Entrevista
Especialista aponta conscientização como principal desafio para reduzir mortes no trânsito
Psicóloga Sônia Chebel afirma que fiscalização é importante, mas mudança de comportamento e educação são fundamentais para evitar acidentes
Os sucessivos acidentes de trânsito registrados nas últimas semanas em Sorocaba e região reforçam um problema que, para especialistas, vai além da fiscalização e da infraestrutura viária. A redução do número de mortes passa, sobretudo, pela mudança de comportamento de motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Em entrevista ao Jornal da Cruzeiro, da Cruzeiro FM 92,3, na manhã de ontem (24) a psicóloga, mestre e doutora em Psicologia da Educação, Sônia Chébel Mercado Sparti, afirmou que a conscientização continua sendo o maior desafio para tornar o trânsito mais seguro.
Segundo a especialista, as regras de trânsito e as orientações de segurança são baseadas em estudos científicos, mas muitas pessoas acreditam que elas não se aplicam ao próprio comportamento. "Muitos pensam: 'isso não é para mim'. Acreditam que são responsáveis, que dirigem bem, que podem correr ou deixar de usar o cinto de segurança porque têm habilidade. Isso impede que aceitem informações que são científicas", afirma.
Para Sônia, esse excesso de confiança faz com que motoristas assumam riscos desnecessários e ignorem fatores que influenciam diretamente a ocorrência de acidentes, como velocidade, distância de frenagem, condições da pista, estado dos pneus e peso do veículo.
Ela explica que muitos condutores confundem o ato de frear com a capacidade de parar imediatamente o veículo. Na prática, entre o momento em que o motorista aciona o freio e a parada completa podem existir dezenas de metros de distância, dependendo das condições da via e do automóvel. "Quanto maior a velocidade, maior será o impacto. As pesquisas mostram isso de forma muito clara, mas nem sempre essas informações são assimiladas pela sociedade", observa.
Cultura do risco
Durante a entrevista, Sônia Chebel chamou atenção para outro aspecto que considera decisivo na violência no trânsito: a forma como o automóvel ainda é encarado pela sociedade brasileira.
Na avaliação da psicóloga, o carro deixou de ser apenas um meio de transporte para se tornar um símbolo de status, poder e prestígio social, estimulando comportamentos que favorecem o excesso de velocidade e outras condutas de risco.
Ela comparou essa realidade à de países europeus, onde o automóvel costuma ser visto prioritariamente como um meio de locomoção, e lembrou casos recentes envolvendo jovens que dirigiam veículos de alta potência. "O carro representa poder, independência e prestígio. Muitas vezes o 'ter' acaba sendo mais valorizado do que o 'ser', e isso influencia diretamente o comportamento das pessoas no trânsito", afirma.
Segundo a especialista, esse comportamento também começa dentro da própria família, que, em muitos casos, reforça valores relacionados ao automóvel como demonstração de sucesso ou independência.
Fiscalização
Questionada sobre a cobrança frequente por mais fiscalização após acidentes fatais, Sônia afirmou que a medida é importante, mas insuficiente quando adotada isoladamente.
Segundo ela, o trânsito deixou de ser um tema exclusivamente relacionado à fiscalização e passou a envolver diversas áreas do conhecimento, como engenharia, psicologia, educação, legislação e sociologia. "A fiscalização ajuda, e ajuda muito, mas ela é apenas um dos aspectos. Hoje o trânsito é um assunto multidisciplinar e precisa ser tratado dessa forma", explica.
Para a psicóloga, políticas públicas eficientes dependem da integração entre essas diferentes áreas, associando melhorias na infraestrutura viária, ações educativas permanentes, fiscalização e campanhas voltadas à conscientização da população.
Educação
Autora do livro Jovens ao Volante: uma proposta de educação para o trânsito, Sônia Chébel defende que a educação para o trânsito seja trabalhada de maneira contínua e participativa, desde a infância.
Segundo ela, o objetivo não deve ser apenas ensinar regras de circulação, mas estimular uma mudança de postura diante do trânsito, levando cada cidadão a compreender que suas escolhas podem preservar ou colocar vidas em risco. "A conscientização acontece quando a pessoa entende que todos estamos sujeitos a errar e que ninguém está acima das regras. O importante é continuar vivo", conclui.
A entrevista completa você pode acessar pelo LINK: https://www.youtube.com/watch?v=vn17Z75wF1o&t=13s