Clima
Ocupação das margens do rio aumenta risco de enchentes
Especialista alerta que construções e menos áreas verdes dificultam o escoamento da chuva e agravam os alagamentos em Sorocaba
A ocupação das margens e áreas de várzea do rio Sorocaba, somada ao avanço da impermeabilização do solo, contribui para o agravamento de enchentes e alagamentos na cidade, segundo o arquiteto e professor da Uniso Tiago da Guia.
De acordo com o especialista, o rio Sorocaba passou por processos de retificação que alteraram seus meandros e concentraram o curso d'água em uma calha. Áreas que funcionavam como várzea e amortecimento natural das cheias passaram a ser ocupadas por avenidas e edificações. Entre os exemplos, ele cita as marginais, o Poupatempo e o Terminal São Paulo.
"De um rio que já foi retificado por duas vezes e teve seus meandros direcionados para uma calha única, onde antes era a cota de alagamento, onde antes era a várzea do rio, hoje é ocupado por avenidas marginais e até prédios", afirma.
Com menos áreas permeáveis, a água da chuva escoa mais rapidamente para galerias, córregos e rios. Quando a capacidade do sistema é ultrapassada, pode ocorrer o retorno da água para ruas e imóveis.
O problema, segundo Da Guia, também é influenciado por empreendimentos instalados em regiões mais altas, que aumentam a velocidade com que a água chega aos cursos d'água.
O arquiteto também cita o Parque das Águas, no Jardim Abaeté, como exemplo de estrutura criada para auxiliar no controle das cheias. Na avaliação dele, porém, o aumento da impermeabilização e a redução da vegetação diminuem a eficiência dessas áreas.
"Esses parques não dão conta devido ao excesso de permeabilização, à baixa vegetação que nós temos em torno do rio, assim como à junção de novos empreendimentos no entorno, nas partes mais altas, que levam o fluxo de água mais rápido ao rio", afirma.
Para o professor, novos piscinões, isoladamente, não solucionarão o problema.
Loteamentos irregulares
Outro ponto levantado pelo arquiteto é a ocupação irregular de áreas próximas a córregos, mananciais e áreas de preservação.
Ele cita regiões dos extremos norte e leste de Sorocaba como locais que demandam fiscalização contra loteamentos clandestinos. A expansão dessas ocupações, segundo ele, provoca perda de vegetação e impermeabilização justamente em áreas importantes para a proteção ambiental.
"As áreas de manancial nas bordas, onde antes eram zonas de chácaras, de proteção de sítios e áreas de preservação ambiental, estão se perdendo para loteamentos clandestinos e pouco se fala disso", afirma.
Da Guia defende que o combate às ocupações irregulares seja acompanhado de políticas habitacionais e fiscalização dos responsáveis pelos loteamentos.
Plano Diretor
Apesar das críticas à fiscalização, o professor avalia que a legislação municipal possui mecanismos para reduzir os impactos da ocupação urbana.
Segundo ele, o Plano Diretor estabelece regras sobre permeabilidade e uso do solo. O arquiteto também cita o zoneamento voltado ao desenvolvimento sustentável como ferramenta para organizar a ocupação de antigas áreas de chácaras.
"O zoneamento hoje e a legislação municipal são muito bons nesse quesito e estão em consonância com as perspectivas de desenvolvimento ambiental", afirma.
O desafio, segundo ele, é garantir o cumprimento das regras.
Prefeitura
Em resposta, o Saae informou que as intervenções de macrodrenagem estão previstas no Plano Diretor de Drenagem Urbana de Sorocaba (PDDU).
A autarquia afirma manter investimentos em drenagem, construção de bacias de amortecimento, adequação de travessias e canalizações, além de desassoreamento.
Desde 2022, segundo o Saae, cerca de 170 mil metros cúbicos de resíduos foram retirados de córregos e canais. Também foram removidos mais de 25 mil metros cúbicos de sedimentos do rio Sorocaba e 1.200 pneus descartados irregularmente.