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Entrevista

Prevenção de mortes no trânsito passa por mudanças de legislação

Alerta é do delegado Acácio Aparecido Leite; punição deveria ser mais severa para condutores infratores

07 de Agosto de 2026 às 20:47
Caroline Mendes [email protected]
Acácio Leite:
Acácio Leite: "Sorocaba não pode 'normalizar' os acidentes de trânsito" (Crédito: Reinaldo Santos)

Os frequentes acidentes de trânsito em Sorocaba e a necessidade de mudanças na legislação foram temas de alerta feito pelo delegado Acácio Aparecido Leite, titular do 8º Distrito Policial, durante entrevista ao Jornal da Cruzeiro, na rádio Cruzeiro FM 92,3. Segundo ele, o município vive uma situação preocupante e precisa tratar o problema como uma questão de segurança pública. "É um troféu que a gente não se orgulha. Infelizmente, nós continuamos disputando com Jundiaí quem é o primeiro lugar de mortes no trânsito do interior de São Paulo", afirmou o delegado, ao comentar os índices de ocorrências na cidade.

Em 2025, foram 115 mortes nas vias urbanas de Sorocaba, e 1.650 sinistros (acidentes) de trânsito contabilizados entre colisões e atropelamentos. Nos primeiros seis meses deste ano, já foram 45 mortes. Segundo dados do Infosiga, sistema de estatísticas de acidentes de trânsito do Detran, Jundiaí é a 7ª cidade com mais mortes na taxa de casos por 100 mil habitantes, com Sorocaba logo abaixo.

Para Acácio, é necessário rever a forma como os crimes de trânsito são tratados no país. Ele defendeu um debate jurídico sobre a diferença entre homicídio culposo e doloso em casos envolvendo condutores que assumem riscos ao dirigir. "Já passou da hora de rever isso. Tratar o trânsito como crime realmente. É um debate que precisa voltar à tona: é doloso ou é culposo? O condutor criminoso precisa responder por crime de forma grave, com prisão, multa, proibição de dirigir e outras medidas", disse.

O delegado afirmou que, atualmente, a legislação brasileira acaba sendo "garantista" ao cidadão e, segundo ele, cobra pouco dos motoristas. "A gente precisa equilibrar essa balança novamente", declarou.

Motociclistas e vítimas

Durante a entrevista, Acácio destacou que os motociclistas aparecem com frequência entre as vítimas mais graves dos acidentes. Segundo ele, a maioria dos casos envolve jovens e está relacionada ao excesso de velocidade e ao desrespeito às regras de trânsito. "A motocicleta não tem segunda chance. Ou é óbito ou é uma incapacidade muito grande. Um motociclista que se acidenta hoje, para começar a conversar, são seis meses de recuperação", afirmou.

O delegado também chamou atenção para a realidade dos trabalhadores por aplicativos, que utilizam motos para entregas. Segundo ele, a pressão por metas e tempo de entrega pode incentivar comportamentos de risco. "Muitas vezes ele tem que fazer as besteiras. O aplicativo não quer saber se está chovendo, se é dia ou noite, ele tem que bater a meta", afirmou.

Apesar disso, Acácio ressaltou que o fato de o motociclista estar trabalhando não permite o descumprimento das leis. "Não é porque ele está trabalhando que ele pode tudo. Ele sobe na calçada, atravessa canteiro, corta carro. Isso também precisa ser combatido", disse.

Avenida Itavuvu

Questionado sobre os acidentes na avenida Itavuvu, o delegado afirmou que a via reúne características que aumentam os riscos, como o crescimento urbano da região, o grande fluxo de veículos e os acessos ao Parque Tecnológico e empresas próximas.

Segundo levantamento citado durante a entrevista, entre julho de 2024 e junho de 2026 foram registrados 347 acidentes na Itavuvu, sendo 17 fatais. Do total de mortes, 40% envolveram motociclistas e 30% pedestres. Um dos casos mais recentes foi 19 de julho: uma bebê de 1 ano e um jovem de 24 anos morreram atropelados. Na noite de quinta-feira (6), outro bebê foi atropelado, dessa vez quando estava acompanhado pela mãe. A mulher não se machucou, mas o neném sofreu alguns ferimentos.

Acácio defendeu melhorias estruturais e fiscalização mais efetiva na região. Para ele, a faixa exclusiva do BRT deveria ter barreiras físicas para impedir o acesso irregular de veículos. "As câmeras precisam produzir um efeito punitivo. Não adianta só registrar, tem que gerar consequência", afirmou.

O delegado também comentou o caso de um casal atropelado por um motociclista na Avenida Itavuvu. Segundo ele, o motorista de um carro havia parado para permitir a travessia dos pedestres, mas a moto teria seguido pela faixa do BRT e atingido as vítimas.

Acácio explicou que o inquérito ainda está no início e que a perícia será fundamental para definir a responsabilidade. Inicialmente, a ocorrência pode ser enquadrada como homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

No entanto, ele afirmou que será analisada a possibilidade de dolo eventual, quando o condutor assume o risco de provocar o resultado.

"Ele estava na velocidade permitida? Estava distraído? Estava trafegando na faixa do BRT, que não é permitido? A perícia vai dizer", explicou.

Outro ponto abordado pelo delegado foi o uso do celular no trânsito. Para ele, a distração se tornou um dos fatores de risco mais presentes atualmente, tanto entre motoristas quanto pedestres. "É uma questão de cultura. As pessoas estão querendo fazer tudo ao mesmo tempo e estão morrendo no trânsito".