Tecnologia e Segurança
CCOI: por dentro da central que monitora Sorocaba em tempo real
Central integra segurança e mobilidade, reúne mais de 2,5 mil câmeras e monitora a cidade 24 horas por dia
Quem passa diariamente pela Secretaria de Mobilidade (Semob), no Alto da Boa Vista, dificilmente imagina que, atrás de uma porta discreta, funciona uma estrutura responsável por acompanhar parte da rotina de Sorocaba em tempo real. Enquanto a cidade desperta, enfrenta congestionamentos, recebe alunos nas escolas, pacientes nas unidades de saúde e milhares de veículos circulam pelas ruas, dezenas de profissionais permanecem diante de monitores acompanhando imagens que chegam de diferentes regiões do município.
Antes mesmo de observar o enorme painel instalado ao fundo da sala, outro detalhe chama atenção: a concentração. Guardas civis municipais, agentes de trânsito e representantes de outros setores praticamente não desviam os olhos das telas. Alguns acompanham cruzamentos movimentados. Outros monitoram corredores do BRT, terminais urbanos, prédios públicos, unidades de saúde ou sistemas voltados à segurança pública. Não há conversas paralelas nem movimentação além do necessário. O ambiente transmite concentração. Cada operador sabe exatamente qual sistema acompanha e qual decisão precisa tomar quando uma ocorrência aparece diante de seus olhos.
É nesse espaço que funciona o Centro de Controle Operacional Integrado (CCOI), inaugurado em novembro de 2023 e que hoje reúne mais de 2,5 mil câmeras espalhadas por Sorocaba. Mais do que um conjunto de equipamentos, a estrutura tornou-se o ponto de encontro entre tecnologia e atuação humana, reunindo informações da Guarda Civil Municipal (GCM), Secretaria de Mobilidade, transporte coletivo, Defesa Civil e plataformas inteligentes capazes de identificar veículos e pessoas de interesse das forças de segurança.
A reportagem do Cruzeiro do Sul acompanhou o funcionamento da central e conheceu uma rotina pouco visível para quem está do lado de fora. Em poucos minutos dentro da sala é possível entender que as câmeras são apenas parte do trabalho. São os profissionais que transformam milhares de imagens em informação, prevenção e resposta rápida.
Cidade nas telas
O grande painel instalado na parede principal exibe imagens que mudam constantemente. Enquanto algumas câmeras alternam automaticamente entre diferentes pontos da cidade, outras são selecionadas manualmente pelos operadores em computadores distribuídos pela sala.
Cada estação de trabalho reúne dezenas de imagens. Em poucos cliques, o operador acompanha o movimento em um terminal de ônibus, observa um cruzamento movimentado, acessa câmeras instaladas em escolas, unidades básicas de saúde (UBSs), Unidadea de Pronto Atendimento (UPAs), corredores do BRT ou prédios públicos. Algumas delas possuem movimentação em 360° e zoom de alta definição, permitindo aproximar detalhes a longa distância.
Durante a visita da reportagem, os operadores demonstraram a facilidade com que alternam entre diferentes regiões do município. Em segundos, imagens captadas em bairros distantes apareciam na tela com nitidez suficiente para acompanhar a movimentação de veículos e pedestres.
A estrutura impressiona não apenas pela tecnologia empregada, mas pela capacidade de reunir informações que, até pouco tempo atrás, eram acompanhadas por diferentes setores de forma independente.
Hoje, boa parte desses sistemas está concentrada no mesmo ambiente.
Segundo o encarregado da Sala de Inteligência do CCOI, Pedro Henrique Silva Rocha, essa integração representa um dos principais avanços obtidos desde a implantação da central. "Hoje temos mais de 2,5 mil câmeras integradas. Os operadores trabalham divididos por sistemas. Temos equipes responsáveis pelo trânsito, transporte, prédios públicos, Protege Mulher, Muralha Paulista e outras plataformas."
Essa divisão permite que cada profissional acompanhe exclusivamente determinado tipo de ocorrência, reduzindo o tempo de resposta quando alguma situação exige o acionamento das equipes em campo.
Outro trabalho realizado diariamente envolve a preservação preventiva das imagens. Mesmo antes de qualquer solicitação oficial, acidentes de trânsito ou outras ocorrências relevantes podem ter os registros separados pelos operadores. "Muitas vezes já salvamos essas imagens porque sabemos que poderão ser solicitadas posteriormente pela Polícia Civil, pela Justiça ou por seguradoras."
