Meio Ambiente
Prefeitura se posiciona sobre a Marginal Direita
Cinco secretários defendem o projeto. Prefeito Rodrigo Manga não participa de entrevista
A futura Marginal Direita da avenida Dom Aguirre, projetada pela Prefeitura de Sorocaba como obra estruturante de mobilidade, segue avançando enquanto acumula dúvidas sobre impactos ambientais, eficácia viária e transparência no processo decisório. Em meio ao aumento das críticas e da mobilização social, cinco secretários municipais receberam ontem (8) a reportagem para detalhar a defesa do projeto; o prefeito Rodrigo Manga (Republicanos), embora procurado desde o início da semana, não participou da entrevista.
Estiveram presentes Jéssica Pedrosa, secretária de Parcerias (Separ); Carlos Eduardo Paschoini, secretário de Mobilidade (Semob); Antonio Genezzi Lopes, que acumula as pastas de Administração (Sead) e Meio Ambiente (Sema) e Maurício Campanati, secretário de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (Seplan). Rodrigo Alcântara, secretário de Comunicação (Secom), acompanhou toda a entrevista sem participar das respostas.
Planejamento como escudo
Durante toda a conversa, as expressões “planejamento”, “plano diretor” e “mobilidade urbana” apareceram de forma recorrente. A defesa da prefeitura partiu de uma premissa central: a Marginal Direita não é uma obra isolada, mas parte de um projeto de crescimento pensado para as próximas décadas.
Campanati foi o mais enfático nessa direção. Citou Sorocaba em 2050 como horizonte e classificou a avenida como uma “obra estruturante”, parte de um planejamento que, segundo ele, antecede a gestão atual. “Essa obra já poderia ter acontecido muito antes. Não teve momento, não teve recurso, não teve a possibilidade. Mas hoje a gente tem”, afirma.
Os secretários também argumentaram que a obra consta no Plano Diretor do município desde 2004, revisado em 2014 e em 2024, e que passou por duas audiências públicas sem contestações. “A sociedade não teve essa opinião, não tivemos nenhuma manifestação, tanto nas audiências públicas como nos portais de recebimento de sugestões”, disse Campanati.
A afirmação, no entanto, contrasta com a mobilização que a obra despertou nas últimas semanas — incluindo a formação de um comitê popular, manifestações de arquitetos, biólogos, vereadores e centenas de comentários nas redes sociais.
A questão do trânsito
A principal justificativa apresentada para a obra é a necessidade de ampliar o sistema viário diante do crescimento da frota. Segundo Paschoini, a nova via deve aliviar o fluxo da avenida Dom Aguirre, da avenida São Paulo e da avenida Engenheiro Carlos Reinaldo Mendes. “Não tem como imaginar que uma avenida com essa capacidade não vá melhorar a fluidez viária”, afirma o secretário de Mobilidade.
Questionado sobre a existência de estudos técnicos que comprovem esse impacto — algo cobrado também por vereadores ao longo da semana —, Paschoini confirmou que os relatórios existem e são públicos, mas não os apresentou durante a entrevista. “Existe, inclusive está dentro do processo”, disse, sem detalhar os dados.
Os 50 metros e a contradição
Os esclarecimentos sobre a faixa de 50 metros das Áreas de Preservação Permanente (APPs) marcaram o ponto mais sensível da entrevista. A secretária Jéssica Pedrosa afirmou inicialmente que o traçado da Marginal Direita ficaria fora da faixa mínima de preservação prevista no Código Florestal. Ao longo da conversa, porém, a equipe técnica confirmou que haverá intervenção dentro da APP, amparada na possibilidade prevista na legislação federal para obras de expansão viária.
Segundo o parecer técnico da Cetesb, o projeto posiciona a via a 22 metros da margem do rio Sorocaba, o que implica a ocupação de 28 metros dos 50 metros de área protegida. A prefeitura sustenta que a intervenção está dentro das exceções legais, enquanto os impactos ambientais continuam sendo alvo de questionamentos de especialistas consultados pela reportagem.
