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Saúde

Morrer de tristeza: mito ou possibilidade?

Especialistas explicam como perdas e emoções intensas podem provocar impactos físicos e afetar a saúde

25 de Julho de 2026 às 21:12
Vernihu Oswaldo [email protected]
Marjane Satrapi ficou conhecida mundialmente
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Marjane Satrapi ficou conhecida mundialmente por "Persépolis", obra autobiográfica em quadrinhos que retrata sua infância no Irã (Crédito: REPRODUÇÃO / REDES SOCIAIS)

A autora Marjane Satrapi, iraniana, morreu no dia 4 de junho deste ano, aos 56 anos. Em sua nota fúnebre, foi escrito que ela "morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida". Mas a frase seria apenas uma forma de suavizar o impacto de uma morte ou poderia revelar uma relação entre a dor emocional e o corpo?

Marjane ficou mundialmente conhecida por escrever Persépolis, uma autobiografia em quadrinhos que conta sua infância no Irã. Nascida em uma família abastada e progressista, acompanhou a queda do governo e a ascensão do regime xiita, que deu início à República Islâmica. Com a consolidação do extremismo, o cotidiano foi completamente transformado: mulheres passaram a ser obrigadas a usar o véu islâmico, e meninas foram separadas dos meninos nas escolas.

Rebelde, a jovem Marjane não aceitou as novas regras. Sua personalidade fez com que a família a enviasse para a Áustria. Desde cedo, conviveu com a saudade, as mudanças e o sentimento de perda. Décadas depois, sua morte voltou a ser associada a uma profunda tristeza.

Mas é possível morrer de tristeza?

O professor de cardiologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Emerson de Albuquerque Seixas, explica que sim: existem sintomas físicos provocados por situações de tristeza extrema.

Um exemplo é a cardiomiopatia de Takotsubo, também chamada de Síndrome do Coração Partido. Segundo o médico, um trauma emocional intenso pode desencadear respostas físicas. "Do ponto de vista cardiológico, pode haver uma descarga adrenérgica e isso, no coração, pode gerar uma disfunção fisiológica, uma alteração na contratilidade e no rendimento cardíaco. Isso pode levar a um quadro de insuficiência cardíaca aguda, com queda do desempenho do coração."

Os sintomas são semelhantes aos de um infarto, mas, no caso do infarto, existe uma lesão nas artérias coronárias, o que não ocorre na Takotsubo. Muitas vezes, o cateterismo pode ser indicado para diferenciar as duas situações.

O termo Takotsubo faz referência a uma armadilha utilizada para capturar polvos, cujo formato se assemelha ao do ventrículo esquerdo, a principal câmara de bombeamento do coração.

O médico afirma que a condição foi descrita inicialmente como mais frequente em mulheres no período pós-menopausa, embora ainda não exista uma explicação definitiva para essa predominância.

Marjane frequentemente falava sobre o marido. Em certa ocasião, descreveu: "Meu marido é sueco. Ele é extremamente calmo, lógico e reservado, exatamente o oposto de mim. Eu sou dramática, barulhenta e muito expressiva, típica do Oriente Médio. Se eu fosse casada com um homem como eu, nós provavelmente já teríamos nos matado. O Mattias me traz o equilíbrio e a paz de que eu preciso".

Paz. Marjane passou boa parte da vida buscando paz. Em seu livro Bordados, a autora faz um recorte da vida das mulheres no Irã para discutir relações afetivas, casamento, traições, tradições e sexualidade. Em uma das páginas, descreve um antigo envolvimento amoroso, antes de Mattias: "Foi lá que eu conheci o Herbert. Ele era o meu par na valsa. Eu sentia que ele queria me seduzir, mas eu era uma mulher casada, não podia ceder".

Marjane teve um casamento anterior, com Reza, que terminou em divórcio em 1994. Anos depois, já na França, casou-se com o sueco Mattias Ripa, com quem permaneceu até abril de 2025, quando ele morreu de forma repentina.

A psicóloga Thais Mazotti explica que "em alguns casos, perdas importantes ou experiências traumáticas podem estar associadas ao desenvolvimento ou agravamento de quadros como transtornos depressivos, transtornos de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e outras condições psicológicas, especialmente quando existem comorbidades e fatores de risco envolvidos".

Thais também recorre à psicanálise para explicar a quebra dessa estabilidade emocional. "Sigmund Freud escreveu, em seus estudos sobre o amor e os vínculos humanos, que nos sentimos mais seguros quando nos sentimos amados. A perda de alguém amado pode, portanto, mobilizar profundamente nossa vida emocional e abalar referências que sustentavam nossa sensação de segurança, pertencimento e continuidade", complementa.

O trauma pode modificar a forma como uma pessoa se relaciona com a própria vida. Marjane passou por muitos deles.

No final de Persépolis, ela descreve a cena em que sua mãe desmaia nos braços do pai ao se despedir da filha. Marjane voltou ao Irã, mas percebeu que não poderia viver plenamente sob as restrições opressivas e misóginas do regime islâmico. A falta de liberdade pessoal a consumia. Em 1994, aos 24 anos, mudou-se para a França e nunca mais voltou ao Irã.

Luto

O cardiologista afirma que, "de maneira geral, a recuperação completa desse rendimento e dessa disfunção temporária pode levar semanas ou poucos meses". Entretanto, assim como ocorre no infarto, a condição pode deixar sequelas e comprometer o funcionamento do coração.

Já a psicóloga explica que a depressão é uma condição multifatorial, influenciada por aspectos biológicos, neurológicos, genéticos, psicológicos, ambientais e sociais.

"Entre os sintomas que podem estar presentes estão a perda de energia, alterações na rotina, diminuição do interesse por atividades antes consideradas significativas, sentimentos persistentes de tristeza e prejuízos importantes no funcionamento cotidiano", afirma.

Seja como for, a história de Marjane Satrapi mostra que a dor emocional pode ultrapassar os limites da mente e também se manifestar no corpo. Em alguns casos, o que chamamos de "morrer de tristeza" revela a força que o luto e o amor podem exercer sobre a vida.