Violência
Olhos que não veem: a crise de agressões contra mulheres
A violência aumentou ou os casos estão aparecendo mais? Problema tem de ser debatido por toda sociedade
Casos recentes de agressão contra as mulheres têm marcado profundamente a sociedade. A pergunta que fica é: a violência aumentou ou os casos estão aparecendo mais? Na maioria, uma coisa em comum. Olhos. Olhos que veem, mas não denunciam. Como se o problema fosse apenas de quem é agredida, não de toda a sociedade.
Não foi um dia. Foram cinco anos. A ativista Juliana Rizzo sofreu com violência doméstica. Física. Verbal. Psicológica. Patrimonial. Estupro marital. No mesmo período, a mãe com câncer e Alzheimer. Filhos. “Eu acreditava que ia morrer, que eu não tinha força, que eu não ia conseguir sair, que ele ia conseguir me matar.”
A cada três ou quatro horas, uma mulher é vítima de agressão. Juliana não está sozinha. Além das violências, Juliana sofreu com a perseguição, câmeras em todos os cômodos sob a justificativa de segurança para os filhos. Ameaças com faca constantes. Dependência financeira e emocional.
Juliana mostra as fotos de quando era agredida, ainda com dor, ainda com pesar. Em cada marca de sangue, é possível ver o rastro da violência. Em cada roxo, o baque da pancada é sentido.
O casamento durou cinco anos. Quando ela decidiu sair, ele destruiu o portão do prédio. Pessoas ao redor o fizeram recuar e, na fuga, ele causou um acidente numa avenida movimentada. Juliana entendeu que não conseguiria ter paz na própria cidade. Foi para Sorocaba. Veio para ficar um ano. Ficou quatro.
“Você é minha esposa, eu faço o que eu quiser”, Juliana repete a frase que ouviu tantas vezes e relata uma realidade que ainda levanta questionamentos: o estupro marital. A psicóloga Thais Mazzotti explica. “O estupro marital é a violência sexual que ocorre dentro de uma relação íntima, como casamento ou namoro, quando não há consentimento de uma das partes. Estar em um relacionamento não significa disponibilidade sexual automática. O consentimento precisa estar presente em todas as relações, independentemente do vínculo.”
Olhos
Não apenas no caso de Juliana, mas em diversos outros casos, uma simples denúncia poderia ter feito a diferença. Meses atrás, uma adolescente teria sido estuprada dentro de um cinema de Sorocaba. Um alerta dado pelos funcionários do local poderia ter mudado todo o cenário. Em condomínios, de acordo com a Lei 14.457/2022, o síndico tem que acionar as autoridades caso haja indícios de violência.
Para a Major PM Luiza Maria Aidar de Oliveira Geraldi, subcomandante do 40 BPM/I, a lógica é simples. “Não é que eu vou estar me metendo num ambiente privado, mas eu vou estar cometendo um ato de humanidade e de cidadania”.
Thais sugere que o silêncio da sociedade não é acidente. “Comportamentos como ciúmes excessivos, controle e desvalorização são interpretados como cuidado ou amor, quando, na verdade, já configuram formas de violência. Quando a violência é naturalizada dentro de casa, dificilmente será reconhecida e denunciada por quem está de fora”.
Ela lista os sinais de alerta. “Alguns sinais importantes são: ciúmes excessivos, controle sobre decisões, isolamento de amigos e familiares, desvalorização constante e tentativas de invalidar sentimentos. Além disso, existem diferentes formas de violência como a psicológica, moral, patrimonial, sexual e física que podem acontecer de forma mais velada e, muitas vezes, não são nomeadas como violência no início”.
Mãos
Saber que a violência existe não é suficiente. É preciso saber para onde ir. “Sozinha é muito difícil ela conseguir quebrar o ciclo da violência”, afirma a Major Luiza. Para isso, existe a rede de atendimento, uma articulação entre poder público e sociedade que garante que nenhuma mulher se perca no sistema.
Um problema comum é o de não perceber que está sofrendo as violências. Normalizar. A major explica que ela própria já esteve nessa situação: “Quando eu fui fazer o curso, na primeira semana, eu descobri que, dos cinco tipos de violência, eu tinha sido vítima de quatro.”
Ela adverte que, em caso de emergências, de agressões, de ameaças, o caminho é um só: chamar a polícia.
O 190 é o canal de emergência quando a situação exige uma viatura agora. Mas a Polícia Militar também oferece a Cabine Lilás, um serviço especializado atendido preferencialmente por policiais mulheres capacitadas. “A pessoa liga e fala que quer saber informações da rede ou como denunciar”, explica Luiza. Para denúncias sem identificação, os canais são o 180 e o 181 ù mas ela reforça a diferença: ‘Se você ligar no 190, vai ser designada uma viatura que vai imediatamente até aquele local. O 180 é um caso que vai entrar para apuração.‘
Fazer o registro da ocorrência é o primeiro passo para acessar os demais serviços. É a partir dele que a mulher pode solicitar medidas protetivas, acessar o aplicativo SP Mulher Segura, que permite registrar boletim de ocorrência e acionar o botão do pânico com georreferenciamento, e ser visitada pela Patrulha Maria da Penha, que orienta as vítimas sobre toda a rede disponível no município.
Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Casa da Mulher, centros de referência e a OAB Mulher completam esse sistema. ‘Qualquer local que ela busque ajuda, ela receba‘, resume.
A denúncia não precisa partir apenas da vítima. Vizinhos, familiares, qualquer pessoa que perceba algo fora do normal pode e deve acionar o 190 sem precisar se identificar. “Pensou, será que eu ligo para a polícia? Ligue”. Ela lembra que muitas vezes a mulher não tem condições emocionais de pedir ajuda sozinha. “A violência psicológica vai minando a autoestima da mulher e vai tirando dela toda aquela capacidade de autonomia.” Quem está de fora pode ser a única saída.
Thais explica que o suporte emocional é parte indispensável dessa rede. “O cuidado em saúde mental permite que as pessoas reconheçam padrões de relacionamento, questionem o que foi aprendido ao longo da vida e construam formas mais saudáveis e conscientes de se vincular”. Sem esse trabalho, a tendência é repetir. Com ele, é possível recomeçar.
Cabeça
“E meus filhos estavam ali, eu lembro da carinha assustada deles”, afirma Juliana. A violência doméstica às vezes atinge até quem não é agredido. E traz à tona a questão: como criar meninos para que as cenas não se perpetuem?
A resposta começa antes da escola. Nos brinquedos, nas palavras, nos exemplos dentro de casa. Pequenos gestos que ensinam, desde cedo, quem pode fazer o quê e quem deve obedecer a quem. “Referências familiares ou experiências anteriores podem contribuir para que certas dinâmicas sejam reproduzidas de forma inconsciente”, explica Thais. Crianças que crescem vendo violência aprendem que violência é normal.
Por isso, Juliana não se cala com os filhos. Mostra as consequências. Explica o que o pai fez e por que está preso. “Mentir para uma criança, tentar ocultar a realidade, não é o certo”.
Garganta
Juliana pensou que ia morrer. Mas sobreviveu. E hoje ajuda mulheres a também encontrarem forças para sobreviver. Se tornou palestrante e conta sua história. Acolhe.
Pense em quatro mulheres importantes na sua vida. Mãe, irmã, amiga, filha. “Uma delas vai ser vítima de violência doméstica”, afirma Luiza. O número não é retórica, é estatística. E, quando o abstrato vira rosto conhecido, o problema deixa de ser do outro.
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