Comemoração
Um legado que transforma gerações
Criada pela Loja Maçônica Perseverança III, Fundação Ubaldino do Amaral consolida um modelo que integra educação, comunicação e assistência social e se torna parte da história de Sorocaba
Há histórias que se confundem com a trajetória de uma cidade. Em Sorocaba, uma delas começou ainda no século 19, com a fundação da Loja Maçônica Perseverança III, e ganhou um novo capítulo em 31 de julho de 1964, quando nasceu oficialmente a Fundação Ubaldino do Amaral (FUA).
Ao completar 62 anos, a Fundação representa muito mais do que uma instituição filantrópica. Ela simboliza a continuidade de um projeto iniciado há 157 anos, baseado na convicção de que educação, comunicação e solidariedade podem transformar uma comunidade e construir oportunidades para diferentes gerações.
A história da FUA está diretamente ligada à Loja Perseverança III, fundada em 1869 em Sorocaba. Ela se tornou reconhecida por iniciativas pioneiras na área educacional, entre elas a criação da primeira escola destinada aos filhos de escravizados no Brasil, ainda em 1869, dezenove anos antes da assinatura da Lei Áurea.
Segundo o presidente da Perseverança III, João José Sabongi Neto, a criação da Fundação foi consequência natural desse compromisso histórico com a educação e a filantropia. "A Fundação Ubaldino do Amaral foi criada oficialmente em 31 de julho de 1964 pelos membros da Perseverança III e se consolidou como um modelo de filantropia autossustentável. A iniciativa garantiu a manutenção de projetos sociais e a perpetuação do jornal Cruzeiro do Sul, fundado em 1903."
A ligação entre as duas instituições permanece viva até hoje. "Os membros da diretoria da Fundação Ubaldino do Amaral são todos pertencentes à Loja Maçônica Perseverança III, mantendo uma relação direta entre as duas instituições", acrescenta Sabongi.
Para ele, os princípios que orientam a atuação da Fundação continuam os mesmos definidos por seus instituidores. "Os princípios de atuação permanecem baseados na tríade comunicação, educação e filantropia, além do voluntariado e da manutenção dos valores éticos. Os conselheiros e diretores não recebem remuneração, reforçando o caráter voluntário da atuação."
O homem que inspirou a Fundação
O nome escolhido para a Fundação homenageia uma das figuras mais importantes da história sorocabana e brasileira. Ubaldino do Amaral Fontoura (1842-1920) foi jornalista, advogado, abolicionista e um dos fundadores da Loja Maçônica Perseverança III. Iniciou sua atuação pública em Sorocaba, onde também participou da fundação da Estrada de Ferro Sorocabana.
Posteriormente se mudou para o Rio de Janeiro, então capital federal, onde exerceu funções de grande relevância nacional: foi intendente municipal -- cargo equivalente ao de prefeito --, senador da República e ministro do Supremo Tribunal Federal.
Ao batizar a Fundação com seu nome, os instituidores buscaram homenagear uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação, a cidadania, a imprensa e o desenvolvimento social, valores que continuam orientando a atuação da FUA mais de seis décadas depois.
A ideia que mudou a história da FUA
Embora tenha sido criada oficialmente em 1964, a Fundação começou a ser idealizada no ano anterior. O presidente da FUA, Carlos Hingst Corrá, relembra que, em 1963, o então presidente da Perseverança III, Paulo Pence Pereira, buscava uma alternativa para garantir recursos permanentes às entidades assistenciais ligadas à Loja.
Até então, boa parte da manutenção dessas instituições dependia da realização de festas, almoços, jantares e outras ações beneficentes. "Ele [Paulo Pence Pereira], juntamente com outros membros, incluindo Laelso Rodrigues, sonhavam em criar uma empresa que pudesse gerar renda para manter as entidades beneficentes assistidas pela PIII e não mais depender, apenas, de festas, almoços e jantares para obter recursos necessários na manutenção das casas assistenciais."
