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Entrevista

Tarifa dos EUA pode afetar exportadoras e empregos, avalia especialista

Advogado tributarista afirma que impacto direto ao consumidor brasileiro tende a ser limitado

17 de Julho de 2026 às 21:13
João Frizo [email protected]
Entrevista, Advogado Alexandre Ogusuku
Entrevista, Advogado Alexandre Ogusuku (Crédito: Fábio Rogério)

A nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar impactos principalmente sobre empresas exportadoras, com possibilidade de redução das vendas, perda de competitividade e reflexos sobre o emprego. A avaliação é do advogado tributarista Alexandre Ogusuku, que participou ontem (17) do Jornal da Cruzeiro, da rádio Cruzeiro FM 92,3. Segundo ele, embora a medida tenha repercussão econômica, os efeitos imediatos não devem ser sentidos diretamente pelo consumidor brasileiro, mas sim pelas empresas que dependem do mercado norte-americano.

O especialista explicou que a sobretaxa anunciada pelo governo dos Estados Unidos incide sobre produtos exportados pelo Brasil e, por isso, a primeira consequência recai sobre as empresas que comercializam esses itens. Com menor competitividade no exterior, essas companhias podem enfrentar retração das vendas, o que abre espaço para redução da produção, cortes de postos de trabalho e, em situações mais graves, dificuldades financeiras.

"Os produtos taxados terão perda de mercado. Com isso, pode haver demissões, falências e outras consequências para empresas que operam no comércio exterior", afirma.

Ogusuku ressaltou que a população brasileira, em um primeiro momento, não deve perceber mudanças expressivas nos preços dos produtos consumidos no mercado interno. Isso porque a tributação foi aplicada sobre mercadorias destinadas ao mercado americano e não sobre produtos comercializados no Brasil.

Reflexos indiretos

Apesar de descartar impactos imediatos ao consumidor, o advogado ponderou que um eventual desequilíbrio mais intenso da balança comercial poderia gerar efeitos indiretos sobre a economia nacional.

Segundo ele, caso a redução das exportações seja significativa, poderá haver pressão sobre o câmbio, valorização do dólar e, consequentemente, aumento da inflação. No entanto, na avaliação do especialista, o conjunto de produtos atingidos pela nova tarifa não deve provocar, neste momento, um desequilíbrio capaz de produzir esses efeitos de forma relevante. "Quem sofre inicialmente são as empresas que trabalham com esses produtos taxados", observa.

Apoio às empresas

Questionado sobre a reação do governo brasileiro, Ogusuku avaliou que a prioridade deve ser a adoção de medidas para minimizar os prejuízos às empresas exportadoras.

Ele citou a possibilidade de redução de tributos e de incentivos que ajudem as companhias a manterem sua competitividade diante do aumento dos custos para acessar o mercado americano. Para o especialista, essas medidas tendem a ser mais eficazes do que uma resposta baseada apenas em retaliações comerciais.

Na avaliação dele, parte da solução passa também pela redução dos custos internos das empresas brasileiras, especialmente da elevada carga tributária.

Questionado sobre a possibilidade de empresas brasileiras reduzirem seus preços para compensar parte da sobretaxa, Ogusuku afirmou que esse caminho pode ser viável, desde que existam mecanismos internos que permitam diminuir os custos de produção.

Segundo ele, a elevada carga tributária ainda é um obstáculo para essa estratégia, mas incentivos anunciados pelo governo podem ajudar as empresas a recuperar parte da competitividade. "O incentivo que o governo anuncia é uma das possibilidades que pode levar a essa redução de preço", explica.

Interesses econômicos

Embora reconheça que o momento do anúncio tenha forte componente político, Ogusuku considera que a decisão americana vai além da disputa diplomática entre os dois governos.

Na avaliação dele, existem interesses comerciais de longo prazo por trás da medida, especialmente relacionados ao mercado de etanol e aos recursos minerais brasileiros.

O advogado lembrou que os Estados Unidos defendem há anos a redução das barreiras brasileiras para a entrada do etanol de milho norte-americano, enquanto o Brasil mantém tarifas de importação para proteger sua produção de cana-de-açúcar.

Outro ponto destacado foi o interesse internacional pelas chamadas "terras raras" e outros minerais estratégicos existentes no território brasileiro. Segundo ele, o País ainda não possui uma política suficientemente clara para exploração dessas riquezas, o que aumenta o interesse de outras nações.

Retaliação

Ogusuku demonstrou cautela em relação à possibilidade de o Brasil adotar medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos. Para ele, uma retaliação comercial teria pouca efetividade diante da diferença de peso entre as duas economias e poderia ampliar os conflitos já existentes.

Na avaliação do tributarista, o caminho mais adequado é buscar novos mercados para os produtos brasileiros, oferecer suporte às empresas atingidas e preservar os empregos enquanto o cenário internacional permanece instável. "O caminho do governo é absorver essa medida, tentar conquistar novos mercados para os nossos produtores e adotar medidas que amenizem essa taxação para proteger os empregos", afirma.

Setores

Entre os segmentos que podem sentir os efeitos de forma mais rápida, Ogusuku destacou a indústria calçadista paulista, especialmente na região de Franca, tradicional exportadora para o mercado americano.

Segundo ele, o setor já enfrentou situação semelhante em outros momentos e volta a lidar com um cenário de perda de competitividade. Em relação ao agronegócio, entretanto, o especialista acredita que a possibilidade de novas tarifas é menor.

A avaliação é de que produtos como alimentos e commodities agrícolas possuem forte peso no consumo norte-americano e um aumento expressivo da tributação poderia provocar inflação nos Estados Unidos, cenário que, segundo ele, não interessa ao governo de Donald Trump em um período de disputa política interna.

Cenário eleitoral

Para Ogusuku, a reversão das tarifas no curto prazo é improvável. Ele acredita que tanto o calendário político brasileiro quanto as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos reduzem o espaço para mudanças nas próximas semanas.

Segundo o advogado, mesmo que a medida tenha motivações econômicas, o momento escolhido para sua implementação possui forte componente político, o que dificulta uma solução rápida para o impasse comercial entre os dois países.