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Violência

Pressão de grupo impulsiona violência entre adolescentes

Busca por aceitação e pertencimento influencia comportamentos de risco e atos violentos entre jovens

27 de Junho de 2026 às 20:26
Vernihu Oswaldo [email protected]
Família, escola e comunidade são apontadas como peças-chave para
interromper processo antes que ele resulte em violência
Família, escola e comunidade são apontadas como peças-chave para interromper processo antes que ele resulte em violência (Crédito: Agência Brasil)

Antes que o crime aconteça, existe o grupo. Há a conversa que começa como brincadeira, o vídeo compartilhado sem contexto, o riso que testa limites e a presença dos outros funcionando como uma espécie de autorização silenciosa. Entre adolescentes, a violência nem sempre nasce de um impulso individual. Muitas vezes, ela é resultado de um processo gradual, difuso e quase invisível, no qual a responsabilidade se dilui e o desejo de pertencimento fala mais alto do que qualquer freio moral.

Em Sorocaba, um caso ocorrido em março chamou a atenção da população. Uma adolescente de 15 anos teria sido estuprada dentro de uma sala de cinema em um shopping da cidade. Os suspeitos são dois colegas de classe da vítima. O caso segue sob investigação.

Compreender como esses grupos se formam, como funcionam e, principalmente, como podem ser interrompidos é fundamental para evitar que situações semelhantes se repitam. O antigo provérbio africano -- "é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança" -- parece cada vez mais distante da realidade. Muitas pessoas têm receio de denunciar, de interferir ou de assumir a responsabilidade de agir diante de sinais de alerta.

A delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Sorocaba, Renata Zanin, explica que a busca por aceitação é uma característica marcante da adolescência. "Nessa fase da vida, os adolescentes buscam muito pertencimento. Eles precisam participar de um grupo e, às vezes, acabam cedendo de forma não totalmente consciente. Pensam: 'vou fazer porque é legal, porque todo mundo vai me aceitar'. Depois, ou até mesmo antes, surge o arrependimento."

A psicóloga Thais Mazzotti destaca que a adolescência é marcada por profundas transformações biológicas, psicológicas e sociais, que influenciam diretamente a forma como o jovem se percebe e se posiciona no mundo. Segundo ela, existe o que chama de "coragem artificial". "Em grupo, o adolescente tende a se sentir mais seguro para agir, impulsionado pelo desejo de aceitação, pela validação dos pares e pela diluição da responsabilidade individual."

Essa coragem, porém, não surge do nada. A psicóloga e docente de psicologia da UniFacens, Flavia Otuka, explica que a impulsividade característica dessa fase da vida possui bases biológicas e é potencializada pelo contexto social. "O adolescente frequentemente conhece as consequências negativas de seus atos, mas assume o risco porque percebe um benefício social imediato que, em seu julgamento, supera os prejuízos futuros."

Nesse processo, o consumo de álcool aparece como um fator agravante. A delegada Renata Zanin observa que a substância está presente em diversos casos de violência sexual. "O consumo de álcool costuma estar envolvido em situações de estupro e importunação sexual como um mecanismo para criar coragem, permitir determinadas atitudes e reduzir inibições, tanto para o agressor quanto para a vítima."

O que seria impensável individualmente pode se tornar possível em grupo. Sob a lógica da validação coletiva, o receio de ser excluído ou visto como "o covarde" muitas vezes supera o senso ético e a capacidade de questionar comportamentos violentos.

Um adolescente ouvido pelo Cruzeiro do Sul, cuja identidade será preservada, relatou já ter participado de grupos em redes sociais nos quais eram propostos "desafios", geralmente apresentados como brincadeiras. Alguns não causavam danos, mas outros envolviam situações de violência contra terceiros.

Para a delegada Renata Zanin, a tendência de reproduzir comportamentos do grupo é natural na adolescência. O problema surge quando a conduta coletiva ultrapassa os limites da legalidade. "O problema é quando fazer o que todo mundo faz se transforma em crime. É aí que entra o papel dos pais, no diálogo e na orientação para mostrar que o pertencimento também precisa ter limites."

