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Tradição

Entre a travessia e a ressurreição: como diferentes tradições celebram a Páscoa

Da libertação narrada no judaísmo à ressignificação cristã, data reúne fé, memória e história; relato de descendente de judeus expulsos do Egito revela o peso real por trás da tradição

04 de Abril de 2026 às 21:45
Vernihu Oswaldo [email protected]
Marcelle, Armando e sua filha
Marcelle, Armando e sua filha (Crédito: Arquivo Pessoal )

Quarenta anos no deserto. Um povo inteiro caminhando sem mapa, carregando a promessa de um lugar que ainda não existia. De acordo com a tradição judaica, foi esse o tempo de peregrinação pelo deserto, em busca da terra santa. Milhares de anos depois, em 1956, uma nova guerra estourava: a Guerra de Suez, desencadeada pela tentativa egípcia de nacionalizar o famoso canal, envolveu o país contra uma aliança de França, Inglaterra e Israel. Os judeus voltavam a ser pessoas não gratas no país e precisaram fugir. De novo.

A Páscoa é uma das principais datas para o calendário cristão. Mas sua raiz vem da cultura judaica. Como explica o professor de história Henrique Cavalcanti: ‘A Páscoa cristã tem profundas raízes na Páscoa judaica, conhecida como Pessach. É um dos momentos mais significativos da cultura judaica e muito descrito no Antigo Testamento da Bíblia cristã, a Torá para os judeus.‘

A Pessach, em hebraico, é um verbo de movimento: passagem, caminho, busca. Para os judeus, marca um dos episódios mais dramáticos da história do povo: a saída do Egito e a busca pela Terra Prometida, sob liderança de Moisés, quando, de acordo com a tradição, vagaram por 40 anos no deserto, até chegar a Jerusalém, a terra prometida.

Gabriel Toueg, judeu, tem suas raízes no Oriente Médio, e a história de seus ancestrais se confunde com a grande história dos judeus. Seus avós saíram fugidos do Egito, fugindo da guerra, fugindo do preconceito, em busca de uma vida melhor, que encontraram na América do Sul, primeiro em Montevidéu, depois em São Paulo.

Armando e Marcelle Toueg juntaram seus dois filhos, na época com 11 e 8 anos, e rumaram, não pelo deserto de areia, mas pelo deserto de água. O navio foi pelo Mediterrâneo, passando por Grécia, França, Espanha, Estados Unidos, Caribe e Uruguai. Antes de embarcar, muitos faziam um último gesto: jogavam as chaves de casa ao mar. Sabiam que não voltariam. Guardar a chave não fazia mais sentido.

Gabriel guarda um documento dessa época. Não é um passaporte, é um ‘laisser-passer’, uma autorização de viagem emitida pelo governo egípcio. Escrito em árabe e em francês, diz claramente: válido para uma única viagem, sem retorno. ‘Basicamente: aqui está sua passagem de saída do Egito, não volte mais‘, resume Gabriel.

‘A história do povo judeu é a história de ser empurrado de um lado para o outro, entendeu? Eles saíram em 57, chegaram ao Uruguai. Primeiro vieram de navio, seis meses de viagem, até Montevidéu. Moraram um ano em Montevidéu, mas o meu avô não conseguiu achar trabalho.‘

Um primo que havia passado pelo Brasil disse que valia tentar São Paulo. A primeira noite na cidade foi no espaço que hoje é o Museu do Imigrante, na época ponto de chegada dos que desembarcavam em Santos, subiam a serra e chegavam à capital. ‘Eu estive nesse museu visitando e fiquei bem emocionado‘, conta Gabriel. ‘Imaginei meus avós lá, com duas crianças pequenas, tendo que se virar, sem falar o idioma.‘

A travessia, no entanto, não é apenas uma lembrança familiar. Ela ecoa diretamente em uma das principais celebrações do judaísmo. O Pessach, que marca a libertação dos hebreus da escravidão no Egito, é também uma narrativa sobre partida, incerteza e reconstrução. A famosa Santa Ceia, onde Jesus teria feito sua última refeição com os discípulos, era um jantar de Pessach, de acordo com Gabriel, uma comemoração judaica.

Na tradição, não se come nada fermentado durante o Pessach, por isso é costume servir a matzá, que lembra uma bolacha, feita com farinha e água; por vezes, outros grãos são usados também. Para as crianças, existe o costume de esconder a matzá em uma dinâmica que ajuda a manter viva a atenção e a transmissão da história entre gerações.

