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Vulnerabilidade

Voluntariado fortalece projetos sociais e amplia oportunidades em Sorocaba

Projetos locais mostram como o engajamento da sociedade civil vai além da doação e foca na capacitação e dignidade de famílias vulneráveis

21 de Abril de 2026 às 20:29
Caroline Mendes [email protected]
 ONG distribuiu ovos de chocolate para pessoas em situação de vulnerabilidade
ONG distribuiu ovos de chocolate para pessoas em situação de vulnerabilidade (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO)

Os projetos sociais mantidos por organizações da sociedade civil têm encontrado no voluntariado uma força fundamental para ampliar o alcance das ações e atender pessoas em situação de vulnerabilidade em Sorocaba. Iniciativas espalhadas pela cidade atuam em diferentes frentes — da capacitação profissional ao apoio comunitário — e mostram que o engajamento da população pode transformar realidades.

Um exemplo é a Associação Amizadaria Solidária, criada em 2016 a partir de uma mobilização simples: um grupo de amigas que decidiu preparar marmitas para distribuir a pessoas em situação de rua. A ação começou de forma espontânea, com encontros nas casas das próprias voluntárias para preparar os alimentos e arrecadar insumos.

Carmen Sílvia de Moura Mestre, que atua como voluntária na organização há quase quatro anos, explica que o projeto nasceu do olhar atento para a realidade social da cidade. “Eram pessoas que perceberam a situação de vulnerabilidade de moradores de rua e começaram a se juntar para preparar marmitas e distribuir pela cidade. Esse foi o começo da Amizadaria”, conta.

Com o tempo, no entanto, os voluntários perceberam que apenas a doação pontual não era suficiente para mudar a vida das pessoas atendidas. A partir dessa reflexão, a entidade passou a investir em ações voltadas à capacitação e à geração de renda. “A marmita ajuda naquele momento, mas não transforma a vida de ninguém. O sonho da fundadora, Fernanda Gonçalves, sempre foi promover mudanças reais, oferecendo capacitação para que as pessoas possam caminhar com autonomia”, explica Carmen.

Hoje, a Amizadaria atende diretamente dezenas de famílias em situação de vulnerabilidade social. O trabalho envolve acompanhamento socioassistencial realizado por assistentes sociais, encontros periódicos com as famílias e atividades que estimulam o fortalecimento de vínculos e o senso de pertencimento.

As famílias atendidas participam de encontros mensais que incluem orientações sobre temas como cidadania, educação financeira e saúde. Somente após essas atividades é que recebem a cesta básica distribuída pela entidade. A proposta é estimular a convivência e o apoio mútuo entre os participantes. “A ideia não é simplesmente entregar a cesta e pronto. Eles participam de um encontro, conversam, trocam experiências e recebem orientações. É um trabalho de integração, de construção de vínculo”, afirma Carmen.

A organização também promove oficinas gratuitas que ensinam habilidades capazes de gerar renda. Entre as atividades estão cursos de culinária, crochê e costura. Em uma das salas da entidade, por exemplo, voluntários ensinam técnicas de produção de doces e produtos sazonais, como ovos de Páscoa.

Na oficina de crochê, a professora voluntária Rosê Hernandez ensina as participantes a produzir peças que podem se transformar em fonte de renda. Ela relata que se aproximou da Amizadaria após conhecer o trabalho da instituição por meio da assistente social do projeto. “No começo, eu ajudava arrecadando e cadastrando cupons fiscais. Depois, eles conheceram meu trabalho com crochê, mostrei algumas peças e comecei a dar aulas. Hoje sou a professora da oficina”.

O voluntariado também abre espaço para troca de experiências entre quem ensina e quem aprende. A voluntária Cristiane Aparecida de Castro Silva, que chegou ao projeto há cerca de dois anos, afirma que o ambiente acolhedor foi o que a motivou a permanecer. “Eu sempre trabalhei com voluntariado. Quando me mudei para Sorocaba e conheci a Amizadaria, vi que era um ambiente muito familiar. Comecei ajudando na cozinha e depois passei a atuar também com terapias”, relata.

Entre as histórias que marcaram a atuação da ONG está a de um jovem que vivia em situação de rua e dependência química. Segundo Carmen, ele costumava procurar a entidade em busca de alimento e acabou criando vínculo com os voluntários. Com apoio da equipe, o rapaz foi encaminhado para uma comunidade terapêutica e conseguiu iniciar um processo de recuperação. “Ele aceitou ir para tratamento e, em pouco tempo, mostrou uma grande vontade de mudar. Acabou se tornando coordenador dentro da própria comunidade terapêutica e, depois, conseguiu um emprego. É um exemplo de que, quando a pessoa quer mudar, o apoio pode fazer toda a diferença”, recorda.

