Data especial
Nas ruas, todos os tipos de mães
Mulheres entrevistadas nas ruas de Sorocaba compartilham histórias que revelam os diferentes significados da maternidade
“Mãe, onde está minha roupa?”. “Mãe, o que tem para comer?”. “Mãe, terminei!”. “Mãe, você vai me buscar?”. “Mãe, eu te amo”. As frases mudam, mas fazem parte da rotina de milhões de mulheres todos os dias. Algumas são ditas ainda cedo, antes da escola e do trabalho. Outras aparecem no fim da noite, quando o cansaço já tomou conta da casa. Há também os silêncios: o olhar preocupado diante da febre de um filho, a conta fechada para conseguir pagar o mês ou a correria para equilibrar trabalho e cuidado ao mesmo tempo.
Neste Dia das Mães — celebrado hoje (10) —, histórias encontradas pelas ruas de Sorocaba mostram diferentes formas de viver a maternidade. O jornal Cruzeiro do Sul esteve nas ruas do Centro da cidade, e entre barracas de comércio, pontos de ônibus e calçadas, mulheres compartilharam lembranças, desafios e aprendizados que atravessam gerações. São mães, avós e bisavós que, em realidades diferentes, dividem sentimentos parecidos: o medo, a responsabilidade, a renúncia e o amor construído no cotidiano.
Em comum, nenhuma delas fala sobre perfeição. As histórias passam por luto, preconceito, abandono, ausência, dificuldades financeiras e jornadas duplas de trabalho. Mas também carregam orgulho, resistência e afeto. Em cada relato, existe uma tentativa diária de proteger os filhos e oferecer a eles uma vida diferente da que tiveram.
Maternidade
No meio da movimentação do Centro, entre barracas e clientes que passam apressados pelas calçadas, a microempreendedora Arlete Ferreira, 42, construiu praticamente sozinha a própria história. Foi trabalhando nas ruas, vendendo maçã do amor e morango com chocolate, que ela criou os quatro filhos.
Durante muitos anos, os filhos cresceram acompanhando a rotina da mãe no trabalho. Sem ter com quem deixá-los, Arlete levava as crianças junto enquanto garantia o sustento da família. “Eu criava eles trabalhando”, resume.
A trajetória foi marcada por perdas. Viúva duas vezes, ela precisou assumir sozinha a criação dos filhos ainda pequenos. O mais novo tinha apenas 9 anos quando perdeu o pai. Desde então, a rotina passou a ser dividida entre o trabalho, a escola das crianças e os desafios de manter a casa funcionando.
Mesmo diante das dificuldades, Arlete fala da maternidade como algo que transformou completamente a própria vida. “Com amor, você consegue superar qualquer barreira.”
Hoje, ela vê nos filhos o resultado de anos de esforço acumulado nas ruas da cidade. Uma das filhas se formou em enfermagem e já trabalha na área. Outro filho cursa faculdade de direito. “Tudo com dinheirinho da rua”, diz, orgulhosa.
Mas a relação dela com a maternidade começa muito antes da chegada dos filhos. Arlete conta que cresceu em um ambiente marcado pelo abandono e pela exclusão familiar. Segundo ela, foi justamente ao segurar a primeira filha no colo que sentiu, pela primeira vez, a sensação de pertencimento. “Quando eu a tive, percebi que nunca mais ia ficar sozinha. Eu estava formando a minha própria família.”
A ideia de maternidade ligada à sobrevivência também aparece na história da diarista Maria José Ferreira do Nascimento, 55. Nascida na Paraíba, ela aprendeu ainda criança o significado da responsabilidade. Como irmã mais velha entre seis, ajudava a cuidar dos irmãos menores enquanto a família enfrentava dificuldades financeiras severas. “Eu aprendi a ser mãe com meus irmãos”, conta.
Maria José lembra da fome, das dificuldades e da necessidade de amadurecer cedo demais. Foi tentando romper esse ciclo que decidiu deixar o Nordeste e buscar oportunidades em São Paulo. “Eu vim para cá para meu filho não passar fome igual eu passei.”
Mesmo décadas depois, ela diz que a sensação de responsabilidade nunca desapareceu. Hoje, além dos filhos, também ajuda a criar um neto. A rotina continua pesada, mas ela fala da maternidade como algo que ultrapassa gerações. “Ser mãe é tudo um pouco. É ser mãe, ser avó, cuidar da família inteira.”
As histórias de Arlete e Maria José atravessam gerações diferentes, mas se encontram em um ponto comum: ambas aprenderam cedo que cuidar de alguém exige abrir mão de partes da própria vida.
A comerciante Maristela Favero, 38, conhece bem essa sensação. Ela conta que a descoberta da gravidez não aconteceu em um cenário idealizado. O relacionamento terminou ainda durante a gestação e, desde então, ela passou a enfrentar praticamente sozinha os desafios da maternidade. “Não foi muito legal”, resume, ao lembrar da reação do então companheiro ao descobrir a gravidez.
Hoje, ela vende bonecas no centro de Sorocaba enquanto o filho passa as tardes ao lado dela na barraca, depois da escola. Quando necessário, dorme dentro do carrinho improvisado em meio aos produtos expostos para venda.
Foi na prática diária da maternidade solo que Maristela diz ter entendido o peso da responsabilidade de criar uma criança. “Não nasce só uma criança, nasce uma mãe.”
