Sorocaba
Audiência expõe crise no CHS e cobra providências
Denúncias incluem morte de recém-nascido, falta de insumos, sobrecarga de profissionais e problemas estruturais no hospital
O atendimento e a gestão do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS) foram alvo de críticas durante audiência pública realizada, na tarde desta quarta-feira (8), na Câmara de Sorocaba. O debate, proposto pelo vereador Ítalo Moreira (Missão), teve como foco “indícios de falhas sistêmicas e segurança do paciente” na unidade.
Durante a abertura, o vereador afirmou que a audiência foi convocada para dar visibilidade a uma série de denúncias envolvendo o hospital, incluindo possíveis casos de negligência. Ele também citou a morte de um recém-nascido e prestou solidariedade à família.
O caso citado envolve o bebê Alessandro Gabriel de Sousa Silva, que nasceu prematuro em dezembro de 2025 e permaneceu internado na UTI Neonatal do CHS. Durante a internação, a família identificou uma fratura em um dos braços da criança, sem explicação clara sobre a causa. O bebê morreu posteriormente, e o atestado de óbito apontou sepse tardia associada a outras condições clínicas. O caso é investigado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), após representação do vereador.
Durante a audiência, familiares também participaram e relataram dor e busca por respostas. “Não é fácil estar aqui hoje e acabar mexendo em feridas”, afirma o parlamentar ao se dirigir aos pais presentes.
Além desse caso, o vereador apresentou denúncias de outros episódios graves envolvendo recém-nascidos, como fraturas e infecções hospitalares. Segundo ele, há indícios de que os problemas não são isolados. “Confirmamos pelo menos seis mortes de crianças recém-nascidas dentro do conjunto hospitalar, com fatores que podem ter contribuído para esses óbitos”, relata.
Entre os problemas estruturais apontados estão infiltrações, goteiras em áreas sensíveis, mobiliário enferrujado e falhas na climatização. Também foram citadas situações como o uso do mesmo elevador para transporte de pacientes e lixo, além de armazenamento inadequado de medicamentos — fatores que podem elevar o risco de infecção hospitalar. Outro problema apontado é o quadro de colaboradores. “Em alguns setores, onde deveriam trabalhar cinco ou seis pessoas, há apenas um profissional”, denuncia o vereador.
A vereadora Iara Bernardi (PT) também se manifestou no plenário, destacando que o hospital já foi referência nacional, mas enfrenta um histórico de problemas e denúncias ao longo dos anos. Segundo ela, áreas como maternidade e oncologia concentram grande número de reclamações.
Soma-se às denúncias dos vereadores os relatos de trabalhadores que indicam a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs), ambiente insalubre e sobrecarga. Um dos depoimentos apresentados foi a do técnico em enfermagem, Davi Santos, que descreveu situações críticas no atendimento. Segundo ele, profissionais chegam a atender até 16 pacientes simultaneamente. “Como é que eu consigo cuidar de pessoas sendo que o máximo são seis?”, questiona com indignação.
O trabalhador também denunciou a falta de medicamentos e a orientação da gestão para que “essa condição fosse informada aos pacientes. Para se ter uma ideia está faltando sulfato ferroso e a orientação é não comunicar. Isso é absurdo”, afirma.
Ainda de acordo com os relatos, há pacientes em condições inadequadas de internação, como casos de alto risco de infecção mantidos em quartos coletivos. O profissional também denunciou pressão sobre funcionários e medo de represálias. “Muitos têm receio de falar porque podem ser mandados embora”, diz.
Representantes dos trabalhadores também reforçaram as dificuldades enfrentadas no dia a dia. A diretora regional do Sindicato dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo, Cintia Lopes de Oliveira, afirmou que a situação se agravou após a mudança na gestão do hospital, ressaltando a falta de antibióticos na maternidade, a escassez de materiais cirúrgicos e os problemas estruturais. “Falta maca, cadeira de roda, elevadores vivem quebrados. Às vezes não tem nem porta-agulha para fazer uma sutura”, relata.
Cintia também apontou déficit de profissionais e falta de diálogo com a atual gestão. “Nós sempre questionamos, mas nunca há retorno — nem para os funcionários, nem para o sindicato”, afirma.
Resposta da Secretaria de Estado da Saúde
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou que determinou à OSS Seconci — gestora do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS) — a adoção imediata de providências para solucionar as falhas apontadas. A pasta ressaltou que o contrato de gestão prevê metas assistenciais rigorosas e que o descumprimento pode acarretar penalidades à entidade.
Sobre a Farmácia de Medicamentos Especializados (FME), a Coordenadoria de Assistência Farmacêutica (CAF) afirmou que a operação foi estabilizada após um período de transição logística. A pasta destacou ainda que o novo modelo de contrato do Governo de São Paulo, que movimenta cerca de R$ 489,2 milhões mensais, foca na descentralização da entrega de medicamentos diretamente aos municípios, visando otimizar a logística e reduzir custos para as prefeituras.
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