A solução encontrada foi a criação da Fundação e a aquisição da Editora Cruzeiro do Sul S/A, responsável pelo jornal Cruzeiro do Sul. "O propósito foi alcançado e mantido. É um trabalho voluntário em favor da sociedade que é impossível mensurar e, em muitas ocasiões, invisível, anônimo, porém essencial. Aliás, essa é a essência da Fundação Ubaldino do Amaral", afirma Corrá.
Educação, comunicação e assistência social
Desde sua criação, a Fundação foi estruturada sobre três pilares que continuam orientando todas as suas iniciativas. "A Fundação Ubaldino do Amaral foi pensada e instituída a partir de três pilares de atuação: a educação, a comunicação e o assessoramento à assistência social. O compromisso com a comunidade de forma ampla é o que move todo o trabalho desenvolvido há 62 anos, mantendo vivo e ativo o ideal", destaca Corrá.
Segundo ele, a FUA não atua apenas como mantenedora de instituições. Seu papel também envolve apoiar tecnicamente as entidades assistenciais ligadas à Perseverança III, oferecendo suporte administrativo, orientação para elaboração de projetos, prestação de contas, relatórios e acompanhamento de ações sociais.
A estrutura da Fundação também é colocada à disposição dessas instituições, fortalecendo o trabalho do chamado Terceiro Setor em Sorocaba. "Manter vivo a essência do voluntariado e do trabalho social que beneficia milhares de pessoas. Essa é a essência do chamado Terceiro Setor, um dos pilares sobre os quais se sustenta uma sociedade verdadeiramente desenvolvida. A FUA está mergulhada nessa essência. A razão de sua criação e existência."
Educação como instrumento de transformação
Entre os legados mais significativos da Fundação, a educação ocupa posição central. Um dos exemplos é o Colégio Poli de Sorocaba, citado por Corrá como uma das principais contribuições da FUA para a comunidade. "Ao longo dessas décadas todos colhemos muitos frutos que chegam com depoimentos de pessoas que conseguiram estudar e formar uma carreira a partir dos propósitos da FUA: viabilizar o estudo a pessoas que realmente precisavam desse apoio."
Para o presidente do Lar Escola Monteiro Lobato, José Belini Neto, essa atuação demonstra que a Fundação compreendeu que a transformação social depende de diferentes frentes de trabalho atuando de forma integrada. "A FUA é um raro exemplo de instituição que entendeu que a transformação social não acontece de forma isolada. Ao atuar na educação com o Colégio Poli, na comunicação com o Cruzeiro do Sul e no assessoramento a entidades assistenciais, ela cria um ecossistema completo de desenvolvimento social."
O próprio Lar Escola, que celebra 80 anos de existência, mantém uma relação histórica com a Fundação. Belini define as duas instituições como "co-irmãs", nascidas do mesmo ideal maçônico da Perseverança III. "Ter uma instituição do porte da FUA como parceira dá ao nosso trabalho uma credibilidade imensa e nos ajuda a manter vivo o propósito de transformar vidas, que é a razão de ser de ambas as entidades."
Comunicação a serviço da comunidade
A comunicação sempre esteve no centro da história da Fundação. O Cruzeiro do Sul, fundado em 1903, se tornou um dos principais veículos de informação do interior paulista e permanece como um dos pilares da atuação da FUA.
Ao lado do jornal, a Cruzeiro FM 92,3 se consolidou como parte desse sistema de comunicação voltado à prestação de serviço e ao fortalecimento do vínculo com a comunidade.
Segundo o presidente da emissora, Gerdy Rodrigues da Silveira, rádio e jornal hoje compartilham a mesma estrutura física, ampliando a integração entre as equipes. "Hoje a Rádio Cruzeiro FM e o jornal Cruzeiro do Sul ocupam o mesmo espaço, o que proporciona uma grande interação entre o estúdio e técnico. Um grande sistema de comunicação para a Região Metropolitana de Sorocaba."
Ele destaca que a principal missão da emissora permanece baseada na credibilidade e no serviço prestado à população. "A grande contribuição social da Cruzeiro FM é trazer para a população sorocabana e nossa região informação, prestação de serviço com o maior nível de credibilidade possível, criando uma ponte direta entre população, poder público, entidades, empresários e serviços."
