EXPLORAÇÃO
Plano Estadual de Mineração 2050 coloca a RMS no centro da estratégia mineral paulista
Com reservas de 333 milhões de toneladas de calcário, região de Sorocaba é peça-chave para a iniciativa
ARegião Metropolitana de Sorocaba (RMS) consolida-se como um dos pilares do novo Plano Estadual de Mineração 2050 (PEM 2050). Desenvolvido pelo Governo de São Paulo, o projeto busca equilibrar a exploração mineral, a preservação ambiental e o crescimento urbano. Cidades como Votorantim e Salto de Pirapora, com uma tradição histórica na extração de insumos para a construção civil, são áreas prioritárias nesta estratégia que pretende garantir a oferta de recursos essenciais para as próximas décadas.
A mineração marcou diversos estados brasileiros, desde pedras preciosas e ouro no período colonial até o calcário e a areia nos dias de hoje. Mas esse cenário não se repete no solo paulista. Em São Paulo, a mineração é concentrada principalmente em minerais industriais, usados na construção civil, como areia, brita e argila, e tem participação menor na economia quando comparada a estados mineradores como Minas Gerais ou Pará.
Apesar disso, com o crescimento urbano, áreas de mineração são postas em risco. “Se uma área mineral é ocupada pela cidade, aquele recurso praticamente se perde para sempre”, afirma o geólogo Alexandre Dambrosio. Sem planejamento territorial a expansão urbana pode acabar ocupando áreas com potencial mineral, o que inviabilizaria a exploração no futuro. Para evitar esses problemas, o Plano Estadual de Mineração 2050 (PEM 2050) está sendo desenvolvido.
De acordo com ele, “a ideia é construir um plano estratégico de mineração do Estado, porque hoje você tem em São Paulo uma disputa muito acirrada entre as áreas mineráveis, a preservação ambiental e o crescimento urbano”, afirma.
O PEM 2050 será estruturado em seis cadernos temáticos, abordando o contexto da mineração paulista, a caracterização dos setores produtivos, a importância da mineração em São Paulo, a geração de empregos, as práticas de sustentabilidade e a transformação de áreas mineradas. A parte técnica será executada por consultores e professores da Universidade de São Paulo (USP), por meio da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE). A fase de execução deve levar 15 meses.
O economista Gustavo Pessoa afirma que a mineração de insumos da construção civil é primordial para a manutenção da economia no estado. “Em um estado que registrou PIB próximo de R$ 3,4 trilhões em 2023, segundo o IBGE, garantir oferta estável de areia, brita, argila e calcário nas próximas décadas pode influenciar diretamente os custos de investimento e a competitividade econômica paulista.” Na construção civil, areia e brita são essenciais para concreto, pavimentação, fundações e obras de infraestrutura. Em 2023, São Paulo registrou cerca de R$ 121 bilhões em valor de obras e serviços da construção, segundo o IBGE. O calcário também é utilizado na agricultura, para corrigir a acidez do solo.
Terras Paulistas
A mineração em São Paulo é voltada principalmente para a produção de insumos básicos que abastecem a construção civil. De acordo com números do governo do estado, São Paulo responde por 70% da produção brasileira de areia industrial, 50% da areia comum, 30% da brita e 16% da argila. O estado também se destaca no envase de água mineral. Em 2024, foram 6,4 bilhões de litros, liderando o ranking nacional com 27% da extração do país.
Segundo o geólogo Claudemir Vasconcelos, na Região Metropolitana de Sorocaba (RMS), predominam os minerais industriais ligados à construção civil, como areia, brita, calcário e argila. Como exemplo, ele cita a mina de calcário Santa Helena, em Votorantim: “A mina de Santa Helena é uma mina subterrânea rica em calcário e é considerada uma das maiores da América Latina. A cidade também abriga outras importantes jazidas de calcário utilizadas na produção de cimento.”
Ele explica ainda que, embora existam metais mineráveis em alguns pontos do estado, a pouca quantidade ou a grande profundidade tornam a extração financeiramente inviável. Apesar da quantidade reduzida de minas metálicas, o estado se sobressai pelo seu parque industrial. Ainda na RMS, a cidade de Alumínio abriga uma indústria do metal homônimo. Como o processamento do alumínio exige a bauxita, o minério utilizado no interior paulista é extraído principalmente de Minas Gerais.
Gustavo afirma que “no caso de Votorantim e Salto de Pirapora, o impacto econômico da mineração é bastante concreto. Estudos regionais apontam que Salto de Pirapora concentra cerca de 333 milhões de toneladas de reservas de calcário, o que representa aproximadamente 88% das reservas da RMS.”
História
Em Sorocaba, um antigo veio de ferro foi o berço de uma das primeiras siderúrgicas do país. Fundada em 1810 por Dom João VI, a Real Fábrica de Ferro de Ipanema foi erguida no morro de mesmo nome. O local, porém, já era conhecido desde o período colonial: em 1597, Afonso Sardinha realizou ali as primeiras experiências com metalurgia, conforme explica o historiador Henrique Cavalcanti.
De acordo com o historiador, “o complexo foi fundamental durante o século 19, consolidando-se como a principal fundição do Brasil. O espaço também é marcado pela diversidade cultural da época, tendo abrigado um dos primeiros cemitérios protestantes do país para atender aos engenheiros suecos calvinistas que trabalhavam na operação”, explica.
Após passar por diferentes funções e ser utilizada até para a exploração de calcário, a fábrica encerrou suas atividades em 1970. Segundo o geólogo Claudemir, embora ainda existam focos de minério de ferro na região, a exploração atual é considerada complexa e inviável financeiramente.
Hoje, a área é preservada como um importante patrimônio nacional, tanto pelo seu valor arqueológico quanto biológico.