Queda no valor
Baixa adesão à reciclagem amplia volume de lixo e pressiona sistema em Sorocaba
Queda no valor de materiais recicláveis e limitações da coleta seletiva explicam cenário na cidade
A baixa adesão à separação correta de resíduos tem contribuído para o aumento do volume de lixo destinado a aterros sanitários e para a pressão sobre o sistema. Embora a coleta seletiva esteja presente no município, fatores como falta de acesso ao serviço, desinformação e desvalorização dos materiais recicláveis influenciam diretamente o comportamento da população.
Dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) apontam que 42% das pessoas não realizam a separação dos resíduos por não terem acesso à coleta seletiva. Outros 21% atribuem a prática à falta de disposição, enquanto 18% relatam não saber como fazer a separação corretamente.
Para o engenheiro ambiental Renan Angrizani, a ampliação da coleta seletiva porta a porta é fundamental para reverter esse cenário, especialmente em um contexto de desvalorização dos recicláveis. “Boa parte dos resíduos gerados são oriundos de recursos naturais não renováveis. Se não houver um uso consciente, podemos enfrentar escassez desses insumos, afetando diretamente as cadeias produtivas”, afirma.
A queda no valor dos materiais recicláveis também interfere diretamente na dinâmica da reciclagem e no engajamento da população. Com menor retorno financeiro, cooperativas enfrentam dificuldades para manter a coleta em todas as regiões, o que pode desestimular a separação dos resíduos.
“Alguns locais podem deixar de contar com a coleta seletiva. Muitas pessoas que possuem o hábito de separar os resíduos, com a falta de coleta, podem deixar de realizar essa ação”, explica Angrizani.
Na Cooperativa de Reciclagem de Sorocaba (Coreso), uma das responsáveis pelo serviço no município, o número de cooperados caiu cerca de 50% desde dezembro de 2025. Atualmente, o grupo conta com 35 trabalhadores, considerando entradas e saídas recentes.
Segundo a cooperativa, o cenário é de preços baixos e sem perspectiva de recuperação no curto prazo, o que tem reduzido a renda dos cooperados de forma contínua.
Entre os materiais mais afetados está o plástico PET, que apresentou uma das maiores variações. De acordo com a Coreso, o quilo do material, que era vendido por R$ 5,20 em dezembro, atualmente não ultrapassa R$ 2,70.
A queda nos valores está relacionada a fatores de mercado. O engenheiro ambiental explica que a redução no preço dos recicláveis tem como principal fator a concorrência com a matéria-prima virgem. “A queda no valor dos materiais recicláveis é impulsionada pelo aumento da oferta de matéria-prima virgem, o que reduz o valor de mercado”, afirma.
Erros no descarte
Além da baixa adesão, falhas na separação dos resíduos também comprometem a reciclagem. Segundo especialistas, a triagem é realizada manualmente, o que exige atenção no descarte correto. “Sempre devemos lembrar sobre o descarte adequado de resíduos perfurocortantes, como vidros quebrados e seringas, pois podem causar ferimentos aos trabalhadores”, destaca Angrizani.
Outro problema frequente é a mistura de resíduos orgânicos com recicláveis, como restos de alimentos, papel higiênico e fraldas, o que pode inviabilizar o reaproveitamento dos materiais. Embora muitas embalagens indiquem possibilidade de reciclagem, nem todos os materiais são efetivamente reaproveitados, devido a limitações de mercado e infraestrutura.
Mesmo com a desvalorização geral, alguns materiais continuam sendo mais valorizados no mercado, principalmente os metálicos. Na avaliação do especialista, itens como alumínio e cobre possuem maior valor agregado e melhor desempenho logístico, o que contribui para sua comercialização.
Por outro lado, há materiais que enfrentam dificuldade para serem vendidos, mesmo sendo recicláveis. A Coreso aponta que plásticos como polipropileno biorientado (BOPP), comum em embalagens de salgadinhos, além de isopor e poliestireno (PS), têm baixa demanda ou não encontram compradores com facilidade.
