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São Miguel Arcanjo faz 137 anos de olho no turismo ecológico e religioso

31 de Março de 2026 às 22:04
Vernihu Oswaldo [email protected]
 Turismo ecológico é um dos principais atrativos de São Miguel Arcanjo
Turismo ecológico é um dos principais atrativos de São Miguel Arcanjo (Crédito: DIVULGAÇÃO/ALESP)

Um passeio pelas ruas de São Miguel Arcanjo nos leva para paisagens bucólicas. No centro, em volta da Basílica dedicada ao padroeiro do município, bancos são posicionados nas sombras, e a vida parece passar devagar. Nas conversas, nos olhares, em uma fé própria, que parece aquecer a cidade junto com o sol.

Neste ano, a cidade completa 137 anos de história, foi fundada em 12 de maio de 1877 e emancipada em 1º de abril de 1889. O aniversário é comemorado em relação à data de emancipação.

A cidade é lar de mais de 32 mil pessoas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), possui uma área territorial de mais de 930 quilômetros quadrados e nasceu da movimentação de povoadores que saíam da cidade de Sorocaba e iam em direção ao sul. No caminho, diversas cidades foram fundadas. Entre elas, São Miguel Arcanjo.

Em meados do século dezenove, o tenente Urias Emídio Nogueira de Barros formou o bairro que nomeou de “fazenda velha”. No local, o militar fixou residência junto com sua família e amigos que o seguiram. No local, foi construída uma capela, em homenagem ao arcanjo Miguel, que nomearia a cidade dali em diante.

A fé, que desde o início molda a história do município, continua sendo um dos pilares de sua identidade. Uma das histórias mais repetidas nas ruas são-miguelenses é a aparição do Arcanjo Miguel, que teria aparecido nas trincheiras de uma batalha da Revolução Constitucionalista, entre tropas paulistas revolucionárias e tropas federalistas vindas do sul do país. Conta-se que um homem apareceu nas trincheiras sulistas e avisou ao comandante que a guerra teria acabado. Os exércitos se retiraram, e o comandante foi até a igreja da cidade para agradecer a graça. Ao se deparar com a estátua do arcanjo, declarou atônito: “foi este o homem que me avisou do fim da guerra!”.

Desde seu início, a cidade tem suas raízes, literalmente fincadas no solo. A base econômica sempre esteve ligada à agricultura. No século vinte, o ciclo do algodão trouxe aquela que, para alguns historiadores, foi o momento mais rico do município. Depois, com a chegada de imigrantes italianos, veio o ciclo do trigo; com os japoneses vieram as uvas; os sírios e libaneses conduziram o comércio da cidade.

José Antônio de Góes é diácono e historiador da cidade. Sua história familiar é intimamente ligada à história da cidade; seu pai estava na igreja quando o líder do exército federativo chegou para relatar o milagre. Ele conta sobre a influência dos estrangeiros na cidade: “O sírio-libanês que nós tínhamos aqui, as famílias, eles eram tudo comerciantes e ajudaram muito nessa parte de alimentação.”

Novos tempos

Mais de um século após sua fundação, São Miguel Arcanjo parece equilibrar passado e futuro com a mesma delicadeza das manhãs da praça central. Antes sinônimo quase exclusivo de sustento, a terra agora também se transforma em convite.

Com características pouco comuns no interior paulista, a cidade desponta como destino de alto potencial para o turismo ecológico, impulsionada sobretudo pela preservação do Parque Estadual Carlos Botelho. O local abriga rica biodiversidade, com destaque para o muriqui-do-sul, o maior primata das Américas e cuja maior população remanescente está na região.

O parque também abriga a tradicional rota 139, conhecida como “Serra da Macaca”, com calçamento de paralelepípedo e acesso controlado. A via atrai motoristas e aventureiros em busca de trilhas, cachoeiras e práticas de contato profundo com a natureza, além de conectar o interior paulista à Serra do Mar.

Cercada por áreas preservadas, a cidade integra uma região privilegiada para o ecoturismo, atraindo visitantes e fotógrafos interessados na fauna e flora, especialmente no muriqui-do-sul. O guia Aelson Mattos Apolinário ressalta que o parque, graças ao controle de acesso e ao alto nível de conservação, tornou-se referência para pesquisadores e turistas em busca de imersão em rios, cachoeiras e novas espécies.

A fé também movimenta visitantes. Está em construção no município aquela que deverá ser a maior estátua católica do mundo, dedicada ao padroeiro. Outra referência religiosa é Irmã Joseli, nascida em 1972 e falecida em 2004.

Entre áreas de preservação e devoção, São Miguel Arcanjo escreve um novo capítulo, no qual o passado se integra às possibilidades de desenvolvimento.