Ao longo dos anos, a rádio também ampliou sua presença para as plataformas digitais, incluindo YouTube, Instagram, Facebook e aplicativo próprio. "O maior legado da Cruzeiro FM é a informação com credibilidade e isso também reflete a história da FUA ao longo dos anos."
Uma rede construída para servir
O alcance da Fundação vai muito além da educação e da comunicação. Ao longo das décadas, se consolidou uma rede de instituições voltadas ao atendimento de diferentes públicos e necessidades sociais.
Entre elas estão Lar Escola Monteiro Lobato, Vila dos Velhinhos de Sorocaba, Serviço de Obras Sociais (SOS), Associação de Proteção e Inclusão Social (Apis), Liga Sorocabana de Combate ao Câncer, Colégio Poli, Fundação Cultural Cruzeiro do Sul e outras iniciativas surgidas ou fortalecidas com o apoio da FUA.
Para João Carlos Wey, presidente do SOS, a Fundação acompanha a entidade desde sua origem. "A FUA é uma parceira desde a criação do SOS. Ela vem divulgando eventos, mostrando nosso trabalho social, cedendo espaços gratuitos para divulgação de matérias no jornal e fortalecendo nossas ações sociais."
O SOS atende atualmente cerca de 150 pessoas por dia, oferecendo alimentação, banho, troca de roupas e apoio para reinserção social. Segundo Wey, o perfil do público mudou significativamente nos últimos anos, com aumento expressivo do número de idosos em situação de abandono. "O SOS hoje faz parte da cidade de Sorocaba. Eu sinceramente não consigo enxergar Sorocaba sem a presença do SOS."
Na Apis, o presidente Rubens Cury Basso destaca o processo de reinvenção da entidade, que passou a concentrar sua atuação em projetos de inclusão social voltados principalmente às pessoas em situação de rua. "A Apis se reinventou. Ela procura administrar de forma transparente e sempre buscando ajudar o próximo. A Fundação Ubaldino do Amaral é uma grande apoiadora das nossas instituições."
O acolhimento como missão
Na área da saúde e do apoio às famílias, a Liga Sorocabana de Combate ao Câncer também integra esse legado construído pela Fundação. Para a presidente Érica Soares Leite Cannavan Mora, o papel da FUA vai além do apoio institucional. "A FUA ajuda a dar visibilidade ao trabalho realizado pela Liga, aproximando a comunidade das causas que transformam vidas. Para mim, como presidente da Liga, é motivo de muito orgulho fazer parte dessa história."
Ela ressalta que as necessidades das pacientes vão muito além do tratamento médico. "Elas precisam de acolhimento, escuta, apoio psicológico, assistência social e atividades que promovam qualidade de vida. O câncer impacta profundamente o paciente e toda a sua família, e nosso trabalho é estar ao lado delas, oferecendo suporte para que enfrentem essa jornada com mais dignidade, esperança e confiança."
Na Vila dos Velhinhos de Sorocaba, o presidente Valdir Euclides Buffo Junior destaca que o maior desafio é manter a excelência dos serviços prestados aos idosos, especialmente diante da necessidade constante de profissionais qualificados e do aumento das demandas relacionadas à saúde.
A instituição busca sua independência financeira por meio de iniciativas como o Boulevard Vila, além de contar com doações da comunidade e o trabalho de inúmeros voluntários. "Sem tudo isso que citei, manter nossa querida instituição seria uma missão ainda mais difícil. Registro, em nome de toda a diretoria da Vila dos Velhinhos, os parabéns à FUA pelos seus 62 anos. É muito importante que as instituições ligadas à Perseverança III sigam firmes em seus objetivos e fins sociais."
O voluntariado que fortalece a solidariedade
Ao lado das instituições assistenciais, a Fraternidade Feminina Cruzeiro do Sul exerce um papel fundamental na mobilização de voluntários e na captação de recursos para diversas ações beneficentes ligadas à Fundação Ubaldino do Amaral e à Loja Maçônica Perseverança III.