Mudanças e compensações
A administração municipal informou que cerca de 1.500 árvores serão suprimidas para a implantação da Marginal Direita e que a compensação ambiental prevê o plantio de 73 mil mudas nativas no município durante o andamento da obra, sendo 12 mil ainda em 2026. A intervenção em APP corresponde a 7,6 hectares, enquanto a área destinada à compensação soma 43,9 hectares, proporção que a gestão destaca como cinco vezes maior.
Os secretários afirmaram que o empreendimento cumpre 44 condicionantes ambientais monitoradas pela Cetesb, com relatórios bimestrais enviados ao órgão. Sobre o manejo de fauna, Jéssica Pedrosa explicou que o procedimento inicia com o “afugentamento” das espécies e, quando necessário, com o encaminhamento de animais ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) de São Roque. Entre as espécies avistadas na área estão tatus, capivaras e garças.
Nos últimos dias, o Comitê Popular do Parque Linear registrou trechos demarcados e galhos já cortados na zona prevista para a implantação da via.
Enchentes: a obra resolve?
Ao serem questionados sobre o risco de agravamento das enchentes — tema central nas avaliações dos especialistas ouvidos pelo Cruzeiro do Sul —, os secretários foram diretos: a Marginal Direita não foi projetada para resolver o problema histórico de alagamentos da cidade. ‘Não é uma obra que vai resolver as enchentes da cidade‘, afirma Jéssica Pedrosa.
Paschoini argumentou que os alagamentos da avenida Dom Aguirre têm uma causa específica: o rebaixamento da pista sob dois viadutos ferroviários, que obrigou a construção da via em cota mais baixa. “Não é que a Dom Aguirre alaga à toa. Ela alaga porque você tem que deixar um gabarito baixo para passar no mínimo os ônibus”, explica. Segundo o secretário, um alteamento realizado anteriormente na praça Lions e debaixo da ponte Francisco Dellosso já reduziu o tempo de alagamento naquele trecho.
Sobre a nova marginal, Jéssica afirmou que foram realizados estudos hidrológicos e que as cotas da via foram aprovadas pela Cetesb para evitar impactos diretos. A secretária também mencionou que a obra incluirá a correção de um córrego que hoje represa água na região, o que, segundo ela, poderá reduzir a incidência de alagamentos no local.
A escolha pelo rio
Questionados sobre por que a prefeitura optou por um traçado com intervenção em APP, em vez de alternativas mais afastadas do rio — como a proposta apresentada pelo próprio Cruzeiro do Sul ao longo da série —, os secretários defenderam que a decisão considerou fatores “sociais, econômicos e ambientais”.
Na prática, porém, a justificativa mais concreta foi financeira. Campanati foi claro: as áreas de APP têm condições “economicamente mais favoráveis” para o poder público do que as áreas privadas que precisariam ser desapropriadas caso a via fosse recuada.
Com isso, a decisão, embora sustentada como técnica, envolve também uma variável orçamentária relevante no desenho final do traçado.
Os números finais
A obra foi licitada por aproximadamente R$ 33 milhões, com financiamento do Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF). O prazo contratual de execução é de 18 meses. As etapas iniciais, incluindo o afugentamento da fauna e o começo da supressão vegetal, estão previstas para maio. Uma segunda fase da marginal está no planejamento, mas depende de captação de novos recursos.
Ao final da entrevista, quando os secretários foram questionados se a Marginal Direita seria uma obra pela qual a administração gostaria de ser lembrada, as respostas foram reservadas. “É uma bandeira. Mas não é a principal”, disse um deles. “É mais uma obra”, acrescentou outro.
Apesar de apresentada como intervenção estruturante e estratégica para as próximas décadas, o encerramento da conversa foi discreto. Os questionamentos iniciais permanecem: quem se beneficia com esse traçado? Quem é impactado? Quem assume os riscos? Quem perde?
A cidade ainda tem margem de decisão. Depois disso, restará lidar com o que decidiu preservar — e com o que aceitou sacrificar.
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