Apesar dos resultados positivos, a entidade enfrenta desafios para ampliar a participação nas oficinas. Muitas vezes, as pessoas se inscrevem nos cursos, mas acabam desistindo por dificuldades de transporte ou pela necessidade de buscar renda imediata. “Às vezes surge um bico de trabalho e a pessoa precisa escolher entre ir ao curso ou garantir o dinheiro do dia. A gente tenta mostrar que a capacitação pode abrir portas no futuro, mas sabemos que a realidade de quem está em vulnerabilidade é muito difícil”, explica Carmen.

Outra frente importante de atuação do voluntariado é o bazar solidário mantido pela associação. O espaço comercializa roupas, utensílios domésticos e objetos doados pela comunidade, e toda a renda é revertida para a manutenção das atividades sociais.

Outras ações

Além da Amizadaria, outros projetos também mostram a força do voluntariado em Sorocaba. No bairro Jardim Novo Eldorado, o Projeto Centrinho atua há mais de duas décadas como um espaço comunitário voltado ao desenvolvimento social da região.

A coordenadora Silvia Dyna Macedo conta que a iniciativa surgiu a partir da própria vivência no bairro. Depois de mudanças viárias que alteraram o acesso à região, ela passou a perceber que a comunidade carecia de espaços e iniciativas voltadas ao desenvolvimento social. “Assumi a associação de moradores e criei o Projeto Centrinho com o objetivo de trazer melhorias e qualidade de vida para o bairro”, explica.

Hoje, o espaço funciona como um centro comunitário que reúne atividades voltadas a crianças, jovens e adultos. O projeto oferece aulas de capoeira, balé, ginástica e pintura em tecido, além de ações educativas que incentivam valores como consciência ambiental, respeito e convivência comunitária.

O projeto atende cerca de 50 pessoas regularmente e conta com a participação de voluntários para manter as atividades. Professores, estudantes universitários e moradores do bairro colaboram com o desenvolvimento das oficinas e eventos. “Os voluntários representam metade do nosso sucesso. A outra metade vem de muito trabalho e dedicação. Quem ajuda acaba se tornando parte da família do Centrinho”, afirma Silvia.

Segundo ela, um dos maiores desafios atualmente é manter a estrutura do espaço comunitário, que depende de doações e da renda obtida com um pequeno brechó organizado pelos voluntários. “O que não serve para alguém vira tesouro para outra pessoa. Tudo aqui foi conquistado com doações e apoio de amigos. Cada objeto do Centrinho tem uma história”.

Recolocação solidária

Outra iniciativa que utiliza o voluntariado como ferramenta de transformação social é a ONG RH em Ação. Formada por profissionais da área de recursos humanos, a entidade oferece orientação gratuita para pessoas que buscam uma oportunidade no mercado de trabalho.

De acordo com a porta-voz Alessandra Paes, a organização surgiu da iniciativa de um grupo de profissionais que decidiu utilizar sua experiência para ajudar quem enfrenta dificuldades de inserção no mercado. “O grupo acreditava que o conhecimento precisava gerar impacto social. Então começamos a orientar pessoas sobre currículo, entrevistas e planejamento de carreira”, explica.

A ONG atende principalmente pessoas desempregadas, jovens em busca do primeiro emprego e profissionais em transição de carreira. As ações incluem palestras, workshops, simulações de entrevistas e orientação profissional. “Muitas pessoas chegam desacreditadas e sem saber por onde começar. Trabalhamos não apenas a busca por vagas, mas também o desenvolvimento da confiança e do autoconhecimento”, afirma Alessandra.

Para ela, Sorocaba possui uma cultura solidária importante, mas ainda há espaço para ampliar o engajamento da população. “O terceiro setor da cidade é muito atuante e comprometido, mas precisa cada vez mais de apoio e valorização. O voluntariado não deve ser apenas uma ação pontual, mas um compromisso contínuo com a transformação social”, destaca.

Faça parte

Quem deseja se tornar voluntário pode procurar diretamente as organizações ou acompanhar as redes sociais dos projetos, onde costumam ser divulgadas oportunidades de participação.

Para os voluntários que já fazem parte dessas iniciativas, a experiência vai muito além de ajudar o próximo. “O que nos motiva é o amor e a vontade de contribuir para que outras pessoas tenham oportunidades”, resume o terapeuta Fernando, voluntário da Amizadaria.

Em comum, todos os projetos reforçam a mesma mensagem: a transformação social começa com pequenas atitudes e com a disposição de dedicar tempo e conhecimento para ajudar o outro.

 

 

 

 

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