Segundo a presidente Marília do Nascimento Pires Chauar, a entidade atua sempre que é chamada a colaborar com as instituições do grupo, apoiando iniciativas como a Corrida Pink do Bem, em benefício da Liga Sorocabana de Combate ao Câncer, além de eventos solidários como o Bacalhau Amigo e outras campanhas voltadas à arrecadação de recursos.
Ao longo dos anos, o perfil de atuação da Fraternidade também evoluiu. "Passamos de um trabalho predominantemente braçal, realizado pelas fundadoras, para uma atuação voltada à captação, administração e organização de recursos provenientes de patrocinadores, apoiadores e da própria comunidade, garantindo o sucesso das ações beneficentes."
Entre as iniciativas que melhor representam esse trabalho, Marília destaca justamente o apoio permanente à Liga Sorocabana de Combate ao Câncer, responsável por beneficiar centenas de mulheres ao longo dos anos. Para ela, porém, o principal elo entre todas as entidades é um sentimento comum. "A palavra é amor. Amor fraternal à criança, ao adulto e ao idoso."
Marília afirma que fazer parte dessa história é motivo de orgulho. "É muito gratificante participar de uma instituição que tem por norma a família, a educação e o trabalho."
Formando novas gerações
O legado da Perseverança III também se projeta para o futuro por meio da Fraternidade Acadêmica Perseverança III, voltada à formação de jovens universitários. Segundo o presidente Felipe Sbrana, a entidade busca aproximar os estudantes dos valores éticos, morais e humanos que marcaram a história da Perseverança III. "Nós acreditamos que o conhecimento acadêmico precisa caminhar junto com a formação ética, moral e humana. A Fraternidade foi criada para aproximar esses jovens da Maçonaria, preparando futuras lideranças comprometidas com o desenvolvimento da sociedade."
Para ele, a integração com a FUA e as demais entidades ocorre justamente a partir desse propósito comum de servir à comunidade. "A Fundação Ubaldino do Amaral é a expressão do compromisso da Perseverança Terceira com Sorocaba. Por meio da comunicação, da educação e da ação social, ela ajuda a informar, acolher e transformar vidas."
O desafio de manter
a missão viva
Ao olhar para o futuro, Carlos Hingst Corrá reconhece que os desafios cotidianos permanecem presentes, especialmente em um cenário de custos crescentes e aumento das demandas sociais. "Nossa administração é voluntária, porém altamente profissional. A dedicação é diária. A FUA nasceu como facilitadora para o trabalho social", ressalta.
Ainda conforme ele, o principal desafio é preservar a essência que motivou a criação da Fundação. "O desafio é manter essa missão ativa, viva e que realmente faça a diferença em uma sociedade cada vez mais dependente do Terceiro Setor para unir pessoas de diferentes crenças, profissões, ideologias e condições sociais em torno de um objetivo comum: cuidar do próximo."
O presidente da diretoria executiva da FUA deixa uma mensagem que sintetiza a relação construída entre a Fundação e a cidade ao longo dessas décadas. "A FUA está inserida em uma parte da história de Sorocaba, assim como Sorocaba é importante para a FUA. Sorocaba, sua gente e a FUA são necessárias para manter viva a missão de unir pessoas e construir coisas boas para nossa comunidade", conclui.
Mais do que uma fundação
Ao completar 62 anos, a Fundação Ubaldino do Amaral representa a continuidade de um compromisso iniciado pela Perseverança III há mais de um século e meio. Nas salas de aula do Poli, nas páginas do Cruzeiro do Sul, nos microfones da Cruzeiro FM, no acolhimento oferecido pelo SOS, na esperança levada pela Liga Sorocabana de Combate ao Câncer, no cuidado dedicado aos idosos da Vila dos Velhinhos, no trabalho de inclusão desenvolvido pela Apis e nas ações voluntárias da Fraternidade Feminina, permanece vivo o ideal de transformar a comunidade por meio da educação, da informação, da solidariedade e do compromisso com o próximo.
Mais do que preservar uma história, a FUA continua cumprindo a missão que inspirou seus fundadores: unir pessoas para construir oportunidades, acolher quem mais precisa e manter viva, em Sorocaba, a convicção de que servir ao próximo é um compromisso que atravessa gerações.
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