Economia
Ciesp critica nova tarifa dos EUA
Sobretaxa amplia barreiras comerciais aos produtos brasileiros
O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) criticou a decisão dos Estados Unidos de impor uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de que o Brasil não combate adequadamente práticas de trabalho forçado em setores produtivos. A sobretaxa entrou em vigor na sexta-feira (24) e se soma aos 25% anunciados anteriormente, ampliando as barreiras comerciais aos produtos brasileiros no mercado norte-americano.
A medida preocupa o setor produtivo da região de Sorocaba. Dados do estudo "Balança Comercial das Diretorias Regionais do Ciesp", que reúne os 48 municípios atendidos pela Regional do Ciesp Sorocaba, apontam que as exportações para os Estados Unidos somaram US$ 117,4 milhões entre janeiro e junho de 2026. O valor representa uma queda de 39,7% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os Estados Unidos ocupam atualmente a quarta posição entre os principais destinos das exportações da região. No primeiro semestre, os principais mercados foram Argentina, responsável por 36,4% das vendas externas; China, com 16%; e Colômbia, com 6,2%.
No total, a Regional do Ciesp Sorocaba exportou US$ 2 bilhões no período, queda de 4,1% em relação ao primeiro semestre do ano passado. Entre os principais produtos exportados estão veículos automóveis e tratores, que representam 36,2% do total; sementes e frutos oleaginosos, com 15,1%; e máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos, com 12,1%.
Para o diretor titular do Ciesp Sorocaba, Rodrigo Figueiredo, ainda é cedo para afirmar que a queda nas exportações para os Estados Unidos foi causada diretamente pelas tarifas, mas o cenário de instabilidade já afeta a previsibilidade das empresas.
"A confirmação do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros pelo Escritório de Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) atinge as exportações de US$ 11 bilhões da indústria e do agro em todo o Estado de São Paulo, sendo que a Regional de Sorocaba tem uma parcela significativa deste valor", afirma.
Segundo Figueiredo, os setores automotivo e de autopeças, de máquinas e equipamentos, do agronegócio e eletroeletrônico estão entre os mais expostos aos efeitos das tarifas.
O diretor informou que a entidade não tem acesso às negociações comerciais e aos contratos individuais das empresas associadas e, por isso, não consegue confirmar cancelamentos ou redução de pedidos. No entanto, avalia que a nova política comercial norte-americana aumenta os riscos para os exportadores brasileiros. "Existe um consenso de que as novas tarifas, que posicionam o Brasil entre os países com as barreiras comerciais mais severas para acesso ao mercado norte-americano, comprometem significativamente a competitividade da indústria brasileira em um dos maiores mercados do mundo", diz.
Para ele, além do impacto direto sobre os preços, a falta de previsibilidade dificulta o planejamento de investimentos, produção e estratégias comerciais.
Em nota, o Ciesp afirmou que considera improcedente a justificativa utilizada pelos Estados Unidos para a nova sobretaxa. Segundo a entidade, o Brasil é signatário de 66 convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), incluindo as convenções 29 e 105, que tratam do trabalho forçado, e as convenções 138 e 182, sobre trabalho infantil.
"O argumento para mais essa sobretaxa é improcedente, pois o Brasil é um dos maiores signatários das convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sendo aderente a 66 delas, com destaque para os pactos contra o labor infantil e o forçado", explica Rafael Cervone, presidente do Ciesp e primeiro vice-presidente da Fiesp.
A entidade também destacou a existência de legislação trabalhista e mecanismos de fiscalização no país. Para Cervone, alegações sobre trabalho forçado não deveriam ser utilizadas para justificar novas restrições comerciais sem comprovação concreta.
O Ciesp afirma ainda que as tarifas prejudicam a competitividade dos produtos brasileiros e podem encarecer mercadorias para os próprios consumidores norte-americanos.
"As novas tarifas colocam o Brasil dentre os países com as mais severas barreiras de acesso ao mercado norte-americano, comprometendo a competitividade da nossa indústria e do agronegócio em um dos mais importantes mercados do mundo. Ao mesmo tempo, penalizam o próprio consumidor dos Estados Unidos, que pagará mais caro por produtos brasileiros", declara Cervone.
Diplomacia econômica
O Ciesp defende que o governo brasileiro intensifique as negociações diplomáticas para tentar reverter ou reduzir as medidas. A entidade afirma que a questão deve ser tratada como uma agenda de Estado, com foco nos impactos sobre empresas, investimentos e empregos.
Para Rodrigo Figueiredo, uma postura baseada em argumentos econômicos e técnicos é necessária para evitar o agravamento do conflito comercial. "É fundamental que o governo brasileiro, sem reações de cunho político e com serenidade, segurança e bom senso, intensifique os esforços diplomáticos para buscar a reversão da medida e restabelecer um ambiente de maior estabilidade nas relações comerciais entre os dois países", afirma.
O Ciesp também informou que já participou de uma missão a Washington, liderada pelo presidente da entidade, Rafael Cervone, com o objetivo de buscar interlocução e contribuir para a construção de alternativas que preservem a competitividade das empresas brasileiras.
A entidade, no entanto, defende a participação de organizações empresariais brasileiras e norte-americanas nas negociações e considera que a diversificação de mercados pode ser uma estratégia importante para reduzir a dependência de um único destino.
Apesar do cenário de incerteza, o diretor do Ciesp Sorocaba afirma que ainda não é possível estimar os efeitos das tarifas sobre produção, investimentos e empregos na região. "É cedo para dizer se haverá impacto sobre produção, investimentos ou empregos", finaliza Figueiredo.