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Coragem

Após vencer o câncer, sorocabano cruza o mundo de moto

Beda viajou pelo Brasil e exterior e transformou as viagens em uma nova forma de viver

07 de Julho de 2026 às 21:59
Thaís Verderamis [email protected]
Ednilson Ruiz em Ushuaia, na Argentina, um dos destinos da jornada sobre duas rodas
Ednilson Ruiz em Ushuaia, na Argentina, um dos destinos da jornada sobre duas rodas (Crédito: Cortesia )

Um viajante é uma alma livre, disposta a conhecer novas pessoas, lugares, culturas e paisagens. Há aqueles que amam viajar de avião, de barco, de carro ou de moto. Existe espaço para todos. Há quem acredite que o importante é o destino final, mas o caminho é tão importante quanto — ou até mais. Pelo trajeto, é comum que aconteçam imprevistos, assim como na vida, mas no final o que ficam são as memórias, as experiências e os aprendizados.

A história de Ednilson Ruiz Vieira Maia, mais conhecido como Beda, começa com o amor pelas viagens, pelas estradas e, em especial, pelas motocicletas. No entanto, antes que os capítulos mais incríveis pelas estradas começassem, veio um susto. Em 2016, Beda descobriu um câncer, um mês após a morte da mãe, também em decorrência da doença. Entre 2016 e 2019, foram dois diagnósticos de cânceres malignos. "Os dois quase me mataram", conta.

Depois da última quimioterapia, Beda perguntou ao médico se poderia andar de moto. Ao receber uma resposta positiva, embarcou em uma viagem de 100 dias.

Pé na estrada

Experiente em viagens com motos grandes, mas ainda fraco após o tratamento contra o câncer, Beda optou por viajar em uma Yamaha Crypton, modelo menor, rumo a Brasília, onde participaria de um evento. Ao chegar ao destino, percebeu que estava bem e que o trajeto havia sido tranquilo.

De Brasília, o plano era seguir para o Maranhão com amigos, de carro. Mas, ao chegar bem ao primeiro destino, Beda resolveu continuar pelas estradas em sua moto. "Quando eu vi que estava perto do Pará, pensei: vou dar um pulinho no Pará, é um Estado a mais que vou conhecer", conta.

De pulinho em pulinho, a viagem pelo Pará ganhou novas dimensões. "Do Pará eu já ia voltar embora para Sorocaba, já estava há alguns dias fora de casa. Aí perguntei para o meu amigo: cara, como é que faz para ir para Oiapoque? Ele falou: 'é trabalhoso, são 40 horas de barco para chegar ao Amapá, mais de 650 quilômetros de estrada, uma estrada ruim, estrada de terra'", relata.

As dificuldades não o desencorajaram. Beda seguiu em frente: foram 40 horas de barco, estradas difíceis, Oiapoque, Guiana e depois Guiana Francesa. Ao chegar tão longe, decidiu iniciar o caminho de volta. Da Guiana Francesa, retornou para Manaus.

Nesse período, Beda enfrentou problemas na vida pessoal. Casado e há 50 dias fora de casa, viu o relacionamento chegar ao fim. Após a separação, decidiu continuar a viagem. De Manaus, seguiu rumo a Roraima, depois para a Guiana (outra, que não é a francesa) e, finalmente, voltou para casa.

De passagem por Sorocaba, retornou para realizar exames."Eu voltei para São Paulo para fazer uns exames, só de passagem mesmo. Fiz os exames, já fui para a Argentina, para o Uruguai e voltei. Aí fiquei 100 dias fora de casa", conta.

Alasca

Depois da doença, Beda passou a enxergar a vida com novos olhos. "Eu quero viajar, quero conhecer o mundo, quero conhecer pessoas. Eu já tinha uma outra visão de viagem por causa da doença. Falei: a vida é um sopro", explica.

Viajando de moto, o sorocabano chegou até Ushuaia, na Argentina, cidade conhecida como o "Fim do Mundo". Na volta, perdeu um amigo, Jesse. O rapaz viajava em um Fusca ano 1978 com o cachorro Shurastey. Ambos morreram em um acidente.

Beda havia ajudado Jesse a viajar pela América do Sul e recebeu dele o convite para seguir até o Alasca. Após o acidente, o plano ficou "congelado". Ainda viajando pela América do Sul, passaram-se dois anos.

Foi em 2024 que Beda retomou o projeto e começou os preparativos. Conversando com um amigo, surgiu uma nova ideia. "Era 2024. Falei: eu vou em fevereiro de 2025 para o Alasca. O Everson, que toca cavaquinho na Banda Demônios da Garoa, falou: 'Beda, já que você vai para lá, em vez de ser em fevereiro, por que você não joga mais para frente para aproveitar a Copa? Vai pegar a galera lá, o movimento, a galera do Brasil'", conta.

Em novembro de 2025, ele partiu rumo ao Alasca. Em maio, chegou aos Estados Unidos. Em junho, já na Rota 66, em Los Angeles, a menos de cinco mil quilômetros do destino final, Beda fez uma pausa na viagem e voltou ao Brasil para uma estadia rápida.

A moto ficou em West Covina. Beda retornou de avião a convite da Galeria 89 para o aniversário da gravadora Repetente Records. O que seria uma rápida passagem pelo País acabou durando duas semanas. Depois, voltou novamente para a estrada rumo ao Alasca.

Inspiração

Pelo amor às viagens e pelo estilo de vida, Beda se tornou referência no assunto e passou a compartilhar detalhes da sua história e das aventuras nas redes sociais. Com patrocinadores e novos projetos, segue acumulando experiências.

Por meio do perfil, conheceu muitas pessoas e acabou se tornando inspiração para outros viajantes. No entanto, ele afirma que esse não é o objetivo principal. "Eu não quero fazer um vídeo inspirando ninguém. É meu rolê, é minha vida, quero fazer aquilo que eu gosto. Se inspira alguém, eu acho legal. E, quando as pessoas precisam de alguma coisa, podem contar comigo que eu vou ajudar a viajar", conta.

Além das viagens, sua história de vida também se tornou uma fonte de inspiração e esperança. "É muito massa quando pessoas que estão passando por um câncer me mandam mensagem. 'Beda, estou passando por isso, estou na última sessão de quimio. Beda, quando eu terminar minha quimioterapia, também quero sair para o mundo igual você'. É muito legal porque as pessoas veem esperança nisso", explica.

Reunindo todas as experiências que viveu, Beda compara as viagens feitas com a moto maior, que costumava usar antes do câncer, e a moto menor, escolhida depois da doença.

Com uma motocicleta menor, menos potente e, consequentemente, mais lenta, o tempo de deslocamento aumenta. Porém, Beda reforça que consegue aproveitar muito mais a paisagem, os pontos turísticos e o próprio trajeto.

Às vezes, as pessoas acreditam que só serão felizes quando chegarem ao destino final, mas a felicidade está presente em todas as etapas do caminho.

 

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