Celebração
Casa de todas as fés: o legado de João de Camargo
Fundador de patrimônio cultural de Sorocaba completaria 138 anos amanhã
Localizada em uma das principais avenidas de Sorocaba, a Barão de Tatuí, em meio ao ritmo acelerado da cidade que cresceu ao seu redor, um pequeno templo continua guardando histórias que atravessam gerações. Ali, entre imagens sacras, ex-votos, preces silenciosas e manifestações de diferentes tradições religiosas, a Capela Nosso Senhor do Bonfim — mais conhecida pelos sorocabanos como Capela João de Camargo — mantém viva a memória de um homem cuja trajetória se confunde com a própria história social e cultural de Sorocaba.
Amanhã (5), quando João de Camargo completaria 168 anos, a comunidade voltará a se reunir para celebrar não apenas seu nascimento, mas sobretudo o legado deixado por aquele que transformou a acolhida em missão de vida.
Nascido escravizado em Sarapuí, em 5 de julho de 1858, João de Camargo chegou a Sorocaba após conquistar a liberdade. Trabalhou em diferentes atividades até que, no início do século XX, segundo relatos preservados pela tradição local, passou a receber orientações espirituais para erguer uma igreja aberta a todas as pessoas, independentemente de sua origem, condição social ou crença.
"Ele recebeu mensagens da espiritualidade dizendo que deveria construir uma igreja que abrigasse todas as pessoas, independente do credo religioso que professassem, da cor ou da condição social", explica Adriano Molina, presidente da Associação Espírita e Beneficente Capela Nosso Senhor do Bom Fim, mantenedora do espaço.
A proposta era ousada para uma época marcada pela exclusão social e racial. Em um período no qual a população negra enfrentava inúmeras barreiras de acesso e participação, João de Camargo criou um espaço de acolhimento que rompia fronteiras religiosas e sociais.
A capela construída por ele tornou-se, ao longo do tempo, um símbolo do sincretismo religioso brasileiro. O espaço reúne referências do catolicismo, das religiões de matriz africana e também elementos de tradições orientais, compondo uma identidade singular, reconhecida como patrimônio material e imaterial da cidade.
"Hoje permanece preservado aquilo que João de Camargo deixou. A capela continua sendo um espaço para as pessoas se sintonizarem com Deus, além de funcionar como museu e local de atividades culturais em benefício da sociedade", afirma Molina.
Mais do que um líder espiritual, João de Camargo também exerceu importante papel social. Mesmo sem ter sido alfabetizado, incentivou a educação e a cultura. Entre suas iniciativas está a criação da Banda Liberdade, formada para animar procissões e festividades populares, além de oferecer formação musical à população.
Outra ação pioneira foi a implantação de uma escola mista nas dependências da capela, destinada à alfabetização de crianças, adolescentes e adultos, homens e mulheres — algo incomum no início do século XX.
"Foi uma iniciativa muito importante porque, naquela época, poucas pessoas tinham acesso a um ensino público e gratuito", ressalta o presidente da associação.
O impacto de João de Camargo também ultrapassou os limites do terreno onde a capela foi construída. A área, então localizada na antiga Estrada do Quiló, foi doada para que ele pudesse erguer o templo. A partir dali, surgiram casas, pousadas e outras construções destinadas ao acolhimento de pessoas que chegavam em busca de auxílio espiritual.
Segundo registros históricos, ao menos 15 moradias teriam sido construídas e doadas por iniciativa de João de Camargo, contribuindo para o desenvolvimento da região.
Para garantir a continuidade de sua obra, ele fundou, em 1921, a Associação Espírita e Beneficente Capela Nosso Senhor do Bom Fim, entidade responsável pela manutenção do espaço até os dias atuais.
As histórias envolvendo o líder espiritual são inúmeras. Entre elas, relatos de curas atribuídas à sua intercessão continuam atraindo visitantes de diferentes partes do país. Mais do que comprovar milagres, esses testemunhos revelam a força simbólica de uma figura que permanece presente no imaginário popular sorocabano mais de oito décadas após sua morte, ocorrida em 28 de julho de 1942.
No próximo dia 5 de julho, a partir das 8 horas, a capela abrirá suas portas para uma celebração especial que pretende resgatar o espírito das antigas festas populares organizadas pelo próprio João de Camargo. A programação contará com apresentações musicais e artísticas, exposição de artesanato, participação de artistas plásticos, além do tradicional terço dominical.
"A ideia é fazer uma festa para o povo, como era feita na época por iniciativa do João de Camargo", destaca Molina.
Em uma cidade que se moderniza a cada ano, a pequena capela segue resistindo ao tempo. Entre sinos, tambores e preces, continua lembrando que a fé, quando se faz acolhimento, é capaz de reunir diferenças e construir comunidade.
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