O acesso aos registros, entretanto, segue protocolos específicos. As imagens somente são disponibilizadas mediante procedimentos administrativos, boletins de ocorrência ou determinação judicial, respeitando as regras estabelecidas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Inteligência integrada
Muito além do monitoramento convencional, o CCOI reúne diferentes plataformas de inteligência que passaram a atuar de forma integrada. Uma delas é a Muralha Paulista, responsável pela leitura automática das placas dos veículos que circulam pelos principais acessos da cidade.
Sempre que um automóvel passa por um dos pontos monitorados, o sistema realiza automaticamente a leitura da placa e compara as informações com bancos de dados oficiais. Caso exista alguma restrição — como registro de furto, roubo ou outro alerta de interesse policial — os operadores recebem a notificação em tempo real.
As informações são imediatamente compartilhadas com a Guarda Civil Municipal, Polícia Militar e Polícia Civil, permitindo que as equipes sejam acionadas rapidamente.
Segundo Pedro Henrique, o objetivo da ferramenta não é aplicar multas. "O sistema foi desenvolvido para identificar veículos de interesse. Já tivemos apreensões de automóveis com débitos superiores a R$ 200 mil, além da localização de veículos furtados e roubados."
Outro recurso incorporado à rotina da central é o Smart Sampa, plataforma baseada em inteligência artificial que utiliza reconhecimento facial para auxiliar na localização de pessoas procuradas pela Justiça.
Quando uma câmera equipada com essa tecnologia identifica um rosto compatível com os bancos oficiais, um alerta é enviado imediatamente aos operadores.
Mas nenhuma abordagem ocorre de forma automática. O inspetor Ricardo Picoli explica que cada alerta passa por conferência humana antes do acionamento das equipes. "Existe um índice mínimo de confiabilidade. Depois disso, fazemos a validação antes de comunicar as equipes."
O procedimento reduz a possibilidade de erros e garante maior segurança nas abordagens. A tecnologia já contribuiu para localizar pessoas procuradas em diferentes regiões do município. Um dos casos ocorreu no Mercado Municipal, onde um homem com mandado de prisão foi identificado pelas câmeras integradas ao sistema.
Além das plataformas públicas, a central também pode integrar câmeras particulares instaladas em empresas e outros locais considerados estratégicos. Para isso, os equipamentos precisam atender requisitos técnicos, como qualidade das imagens, compatibilidade tecnológica e utilização de inteligência artificial embarcada.
Proteção em segundos
Entre os diferentes sistemas que funcionam simultaneamente no Centro de Controle Operacional Integrado, um deles exige atenção constante dos operadores. Ao contrário de um congestionamento ou de uma falha em um semáforo, cada alerta recebido pelo Protege Mulher pode representar uma situação de risco iminente.
O programa atende mulheres amparadas por medidas protetivas concedidas pela Justiça. Atualmente, 2.169 pessoas fazem parte da iniciativa em Sorocaba. Quando uma delas aciona o aplicativo pelo celular, uma sequência de procedimentos é iniciada quase que simultaneamente dentro da central.
Enquanto um operador faz contato telefônico com a vítima, outro acompanha, em tempo real, o áudio captado pelo aparelho. Paralelamente, uma equipe da Guarda Civil Municipal já recebe as informações necessárias para seguir até o local informado.
Segundo o inspetor da GCM Ricardo Picoli, o sistema foi desenvolvido justamente para reduzir o tempo entre o pedido de ajuda e a chegada do atendimento. "Enquanto um operador faz a ligação para verificar a situação, outro já está ouvindo o áudio ambiente. A viatura também é acionada imediatamente. Tudo acontece praticamente ao mesmo tempo."
A rapidez do protocolo permite que as equipes compreendam parte do cenário antes mesmo de chegarem ao endereço. Durante a visita ao CCOI, um caso chamou atenção da reportagem.
Após acionar o aplicativo, uma mulher atendeu ao telefone dos operadores afirmando que estava bem e que não precisava de ajuda. Mesmo diante da resposta, a equipe decidiu manter o deslocamento da viatura.
Ao chegar ao local, os guardas encontraram a vítima sendo ameaçada pelo agressor com uma picareta. Segundo os agentes, ela havia mentido por estar sendo coagida naquele momento.
O episódio reforçou um procedimento adotado pela corporação: independentemente do que é informado por telefone, a ocorrência continua sendo tratada até que a situação seja verificada presencialmente. "O aplicativo é uma ferramenta importante, mas quem faz a diferença são as pessoas que estão operando o sistema e as equipes que chegam ao local", resume Picoli.
O comandante da Guarda Civil Municipal, Dutra, explica que a tecnologia representa apenas uma etapa de um trabalho iniciado ainda no Poder Judiciário.