Ela relembra as madrugadas em claro quando o filho ficava doente, as idas ao hospital e a insegurança de precisar tomar decisões sozinha. Sem rede de apoio constante, buscava respostas na internet, no celular e até em ferramentas de inteligência artificial para entender como agir diante das febres e problemas de saúde da criança. “Eu não sabia o que fazer”, conta.
Apesar do cansaço da rotina, ela resume a maternidade de forma direta: “É uma vida nossa fora do peito.”
O amor
Nem toda maternidade é marcada pela presença constante. Em muitas histórias, o amor aparece justamente na ausência provocada pelo trabalho e pela necessidade de sustentar a casa.
A operadora de caixa Cristina Malaquias da Silva, 42, conhece essa realidade de perto. Moradora de Piedade — Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) —, ela passa parte da semana em Sorocaba por causa dos estudos e do trabalho. Mãe de uma adolescente de 17 anos, conta que precisou abrir mão de acompanhar momentos importantes da infância da filha para conseguir manter a rotina financeira da família. “Ela foi criada na creche. Eu não vi ela andar, não vi ela falar.”
Quem acompanhou os primeiros passos da menina foram as funcionárias da creche. Cristina lembra desse período sem esconder a dor da ausência, mas afirma que sempre tentou compensar isso através dos ensinamentos passados para a filha. “Ensinei ela a ser honesta, educada e tratar bem as pessoas.”
Hoje, fala com orgulho da jovem, que está terminando os estudos e planeja o futuro. “Ela é meu maior orgulho.”
A auxiliar de dentista Cátia Regina Cunha, 63, também conhece as dificuldades de criar um filho praticamente sozinha. Ela engravidou aos 24 anos e enfrentou uma realidade muito diferente da atual. “Há 40 anos existia muito preconceito”, relembra.
Mãe solo de um filho único, Cátia conta que decidiu não ter outros filhos depois que a criança nasceu com problemas de saúde. Na época, além da responsabilidade da maternidade, precisou lidar com julgamentos sociais e dificuldades para continuar estudando e trabalhando.
Segundo ela, o apoio dos pais foi essencial para atravessar aquele período. “Meu pai e minha mãe me acolheram e me deram muita força.”
Ao olhar para trás, Cátia diz que a maternidade também mudou completamente a maneira como enxergava a própria mãe. “Depois que a gente vira mãe, percebe que faz as mesmas coisas que a nossa mãe fazia.”
Entre os ensinamentos que fez questão de transmitir ao filho, ela destaca a honestidade e o respeito pelas pessoas. “Sempre ensinei ele a fazer as coisas certas.”
Filhos e netos
O tempo passa, os filhos crescem e a maternidade ganha novas formas. Em muitas famílias, ela continua presente por meio dos netos, bisnetos e das relações construídas ao longo de décadas.
A comerciante Neusa Maria Rodrigues Frate, 72, fala da maternidade como uma experiência de continuidade. Mãe de três filhos, avó e bisavó, ela diz que a maior felicidade da vida é perceber que a família continua próxima. “Meus filhos são uma bênção.”
Mesmo adultos, eles seguem presentes no cotidiano da mãe. Perguntam se ela precisa de alguma coisa, ajudam na rotina e mantêm uma relação de proximidade construída ao longo dos anos.
Neusa conta que sempre gostou da ideia de ser mãe e hoje também aproveita a experiência de acompanhar os netos e bisnetos crescerem. “Eu amo ser mãe. Amo ser bisavó também.”
A mesma sensação aparece na fala da vendedora Sônia Regina Daniel Redondo, de 64 anos. Mãe de três filhos e avó de quatro netos, ela descreve a maternidade como “uma dádiva”.
Viúva, Sônia conta que foram justamente os filhos e netos que ajudaram a manter a família de pé depois da perda do marido. “Eu consegui ficar em pé por causa deles.”
Ao lembrar da trajetória da família, ela fala com orgulho da educação que transmitiu aos filhos e que agora percebe também nos netos. “Minha mãe sempre ensinou que a gente precisava ser educado com todo mundo.”
Entre os netos, fala com carinho especial de um menino que mora em Portugal. “Meu portuguesinho”, diz, sorrindo.
Já a aposentada Clarice Fernandes Peixoto, 68, vive a maternidade em uma fase mais tranquila da vida. Mãe, avó e bisavó, ela conta que descobriu a primeira gravidez aos 23 anos e guarda lembranças felizes dessa etapa.
Hoje, os momentos mais especiais ocorrem justamente nos encontros familiares. “Quando eu chego, eles ficam: ‘bisa, bisa’.”
Entre risos, ela relembra uma das bisnetas pequenas, que ainda não consegue pronunciar a palavra inteira. “Ela fala ‘bis, bis’.”
Em comum, as histórias dessas mulheres revelam maternidades completamente diferentes entre si. Algumas foram atravessadas pelo luto. Outras pela pobreza, pela ausência, pelo preconceito ou pela necessidade de amadurecer cedo demais. Mas todas carregam algo semelhante: a sensação de que, depois dos filhos, a vida nunca mais pertence apenas a elas mesmas.
Nas ruas da cidade, existem muitos tipos de mães. E em cada uma delas existe uma história inteira de renúncia, proteção, medo, força e amor acontecendo quase sempre em silêncio.
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