Comércio
Comércio se espalha por bairros e Centro de Sorocaba registra aumento de imóveis desocupados
Levantamento da Associação Comercial aponta crescimento de 21,1% na vacância de imóveis comerciais desde 2023
Quem percorre algumas das ruas mais tradicionais da região central de Sorocaba encontra um cenário que passou a fazer parte da paisagem. Na rua da Penha, placas de "aluga-se" e "vende-se" ocupam vitrines e fachadas de imóveis comerciais que permanecem fechados. Em alguns trechos, há concentração desses imóveis, embora a maior parte das lojas continue em funcionamento. Situação semelhante foi observada nas ruas Monsenhor João Soares e Miranda de Azevedo, enquanto a rua Dr. Braguinha apresentou menor número de imóveis disponíveis para locação ou venda.
A percepção encontrada pela reportagem nas ruas é confirmada por um levantamento da Associação Comercial de Sorocaba (Acso). Segundo a entidade, o número de imóveis comerciais desocupados na região central passou de 90, em 2023, para 109 em maio deste ano, um aumento de 21,1% desde o início do monitoramento. Em 2024, haviam sido registrados 95 imóveis vagos e, em 2025, 96.
Para a associação, a vacância não pode ser atribuída a um único fator. A mudança no comportamento do consumidor, o crescimento do comércio eletrônico, a expansão da cidade e a formação de novos corredores comerciais dividem espaço com questões como valores de aluguel, mobilidade, segurança, infraestrutura e conservação dos imóveis. "A mudança no comportamento do consumidor, que passou a distribuir suas compras entre diferentes regiões da cidade, além do crescimento do comércio eletrônico, influencia esse cenário. O valor dos aluguéis também pode pesar em determinados casos, principalmente quando permanece acima da realidade do mercado ou dificulta as negociações", informa a Acso.
Comércio além do Centro
Nos últimos anos, avenidas como General Carneiro, Itavuvu, Nogueira Padilha e São Paulo ampliaram a oferta de comércio e serviços, acompanhando o crescimento dos bairros e da população nessas regiões.
Na avaliação da associação, esse movimento representa uma descentralização das atividades econômicas, sem que isso signifique a perda da importância do Centro. A entidade ressalta que a região continua concentrando instituições financeiras, repartições públicas, comércio especializado e serviços que mantêm o fluxo diário de consumidores.
O perfil desse público mudou. "Se anteriormente o consumidor permanecia mais tempo na região e realizava diferentes compras numa única visita, atualmente muitos frequentadores vão ao Centro para resolver demandas específicas e retornam rapidamente aos bairros ou realizam parte das compras pela internet ou em centros comerciais próximos de casa", destaca a Acso.
Mudança percebida
A transformação também é percebida por quem trabalha diariamente na região central. A vendedora Gisela Sales, de 59 anos, retornou há cerca de um ano para uma loja da rua da Penha, onde já havia trabalhado duas décadas atrás. Segundo ela, a diferença em relação ao passado é perceptível.
"O aluguel subiu muito, está um horror. Tem gente que pagava R$ 3 mil e passou a pagar R$ 9 mil. Outros pagavam R$ 5 mil e hoje pagam R$ 20 mil. O aumento é um absurdo. Independentemente de ser no Centro, tem que ser um preço que permita que todos possam trabalhar", afirma.
Para ela, o aluguel não explica sozinho a situação. "O custo das mercadorias aumentou muito e, quando a loja precisa repassar esse valor, acaba concorrendo com quem vende em grande quantidade por preços menores. Além disso, o Mercado Livre e os camelôs também impactam o comércio", diz.
Outro comerciante da Rua da Penha, que preferiu não se identificar, também relaciona o fechamento de lojas ao custo da locação dos imóveis. "Tem muita loja fechada há bastante tempo. Acho que os proprietários tinham que reduzir um pouco os aluguéis para facilitar para quem quer trabalhar", afirma.
Novas centralidades
Para o arquiteto e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Sorocaba (Uniso), Tiago da Guia, o fortalecimento dos corredores comerciais acompanha uma mudança na ocupação da cidade e está relacionado ao próprio planejamento urbano.
Segundo ele, a expansão territorial fez surgir novas centralidades, reduzindo a dependência do Centro para atividades cotidianas. "Com a expansão horizontal da cidade, bairros que antes eram predominantemente residenciais passaram a concentrar serviços de saúde, educação, lazer e comércio. Isso criou novas centralidades, permitindo que os moradores encontrem perto de casa os serviços básicos e reduzindo a necessidade de deslocamento até o Centro", explica.
O arquiteto afirma que essa dinâmica está alinhada ao conceito conhecido como "cidade de 15 minutos", em que grande parte das necessidades diárias pode ser atendida nas proximidades da residência. "Os grandes deslocamentos devem ocorrer apenas para equipamentos específicos, como universidades, teatros e centros esportivos. Os serviços cotidianos precisam estar próximos das áreas residenciais, reduzindo impactos no trânsito, no transporte coletivo e no meio ambiente", afirma.
De acordo com Tiago da Guia, esse processo é observado em outras cidades brasileiras de médio e grande porte e não representa, necessariamente, uma perda de importância da região central.
Para ele, o desafio passa pela adaptação desse espaço à nova dinâmica urbana. "O Centro necessita de incentivo à habitabilidade, de mais atividades culturais, segurança pública e melhor mobilidade para o pedestre. Também é importante ampliar áreas arborizadas, qualificar os espaços públicos e criar uma agenda permanente de eventos. Essas medidas tornam o Centro mais atrativo para diferentes usos ao longo do dia", afirma.
Revitalização
Questionada pela reportagem, a Prefeitura de Sorocaba informou que mantém ações voltadas à revitalização da região central. Entre elas, citou intervenções na rua Dr. Braguinha, com instalação de decoração temática e pintura do piso, iluminação pública em LED em diversas vias, realização de eventos voltados ao empreendedorismo, incentivo à Feira do Artesanato, reforço da segurança e a elaboração de um Plano de Urbanização do Centro.
Segundo a administração municipal, uma das prioridades do Plano Diretor é reorganizar os espaços da região central para ampliar sua atratividade. A Prefeitura também informou que o Centro conta com infraestrutura consolidada, transporte coletivo, comércio e serviços diversificados e que o zoneamento local possui regras urbanísticas que facilitam o licenciamento de empreendimentos.
A administração, porém, não respondeu aos questionamentos sobre a existência de levantamentos referentes à vacância de imóveis comerciais na região central, à abertura de empresas por área da cidade e à possível migração de atividades econômicas para corredores comerciais dos bairros.
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