Nesses casos, a ausência de mercado pode levar ao descarte como lixo comum, ainda que exista tecnologia para reciclagem. “Isso é muito variável de região para região. Quando a cooperativa não possui um cliente para determinado material, ele acaba não sendo comercializado”, explica Angrizani.
Impacto nos cooperados
A variação nos preços tem reflexo direto na renda dos trabalhadores. Segundo a Coreso, os cooperados são os mais afetados pela queda nos valores, com redução nos ganhos ao longo dos últimos meses.
Além disso, o setor enfrenta mudanças na tributação. A cooperativa destaca que, com decisão recente sobre a incidência de PIS/Cofins, materiais recicláveis passam a ter tributação de 3,65% sobre o valor líquido, o que tende a pressionar ainda mais a atividade.
Para o engenheiro ambiental, o momento é de incerteza para o setor. “O atual cenário é de incerteza, uma vez que o setor passa por uma reforma tributária, deixando de ser isento e tendendo a ser tributado de forma gradual, o que pesa na competitividade”, afirma.
Em Sorocaba, a coleta seletiva é realizada por meio de acordo de cooperação entre a prefeitura e as cooperativas Coreso e Coopereso. Juntas, elas recolhem cerca de 300 toneladas de materiais recicláveis por mês.
Segundo o município, o apoio ocorre por meio da disponibilização de barracões, caminhões, motoristas e equipamentos para triagem, sem repasse direto de recursos financeiros. Nesse modelo, a renda das cooperativas depende da comercialização dos materiais, o que as torna diretamente vulneráveis às oscilações de mercado.
A prefeitura também aponta que a queda no valor dos recicláveis não é uma situação isolada, sendo observada em nível nacional, o que reforça a necessidade de políticas públicas mais amplas para o setor.
Destinação final
O destino final dos resíduos também é apontado como um desafio. Atualmente, o lixo coletado em Sorocaba é encaminhado para aterro sanitário em Iperó, onde não há possibilidade de reaproveitamento. “O local possui capacidade limitada. A médio e longo prazo, o não reaproveitamento dos resíduos fará com que cada vez mais áreas sejam ocupadas com lixo”, afirma Angrizani.
Segundo ele, o impacto não se restringe às cooperativas. A redução da reciclagem pode aumentar custos públicos e reduzir oportunidades de trabalho. “O município perde, pois deixa de gerar empregos e renda e eleva os custos para destinação final dos resíduos. Nesse cenário, todos perdem”, completa.
Para ampliar a participação da população, especialistas apontam a necessidade de simplificar o processo e ampliar a divulgação de informações. “É necessário que a população entenda como pode ser simples a separação dos resíduos e a importância dessa ação”, afirma o engenheiro ambiental.
Segundo ele, o processo começa com a separação entre resíduos comuns e recicláveis, como papel, plástico, vidro e metal. A limpeza dos materiais também é essencial para garantir o reaproveitamento. “Imagine receber uma embalagem de leite suja. Após alguns dias, ela pode se tornar inviável para reciclagem”, explica.
O especialista também orienta a compactação de embalagens, como garrafas plásticas e latas, para reduzir o volume e facilitar a coleta. Além disso, alguns resíduos exigem destinação específica, como eletrônicos, lâmpadas, óleo de cozinha, medicamentos e pilhas, que devem ser encaminhados a pontos de coleta adequados.
Perspectivas
O município participa do programa estadual Integra Resíduos, que prevê a modernização da gestão de resíduos sólidos e a inclusão de catadores em modelos regionais. A iniciativa está em fase de estudos técnicos. Enquanto isso, o avanço da reciclagem na cidade segue condicionado à participação da população, à viabilidade econômica do setor e à ampliação das políticas públicas voltadas à gestão de resíduos.
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