Em discussão
Denúncias de mortes de macacos marcam sessão na Câmara de Sorocaba
Debates também abordaram situação do zoológico e políticas públicas de proteção às mulheres
As denúncias de impactos ambientais provocados pelas obras da Marginal do Córrego Itanguá dominaram os debates da 28ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Sorocaba, realizada ontem (19). Vereadores cobraram explicações da prefeitura após relatos de moradores sobre suposta mortandade de animais silvestres durante o avanço das máquinas na região do Central Parque.
O tema ganhou ainda mais repercussão após um grupo de moradores e ambientalistas realizar, na noite de segunda-feira (18), um protesto contra a obra. Manifestantes afirmaram que a intervenção ocorre sem diálogo com a população e denunciaram supostos danos ambientais provocados pela supressão de vegetação às margens do córrego.
Segundo moradores, nos últimos dias, animais silvestres passaram a aparecer com frequência nas ruas do bairro, entre eles, saguis, tucanos, gambás e cuiaras. Os manifestantes alegam que não houve manejo adequado da fauna antes do início das intervenções e afirmam que o primeiro plantio compensatório realizado na região não resistiu e não teria sido refeito.
O caso foi levado aos órgãos ambientais fiscalizadores após o vereador Raul Marcelo (PSOL) protocolar requerimento questionando a condução ambiental da obra da segunda fase da Marginal do Itanguá. Segundo o parlamentar, moradores afirmam que equipes iniciaram a derrubada de vegetação na região da rua José Tótora sem manejo prévio da fauna e da flora.
As denúncias apontam que saguis e outros animais silvestres tentaram fugir da área após a supressão vegetal e alguns teriam sido eletrocutados ao entrar em contato com a rede elétrica. Também há relatos de atropelamentos durante a movimentação de máquinas pesadas. Estimativas mencionadas por moradores apontam para cerca de 54 macacos mortos no trecho em obras.
O jornal Cruzeiro do Sul teve acesso a imagens de macacos mortos que, de acordo com moradores, seriam vítimas das obras. A Prefeitura de Sorocaba, por meio da Zoonoses, afirmou que não encontrou nenhuma carcaça de animal no local, mas se colocou à disposição dos moradores para a retirada, em caso de novas aparições.
Durante a sessão, o vereador afirmou que o caso precisa de apuração urgente e cobrou transparência da administração municipal sobre os impactos ambientais provocados pela intervenção viária.
A vereadora Iara Bernardi (PT) também comentou o assunto e afirmou ter constatado pessoalmente problemas na condução da obra. Segundo ela, durante visita ao local, verificou ausência de comunicação adequada com os moradores e falta de manejo da fauna e da flora antes do início da supressão vegetal.
O vereador do PSOL questiona se a Prefeitura possui licença ambiental, autorização para supressão vegetal e estudos ambientais referentes à obra, além de pedir informações sobre a existência de equipes técnicas especializadas para acompanhamento da fauna e flora durante a execução dos serviços.
Além do requerimento apresentado na Câmara, Raul Marcelo protocolou representações junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), pedindo fiscalização urgente das obras e investigação sobre eventual descumprimento das medidas mitigadoras previstas no Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA) firmado para o Complexo Itanguá.
Segundo os documentos encaminhados aos órgãos ambientais, o empreendimento possui obrigações relacionadas à proteção da fauna silvestre, incluindo implantação de passagens subterrâneas para animais e ações de restauração ecológica com plantio de aproximadamente 2,7 mil mudas nativas.
As representações também citam imagens de saguis mortos próximos aos maquinários utilizados nas obras e pedem análise sobre eventual embargo cautelar das frentes de trabalho onde houver risco concreto à fauna remanescente.
Em nota enviada anteriormente sobre o caso, a Secretaria de Parcerias de Sorocaba (Separ) afirmou que a obra é executada “em conformidade com todas as exigências e premissas estabelecidas no processo de licenciamento ambiental junto à Cetesb” e que o município realiza levantamento da fauna local e mobiliza equipes especializadas para o afugentamento dos animais antes do início das intervenções. A pasta também informou que não há confirmação de mortes de animais em decorrência das obras.
Ainda durante a sessão, o vereador Alexandre da Horta (Solidariedade) solicitou o envio de documentos relacionados às obras da Marginal do Itanguá, incluindo licenças ambientais e relatórios técnicos sobre manejo da fauna na região, além da presença do secretário de Meio Ambiente no plenário para prestar esclarecimentos.
Zoológico Quinzinho de Barros
Outro tema que elevou o tom dos debates foi a situação do Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros”, levantada pelo vereador Fernando Dini (PP). O parlamentar criticou o que classificou como falta de interesse do poder público na manutenção do espaço e afirmou que recebe diariamente reclamações de moradores sobre sujeira, insegurança e abandono estrutural.
Segundo Fernando Dini (PP), recintos de animais como o do elefante Sandro e dos grandes felinos já teriam sido considerados inadequados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O vereador também afirmou que a ausência de segurança e estrutura afasta excursões escolares e visitantes.
“O zoológico precisa voltar a ter vida. Hoje as pessoas encontram um parque inseguro, sem portaria adequada e sem estrutura para receber famílias e excursões como acontecia antigamente”, afirmou.
O parlamentar rebateu críticas de movimentos contrários à existência de zoológicos e defendeu a importância do espaço para acolhimento de animais vítimas de maus-tratos e resgatados de circos. Segundo ele, o zoológico também desempenha papel importante em programas de preservação e reprodução de espécies ameaçadas.
Violência contra mulher
A pauta da violência contra a mulher também esteve entre os assuntos discutidos no Legislativo. O Projeto de Lei nº 96/2026, de autoria de Raul Marcelo (PSOL), que institui o Programa Municipal de Defesa Pessoal para Mulheres, chegou a entrar em debate, mas acabou retirado de pauta após apresentação de emenda.
A proposta prevê a oferta gratuita e contínua de cursos e aulas de defesa pessoal em espaços públicos da cidade, como centros esportivos, escolas, parques, Cras (Centro de Referência e Assistência Social) e unidades de atendimento à mulher. O objetivo, segundo o autor, é fortalecer a autoconfiança, ampliar a sensação de segurança e auxiliar mulheres na prevenção de situações de violência.
Durante a discussão, Raul Marcelo afirmou que o enfrentamento ao feminicídio exige políticas públicas permanentes e articuladas em diversas áreas. A proposta recebeu manifestações favoráveis das vereadoras Tatiane Costa (PL), Fernanda Garcia (PSOL) e do vereador Dylan Dantas (PL).