Segundo ele, o ingresso da mulher no programa envolve Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), Justiça e Secretaria da Cidadania. Quando o alerta chega ao CCOI, todas as informações necessárias para o atendimento já estão disponíveis aos operadores. "Recebemos imediatamente a localização da vítima e os dados do agressor. Isso permite uma resposta muito mais rápida."
Para o comandante, a integração entre os órgãos é um dos principais avanços proporcionados pela criação da central. "Hoje trabalhamos dentro do conceito do Sistema Único de Segurança Pública. Guarda Civil Municipal, Polícia Militar e Polícia Civil atuam de forma integrada."
Trânsito
Embora boa parte da população associe o CCOI apenas à segurança pública, uma parcela significativa do trabalho desenvolvido diariamente está relacionada à mobilidade urbana.
Acidentes, panes em semáforos, congestionamentos, veículos parados em locais proibidos e diversas outras ocorrências chegam constantemente às telas dos operadores. Em muitos casos, a própria equipe identifica a situação pelas câmeras antes mesmo que qualquer ligação seja feita aos canais oficiais.
Segundo o supervisor de trânsito Cléber Sandro de Lima, entre as infrações que mais preocupam atualmente está o uso do celular ao volante. "O motorista perde a atenção no trânsito e aumenta significativamente o risco de acidentes."
Outro grupo que concentra grande parte das ocorrências é formado pelos motociclistas. Além do excesso de velocidade, são frequentes situações envolvendo circulação na contramão e utilização irregular dos corredores exclusivos do BRT.
Os agentes também realizam fiscalização de vagas destinadas a idosos e pessoas com deficiência em estacionamentos de uso coletivo, como supermercados e centros comerciais, podendo aplicar autuações quando identificam irregularidades.
Os números ajudam a dimensionar essa rotina. Entre janeiro e maio deste ano, Sorocaba registrou 78.553 autuações de trânsito, número inferior às 90.265 contabilizadas no mesmo período de 2025.
Do total de infrações, 77% foram registradas por equipamentos eletrônicos e 23% por agentes de trânsito, incluindo constatações feitas por meio do videomonitoramento.
As ocorrências mais frequentes continuam sendo excesso de velocidade, avanço do sinal vermelho, circulação em locais proibidos e parada sobre faixas de pedestres. Atualmente, Sorocaba conta com 160 equipamentos de fiscalização eletrônica e outros 12 destinados ao monitoramento do avanço da fase vermelha dos semáforos.
Além disso, aproximadamente 400 cruzamentos semaforizados podem ser acompanhados pelo CCOI, permitindo intervenções operacionais quando há necessidade de melhorar a fluidez do trânsito.
Fiscalização
O trabalho desenvolvido pela Secretaria de Mobilidade não termina quando uma infração é registrada. Paralelamente às atividades do CCOI, equipes da Semob realizam ações permanentes de educação para o trânsito em escolas, empresas e vias públicas. As atividades incluem palestras, teatros educativos, blitz de conscientização e campanhas voltadas a motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres.
Os temas variam conforme a necessidade identificada pelos técnicos, mas envolvem principalmente direção sob efeito de álcool, uso do celular ao volante, respeito aos ciclistas e prevenção de acidentes com motociclistas. Segundo a Prefeitura, somente neste ano 94.118 pessoas participaram de 274 atividades educativas promovidas pela secretaria.
Além das telas
Quem observa o enorme painel de monitores pela primeira vez tende a imaginar que a tecnologia é a principal protagonista do Centro de Controle Operacional Integrado.
Depois de algum tempo dentro da sala, porém, a impressão muda. As câmeras identificam placas, aproximam imagens, utilizam inteligência artificial e enviam alertas em poucos segundos. Mas nenhuma delas toma decisões.
São guardas civis municipais, agentes de trânsito e outros profissionais que interpretam as informações, validam os alertas emitidos pelos sistemas, avaliam prioridades e acionam as equipes responsáveis por cada ocorrência.
Enquanto Sorocaba segue seu ritmo do lado de fora — ônibus cruzam corredores exclusivos, motoristas enfrentam o trânsito, crianças chegam às escolas e pacientes procuram atendimento nas unidades de saúde —, dezenas de operadores permanecem diante das telas acompanhando uma cidade que praticamente nunca para.
É um trabalho silencioso, distante da rotina da maioria da população, mas essencial para integrar mobilidade urbana, segurança pública e resposta operacional. Para quem conhece o CCOI apenas por notícias ou imagens divulgadas nas redes sociais, a estrutura impressiona pelos equipamentos. Para quem acompanha de perto seu funcionamento, fica evidente que o principal diferencial não está apenas na tecnologia, mas nas pessoas responsáveis por transformá-la em ação.
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