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Morte de influenciador reacende alerta sobre uso de anabolizantes

Caso de Gabriel Ganley expõe os riscos de uma prática cada vez mais comum entre jovens em busca de resultados rápidos nas academias

06 de Junho de 2026 às 20:27
Cruzeiro do Sul [email protected]
Declaração de óbito do influenciador digital e fisiculturista Gabriel Ganley, 22 anos, aponta uma condição complexa: a cardiomiopatia hipertrófica
Declaração de óbito do influenciador digital e fisiculturista Gabriel Ganley, 22 anos, aponta uma condição complexa: a cardiomiopatia hipertrófica (Crédito: DIVULGAÇÃO)

A morte prematura de Gabriel Ganley, influenciador digital e fisiculturista de 22 anos, reacendeu um importante alerta sobre o abuso de esteroides anabolizantes e o uso indiscriminado de insulina para fins estéticos. O que muitos jovens enxergam nas redes sociais como um atalho para conquistar o corpo ideal, esconde riscos graves à saúde, um mercado clandestino em expansão e danos que podem ser permanentes.

Para entender os perigos envolvidos e desmistificar os chamados “protocolos” divulgados na internet, o Cruzeiro do Sul ouviu o cardiologista do esporte Fernando Frazão, a endocrinologista Camila Gagliardi Walter e o preparador físico Rodrigo Gusmão.

Coração sobrecarregado

A declaração de óbito de Gabriel Ganley apontou uma condição complexa: a cardiomiopatia hipertrófica. Segundo o cardiologista do esporte Fernando Frazão, trata-se de uma doença genética hereditária que afeta cerca de uma em cada 500 pessoas e provoca o espessamento do músculo cardíaco, reduzindo o espaço das cavidades responsáveis pelo bombeamento do sangue.

Nesse contexto, os anabolizantes podem funcionar como um agravante importante. “As pessoas têm uma falsa ideia de que um coração musculoso é um coração mais forte e saudável. Na realidade, acontece justamente o contrário”, alerta o médico.

“O coração não foi feito para ficar musculoso. Ele possui muitos receptores androgênicos, que respondem diretamente à testosterona sintética. Quando o jovem utiliza a substância para ganhar massa muscular, esquece que o coração também será estimulado a crescer. Se existe uma predisposição genética, o esteroide acelera esse processo, aumentando significativamente o risco de arritmias, insuficiência cardíaca e morte súbita”, explica Fernando Frazão.

Mercado clandestino

A sensação de controle é uma das maiores armadilhas do fisiculturismo praticado sem acompanhamento adequado. A endocrinologista Camila Gagliardi lembra que, desde 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de esteroides anabolizantes para fins estéticos. Sem acesso legal a esses medicamentos, muitos usuários recorrem ao mercado clandestino, onde não há garantia sobre procedência, composição ou dosagem. “Infelizmente, muitos jovens utilizam derivados sintéticos sem estudos adequados em seres humanos e em doses suprafisiológicas, equivalentes às utilizadas em animais de grande porte”, afirma.

O risco aumenta quando os anabolizantes são associados à insulina. Originalmente destinada ao tratamento do diabetes, a substância vem sendo utilizada para potencializar o ganho muscular. “O uso de altas doses de insulina pode provocar hipoglicemia severa. Um choque hipoglicêmico compromete todo o metabolismo e pode levar à morte, especialmente quando o organismo já está sobrecarregado pelos efeitos dos anabolizantes”, alerta a endocrinologista.

Falsa segurança

Outro conceito amplamente difundido em fóruns de internet e por influenciadores digitais é a chamada Terapia Pós-Ciclo (TPC), apresentada como uma forma de neutralizar os efeitos colaterais dos anabolizantes.

Segundo Camila Gagliardi, a prática não possui respaldo científico suficiente para garantir segurança ao usuário. “Não existe base científica que assegure a proteção do organismo por meio da TPC. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia não reconhece essa estratégia como garantia contra os danos causados pelos ciclos hormonais”, afirma.

A médica explica que a TPC tenta estimular novamente a produção natural de hormônios após a interrupção dos anabolizantes. No entanto, os prejuízos ao organismo podem persistir por anos ou até se tornar permanentes.