Para a pedagoga Catarina Hand, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade de Sorocaba (Uniso), a prevenção passa pelo reconhecimento de que essas violências raramente acontecem de forma isolada. "A escola precisa identificar grupos de pressão, lideranças informais e culturas de desafio. Violências coletivas raramente são acidentais."

Segundo ela, um dos maiores erros institucionais é ignorar sinais que costumam anteceder situações graves, como provas de lealdade, humilhações, exposição pública e mecanismos de coerção dentro dos grupos.

Antes do crime, existe o processo

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgados pelo IBGE em 2026, mostram que cerca de 33% das meninas afirmam sentir que ninguém se preocupa com elas, quase o dobro do percentual registrado entre os meninos. Aproximadamente 41% também relatam conviver com tristeza persistente.

Os números relacionados ao bullying seguem a mesma tendência. Cerca de 30,1% das meninas afirmaram sofrer esse tipo de violência, contra 24,3% dos meninos. No ambiente escolar, o ciberbullying atinge 15,2% das meninas e 10,3% dos meninos.

Para Flavia Otuka, a vulnerabilidade não afeta todas as adolescentes da mesma maneira. "O Unicef identifica a polivitimização [exposição simultânea a diferentes formas de violência] como um fenômeno mais frequente entre meninas negras e pardas, evidenciando como machismo e racismo estrutural enfraquecem as redes de proteção."

A psicóloga Thais Mazzotti acrescenta que ambientes marcados por carência afetiva, dificuldades familiares, ausência de diálogo ou fragilidade dos vínculos podem favorecer a busca por validação em espaços aparentemente acolhedores, mas potencialmente inseguros.

Com o tempo, surgem estratégias de isolamento. Segundo Renata Zanin, frases como "vamos para um lugar mais tranquilo", "não conte para ninguém" ou "é melhor conversarmos a sós" devem ser encaradas como sinais de alerta. "São formas de afastar a vítima de ambientes onde ela poderia pedir ajuda com mais facilidade", acrescenta.

Esse afastamento pode ocorrer tanto no mundo físico quanto no virtual. Em muitos casos, a percepção de que houve violência só surge posteriormente, quando a situação já evoluiu para um cenário mais grave.

De volta à aldeia

Diante desse cenário, especialistas defendem que a prevenção deve começar muito antes do crime consumado. Para Catarina Hand, o enfrentamento precisa ocorrer simultaneamente em três dimensões: curricular, institucional e cultural. "A escola não pode tratar esses casos como situações isoladas. É preciso identificar grupos de pressão, lideranças informais e intervir antes que a violência escale."

A delegada Renata Zanin reforça que a escola costuma ser o primeiro espaço em que adolescentes conseguem falar sobre situações de violência. "A escola muitas vezes é o primeiro lugar onde esse adolescente consegue falar. Por isso, é fundamental que exista um ambiente de confiança para que a denúncia aconteça."

Ela também destaca a importância da participação familiar. "Pais e responsáveis precisam dialogar, acompanhar e supervisionar. Não se trata de invasão de privacidade, mas de proteção."

Para Flavia Otuka, o fortalecimento de vínculos e o desenvolvimento do senso crítico são ferramentas fundamentais para que adolescentes consigam resistir a pressões externas. "O adolescente precisa desenvolver recursos emocionais para se posicionar diante das influências do grupo e do ambiente em que está inserido."

Se a violência pode ser construída coletivamente, a proteção também precisa ser.

Quando o silêncio precisa acabar

Nos casos em que a violência já ocorreu, o acesso à rede de proteção se torna essencial. A orientação é que crianças e adolescentes vítimas de violência sejam levados à delegacia acompanhados por pais ou responsáveis. Caso isso não seja possível, professores, coordenadores ou outros adultos de referência podem procurar o Conselho Tutelar para formalizar a denúncia. "Converse com um professor, converse com a direção. A escola saberá indicar o melhor caminho", orienta a delegada Renata Zanin.

Quando o autor da violência é maior de idade, o registro deve ser feito na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Nos casos envolvendo adolescentes autores de ato infracional, a orientação é procurar a Delegacia da Infância e Juventude (Diju).

A proteção de um adolescente começa muito antes do boletim de ocorrência. Ela começa quando alguém percebe os sinais, escuta, acolhe e decide agir.

 

 

 

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