Dados do IBGE
Produção de leite na RMS é concentrada, tem baixa escala e enfrenta pressão de custos
Dados do IBGE mostram participação limitada da região, enquanto políticas públicas tentam impulsionar a atividade
A produção de leite na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS) segue com participação modesta no cenário paulista e fortemente concentrada em poucos municípios. Dados da Produção da Pecuária Municipal (PPM), do IBGE, indicam que apenas cinco cidades da região registram volumes relevantes, somando cerca de 2,9 milhões de litros de leite por ano.
O principal destaque é Araçoiaba da Serra, responsável por 2,7 milhões de litros, o equivalente a mais de 90% de todo o volume regional. Na sequência aparecem Salto de Pirapora (114 mil litros), Votorantim (82 mil), Itu (80 mil) e Salto (6 mil). Nos demais municípios da RMS, não há registro de produção significativa na base oficial.
O retrato revela uma cadeia leiteira pouco expressiva e bastante concentrada, diferente de outras regiões do estado de São Paulo, onde a atividade possui maior escala e relevância econômica. Ainda assim, o leite permanece como uma atividade presente no meio rural e importante para a renda de pequenos produtores.
Segundo a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, a pecuária leiteira está presente em cerca de 94% dos municípios paulistas e envolve milhares de propriedades, muitas delas de agricultura familiar. Para fortalecer o setor, o Estado mantém um conjunto de políticas públicas que abrangem desde a comercialização até assistência técnica, crédito e inovação.
Entre os principais instrumentos está o Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social (PPAIS), executado pelo ITESP, que conecta produtores e cooperativas às compras institucionais do governo. Dentro do programa, o leite vem ganhando protagonismo. Em 2025, o PPAIS movimentou R$ 53,8 milhões, sendo R$ 29,7 milhões apenas com leite, o que evidencia o peso crescente da cadeia nas aquisições públicas.
Outro ponto de destaque é o valor pago ao produtor. O preço médio de R$ 4,26 por litro ficou acima das médias de mercado, contribuindo para melhorar a remuneração no campo. A tendência é de expansão: para 2026, a previsão é que o PPAIS Leite atinja cerca de R$ 50 milhões em compras, o que pode representar um novo impulso para a atividade.
Ferramentas e entraves
Além da comercialização, a assistência técnica tem papel central na tentativa de aumentar a produtividade e a eficiência das propriedades. O Projeto CATI Leite, por exemplo, oferece acompanhamento técnico e capacitação a produtores rurais. Atualmente, cerca de 100 propriedades participam da iniciativa, com expectativa de chegar a 300 até 2026. Só em 2025, ações de capacitação reuniram aproximadamente 850 produtores em diferentes regiões do estado.
Apesar dos incentivos, a realidade no campo ainda é desafiadora — especialmente em regiões como a RMS, onde a atividade enfrenta limitações estruturais. Em Votorantim, o produtor rural Orlando Costa, da Fazenda Santo Antônio, relata que o aumento dos custos tem pressionado a rentabilidade e dificultado a expansão da produção.
Atualmente, a propriedade produz cerca de 1.400 litros de leite por dia, considerando vacas e búfalas, com um rebanho de aproximadamente 70 vacas em lactação e mais de 50 búfalas. Parte da produção é industrializada na própria fazenda, enquanto o leite de búfala é comercializado para fora do estado.
Segundo o produtor, o cenário tem se tornado mais difícil nos últimos anos. “A alimentação e os medicamentos subiram muito, e o preço do leite não acompanha. Hoje, o leite não cobre os custos”, afirma.
A falta de mão de obra também aparece como um dos principais entraves. De acordo com Costa, há dificuldade em encontrar profissionais qualificados para o manejo, o que impacta diretamente a operação das propriedades.
Diante desse cenário, a diversificação das atividades tem sido uma estratégia para garantir a sustentabilidade econômica. Na Fazenda Santo Antônio, além da produção leiteira, há investimentos em agroindústria, turismo rural e outras atividades agropecuárias. “O leite sozinho não fecha a conta. Hoje você precisa agregar valor e fazer outras coisas dentro da propriedade para conseguir manter”, explica.
A verticalização da produção — com fabricação própria de queijos, iogurtes e outros derivados — e a venda direta ao consumidor são alternativas adotadas por produtores para melhorar a margem. No entanto, esse modelo ainda depende de estrutura, investimento e acesso a mercado.
Outro fator que pesa na região é o custo da terra, considerado elevado, o que dificulta a entrada de novos produtores e a expansão das propriedades existentes.
Mesmo com os desafios, o governo estadual aposta em políticas integradas para fortalecer a cadeia leiteira. Linhas de crédito do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (FEAP), como o programa Leite Agro SP, têm incentivado investimentos em tecnologia, infraestrutura e melhoria genética do rebanho.
Na prática, essas iniciativas buscam aumentar a produtividade, reduzir custos e ampliar a competitividade do leite paulista — fatores essenciais para regiões onde a atividade ainda é incipiente, como a RMS.
O cenário regional indica que, embora presente, a produção de leite ainda tem baixa escala e depende de políticas públicas e inovação para se desenvolver. Ao mesmo tempo, a experiência dos produtores mostra que a sobrevivência no setor passa cada vez mais pela eficiência, diversificação e agregação de valor à produção.
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