Para Fernando Frazão, o uso recreativo dessas substâncias deve ser encarado com a mesma seriedade aplicada a outros quadros de dependência química. “Não existe dose segura para anabolizantes. Precisamos olhar para esse indivíduo de forma crítica. Muitas vezes, trata-se de uma dependência química. Os ganhos de desempenho e aparência geram um reforço psicológico muito forte. O usuário prefere tratar a acne severa causada pelo medicamento do que interromper o uso, aumentando sua exposição aos riscos cardiovasculares”, afirma.

Exposição prolongada

Uma das crenças mais comuns entre os usuários é a de que ciclos curtos seriam inofensivos. Para explicar por que isso não é verdade, Fernando Frazão utiliza uma analogia simples. “Se eu vou a pé até uma farmácia da esquina, a chance de sofrer um acidente é pequena. Mas se decido dirigir até São Paulo, o tempo de exposição aumenta e surgem mais riscos pelo caminho. Com os anabolizantes acontece algo semelhante”, compara. Segundo ele, períodos de uso prolongado — contínuos ou intermitentes — já representam uma agressão importante ao organismo. “Em algum momento, o uso estético tende a trazer complicações”, afirma.

Camila Gagliardi complementa que a testosterona sintética aumenta a viscosidade do sangue, favorecendo a ocorrência de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs), além de provocar lesões hepáticas potencialmente irreversíveis.

Hormônios femininos

O fenômeno não atinge apenas os homens. Os especialistas alertam para o crescimento do uso de hormônios entre mulheres, impulsionado por influenciadoras digitais, celebridades e até por profissionais da saúde que ignoram recomendações científicas. “Existe muito marketing travestido de medicina. Alguns profissionais vendem anabolizantes como se fossem soluções para saúde, longevidade e bem-estar”, critica Fernando Frazão.

Entre os exemplos mais conhecidos está o chamado “chip da beleza”, frequentemente associado à administração de hormônios androgênicos. “Oferecer hormônios masculinos para mulheres de forma indiscriminada é um erro grave. Isso não é opinião, mas uma conclusão baseada em diretrizes médicas. Os efeitos podem ser permanentes, como engrossamento da voz, acne severa, queda de cabelo e aumento do clitóris, alterações que muitas vezes não regridem mesmo após a interrupção do tratamento”, afirma.

Pressão digital

Nas academias, o impacto das redes sociais já é perceptível. O preparador físico Rodrigo Gusmão observa que muitos jovens chegam aos treinos influenciados por conteúdos que normalizam o uso de medicamentos para acelerar resultados. “Eles estão saindo da adolescência e entrando na vida adulta. É uma fase marcada pela busca de identidade e pela impaciência. Muitos não aceitam que um resultado consistente exige anos de treino, alimentação adequada e disciplina”, comenta.

O profissional destaca que existe uma diferença importante entre o fisiculturismo profissional e a realidade da maioria dos frequentadores de academias. “O atleta de alto rendimento trabalha dentro de uma estrutura específica, com acompanhamento médico constante. O problema surge quando uma pessoa comum tenta reproduzir protocolos sem qualquer controle ou conhecimento técnico”, explica.

Para ele, a proliferação de influenciadores e “coaches” sem formação adequada, que orientam o uso de substâncias pela internet, representa um risco crescente para a saúde pública.

Mudança cultural

Para os especialistas, o enfrentamento desse problema passa por informação, fiscalização e acompanhamento multidisciplinar. Rodrigo Gusmão defende que profissionais de educação física devem orientar os alunos a respeitarem os limites do próprio organismo, especialmente durante a adolescência e o início da vida adulta.

Quando surgem distorções graves da autoimagem, como a vigorexia, transtorno psicológico marcado pela obsessão por um corpo cada vez mais musculoso, a intervenção precisa ir além da academia. “O processo de transformação física exige hábitos construídos a médio e longo prazo. Ninguém fica forte da noite para o dia. Quando identificamos uma obsessão doentia ou a busca por resultados por meio do abuso químico, o trabalho do educador físico, do cardiologista e do endocrinologista precisa estar associado ao acompanhamento psicológico.”

Para ele, a principal mensagem é simples: saúde e estética não podem caminhar em direções opostas. “A educação física precisa ensinar as pessoas a cuidar do corpo, mas também da mente. O resultado sustentável sempre será aquele construído com tempo, orientação e responsabilidade”, conclui.

 

 

 

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