância (Crédito: Thaís Verderamis)

Com riqueza de detalhes, atualmente aos 84 anos, Ademir de Barros, mais conhecido como Paraná, ídolo do São Bento, time da cidade, e ex-jogador da seleção brasileira, relembra o momento em que tinha 12 anos. "Um dia eu estava passando na Monsenhor João Soares, em frente ao hotel. Tinha um jornal no chão. Peguei o jornal e vi um anúncio: 'Precisa-se de um menino para trabalhar na gráfica do jornal Cruzeiro do Sul'. Em vez de ir para a escola, fui ao jornal. Conversei com o seu Nelson e ele falou: 'Pode começar amanhã'. Eu tinha 12 anos e ia fazer 13", conta.

A gráfica foi o primeiro emprego do menino que se tornaria um grande jogador de futebol. Desde pequeno gostava de jogar bola; um dia montou um time com as crianças do bairro para brincar, e decidiram se inscrever em uma competição. O time venceu o Torneio Primeiro de Maio, realizado pelo Centro Social dos Empregados de Sorocaba (CSES).

Foi nesse momento que Paraná foi notado pelo São Bento pela primeira vez. "Não é que nós fomos campeões do torneio das crianças? Jogamos, ganhamos o campeonato. Daí o pessoal do São Bento falou comigo para eu treinar lá", conta. Ainda funcionário da gráfica, pedia para sair mais cedo para poder frequentar os treinos. Conciliou o emprego e os treinos enquanto pôde, até que o futebol passou a ser trabalho em tempo integral.

Em Sorocaba

Tendo vindo para Sorocaba ainda menino, passou 11 anos na cidade, de 1954 a 1965, onde encontrou e construiu sua base. Aos 13 anos, começou a namorar Dulce de Oliveira Barros. Em 1965, deixou Sorocaba para jogar pelo São Paulo Futebol Clube. Em 1969, voltou à cidade para se casar. Em 1979, retornou a Sorocaba para jogar pelo São Bento novamente.

Em terras sorocabanas encontrou o primeiro emprego, o primeiro amor e a carreira profissional. Depois de muitas temporadas longe jogando futebol, foi em Sorocaba que deixou raízes. Com a esposa, falecida há 17 anos, construiu a família e teve três filhos: Cintia de Oliveira Barros, de 56 anos, Cibelle de Oliveira Barros, de 54, e Ademir de Barros Júnior, de 48. Com os anos, vieram também os netos: Maria Eduarda, de 23 anos, Pedro Henrique, de 21, e Benjamin, de 5. Além dos amigos — "a maioria dos meus amigos era toda daqui", afirma.

Assinante
há 71 anos

Paraná assinou o jornal Cruzeiro do Sul quando começou a trabalhar na gráfica, aos 13 anos, e nunca mais parou. Mesmo nas temporadas fora da cidade, quando morou e jogou futebol em São Paulo, conta que comprava os exemplares na banca — na época em que o Cruzeiro do Sul era distribuído para todo o Estado de São Paulo —, além de receber o jornal em casa, em Sorocaba.

Ao longo dos anos, apareceu inúmeras vezes nas páginas do jornal, em diferentes momentos da carreira: pelos feitos conquistados, pela forma como foi descoberto e pelas vezes em que ganhou prêmios e títulos.

Desde o primeiro exemplar encontrado no chão das ruas do centro de Sorocaba até os dias de hoje, o jornal é parte da rotina diária de Paraná. A relação nunca terminou. Em tom bem-humorado, ele conta: "Todo dia eu leio. Vou até ao banheiro com o jornal".