Gabriel explica que, durante o jantar ritualístico, conhecido como Seder, cada elemento carrega um significado. Ervas amargas representam o sofrimento da escravidão, enquanto preparações doces remetem ao trabalho forçado dos hebreus no Egito.

Mas a ligação entre as duas tradições não está apenas na história, está na própria ideia de passagem. A última das pragas enviadas ao Egito, segundo a narrativa bíblica, foi a morte dos primogênitos. Para escapar dela, os judeus deveriam sacrificar um cordeiro e marcar suas portas com o sangue; assim, a praga ‘passaria‘ por cima daquelas casas.

Daí vem o próprio nome: Pessach, em hebraico, significa exatamente isso: passar, ultrapassar, poupar. Para o cristianismo, a imagem do cordeiro sacrificado ressoa diretamente na figura de Cristo, chamado nas escrituras de ‘o Cordeiro de Deus‘. O professor Henrique Cavalcanti resume: ‘A partir da Páscoa judaica constrói-se a Páscoa cristã, que expressa os mesmos profundos significados: o sacrifício e o renascimento.‘

É a partir desse mesmo episódio que o cristianismo constrói sua própria interpretação da Páscoa. O padre Fernando Giuli explica: ‘A Páscoa, para nós cristãos católicos, tem fundamento na festa judaica, que celebrava justamente a libertação do Egito.‘

A partir dessa origem comum, o significado se transforma. ‘Para nós é uma passagem também, mas da vida velha para uma vida nova, a libertação do pecado‘, afirma.

Gabriel carrega no sobrenome e na profissão o peso de uma herança improvável. Armando, seu avô, era poliglota, falava dez idiomas, e foi justamente isso que permitiu à família se reconstruir em terra estranha. O pai seguiu o mesmo caminho, com oito idiomas e a tradução como ofício. Gabriel, hoje jornalista e tradutor, é o terceiro elo dessa corrente.

Mas a história bonita tem um lado sombrio.

A pressão de nunca ter tido um lar fixo, de ter sido fugitivo, de ter perdido um filho ainda no Egito deixou marcas que o sucesso não apagou. E, em 1985, um último voo: Armando Toueg fez sua última travessia. Dessa vez, sem volta.

Histórias como a da família Toueg mostram que a tradição religiosa se entranha com as histórias pessoais. Gabriel explica que, depois da morte do avô, a avó Marcelle seguiu como centro das tradições, mas, com a sua morte, elas se perderam, e muitas das celebrações judaicas da Páscoa ficaram apenas nas memórias dos Toueg.

Anos depois, Gabriel teve a chance de levar o pai de volta ao Egito, estava fazendo uma reportagem sobre uma sinagoga restaurada no Cairo. O pai recusou. Estavam a uma hora de distância. Ele não quis. ‘Não perdi nada lá, não esqueci nada lá, não tenho porque voltar‘, disse.

Gabriel afirma que o pai não gosta de relembrar, fala pouco. Deixou as histórias, junto com as chaves: no fundo do mar.

É justamente na busca por sentido após a travessia que outras leituras da Páscoa emergem. Na tradição evangélica, essa ideia de passagem também se faz presente, mas com ênfase na experiência individual da fé.

Para o pastor e professor da Universidade de Sorocaba Ranieri Costa, a Páscoa é ‘a lembrança da morte de Jesus, e a ressurreição é o que valida o seu sacrifício e nos traz a possibilidade de libertação da morte e do pecado‘.

A celebração costuma acontecer em cultos voltados à ressurreição, realizados nas primeiras horas do domingo, reunindo fiéis em momentos de reflexão e comunhão.

Mais do que um ritual, o sentido está no impacto cotidiano da mensagem. ‘Isso faz com que a gente viva com esperança, na consciência de que a morte não é o fim‘, afirma.

Quarenta anos no deserto. Seis meses de navio. Uma vida inteira reconstruída em idiomas alheios. A Páscoa, em suas diferentes formas, parece sempre narrar a mesma coisa: que a travessia tem um sentido, mesmo quando ele só se revela do outro lado.

Não por acaso, celebrações de renascimento e esperança existem muito antes do judaísmo e do cristianismo. Comunidades agrícolas do hemisfério norte já marcavam o fim do inverno e a chegada da primavera com ritos de fertilidade e gratidão. Aqui, nas Américas, os Guarani celebram no tempo da colheita o despertar da terra, um ciclo que não precisa de tradução. A Páscoa, talvez, seja apenas o nome mais recente para algo que os seres humanos sempre precisaram acreditar: que, depois do frio, vem o florescer.