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Piscicultura

São Paulo reforça defesa sanitária contra vírus que ameaça cadeia da tilápia

30 de Março de 2026 às 22:16
Caroline Mendes [email protected]
 Com produção em alta, Estado adota medidas preventivas 
diante de risco real de entrada do TiLV no Brasil
Com produção em alta, Estado adota medidas preventivas diante de risco real de entrada do TiLV no Brasil (Crédito: DIVULGAÇÃO / AGÊNCIA SP)

Na esteira da Páscoa, período em que o consumo de peixes cresce de forma expressiva em todo o País, o Governo do Estado de São Paulo reforçou as medidas de defesa sanitária voltadas à tilápia — espécie mais produzida e consumida no mercado nacional. Em meio ao aumento da demanda e ao avanço da atividade aquícola paulista, o Estado publicou nesta semana uma resolução que endurece o controle sobre a produção, comercialização e importação do peixe e seus derivados. O objetivo é prevenir a entrada do Tilapia Lake Virus (TiLV), um patógeno emergente que ameaça a cadeia produtiva global e impõe risco concreto ao Brasil.

A preocupação ocorre em um cenário de expansão do setor. Em 2025, a produção de tilápia no Estado atingiu 54,17 mil toneladas, alta de 4% em relação ao ano anterior, com faturamento estimado em R$ 494,11 milhões, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA). Com mais de 12 mil tanques-rede em operação, São Paulo se consolidou como um dos principais polos produtivos do país.

Esse avanço, no entanto, aumenta também a necessidade de proteção sanitária. “A cadeia da tilápia tem ganhado relevância no agro paulista, com crescimento da produção e geração de empregos. Esse avanço exige uma atenção sanitária cada vez maior”, destaca o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.

Risco global e alerta para o Brasil

Embora o Brasil ainda seja considerado livre da doença, especialistas alertam que o risco de entrada do vírus é concreto e crescente. A pesquisadora Patricia Maciel-Honda enfatiza que o TiLV já está disseminado em importantes regiões produtoras do mundo.

“O risco da entrada do vírus é real e não deve ser negligenciado. Há mais de uma década ele circula nos principais players de produção de tilápia do mundo”, afirma. Segundo ela, países da Ásia, África, Américas e Oriente Médio já registraram a doença.

A especialista chama atenção para os fatores que aumentam esse risco. “A movimentação de animais vivos, o intercâmbio de material genético e o comércio de produtos processados são vias potenciais de disseminação do patógeno”, explica.

O alerta ganha ainda mais peso diante da posição brasileira no cenário internacional. “O Brasil alcançou uma marca relevante na produção aquícola, sendo atualmente o quarto maior produtor mundial de tilápia e líder nas Américas. Toda a atenção e prevenção devem ser consideradas para manter esse status produtivo e sanitário”, ressalta.

O TiLV preocupa principalmente pelo seu impacto direto na produção. A doença afeta sobretudo alevinos e juvenis, etapa fundamental para abastecer toda a cadeia produtiva. “A infecção incide principalmente nas fases jovens, podendo levar a mortalidades que superam 80%”, explica Patrícia. Em alguns surtos, segundo dados da Secretaria de Agricultura, esse índice pode chegar a 90%.

Os efeitos, no entanto, vão além das perdas iniciais. “O impacto mais direto ocorre sobre as fazendas produtoras de formas jovens, mas se estende por toda a cadeia. A indisponibilidade de alevinos reduz ou paralisa a engorda, afeta o abate e compromete toda a estrutura econômica e humana do setor”, detalha.

Diante desse cenário, a nova resolução paulista estabelece regras mais rígidas para produtos de tilápia oriundos de países com registro da doença. Todos os itens — frescos, congelados, inteiros ou processados — passam a ser submetidos a controle sanitário reforçado.

Entre as exigências estão a identificação e rastreabilidade dos lotes, segregação por origem e manutenção de registros sanitários e fiscais por no mínimo 12 meses. Também estão previstas inspeções em cargas e estabelecimentos, além da possibilidade de apreensão e interdição de produtos.

A Defesa Agropecuária do Estado será responsável pela fiscalização, com atuação integrada a outros órgãos.

Para a médica-veterinária Ieda Blanco, responsável pelo Programa Estadual de Sanidade dos Animais Aquáticos, a antecipação é essencial. “A prevenção contra a introdução do agente da TiLV é fundamental, uma vez que o vírus apresenta altas taxas de mortalidade e rápida transmissão”, afirma.

Importação

Entre os principais pontos de atenção está a importação de tilápias vivas. “Esse é o principal risco para a entrada do vírus no Brasil”, afirma Patrícia Maciel. No entanto, ela alerta que o perigo não se limita a isso. “Há registros científicos da presença do vírus em músculos de peixes infectados, o que indica a possibilidade de ocorrência em produtos processados, como filés”, explica.

A pesquisadora também faz um alerta sobre os limites das ações estaduais. “As medidas adotadas por São Paulo refletem a seriedade do tema, mas os patógenos não conhecem fronteiras geográficas. É necessária uma estratégia ampliada em nível federal para evitar a entrada do vírus no País”, defende.

Caso o vírus seja detectado no Brasil, o cenário seria de emergência sanitária. “Haveria interdição de lotes e fazendas, aumento da vigilância, reforço de biosseguridade e necessidade de intensificação das análises laboratoriais”, explica Patrícia.

Além disso, poderiam ocorrer perdas produtivas significativas. “A disseminação do vírus implicaria em mortalidades não esperadas, redução de produtividade e aumento de custos, configurando riscos importantes para uma cadeia que hoje cresce de forma segura”, afirma.

Prevenção começa nas propriedades

Mesmo sem registro da doença no País, a prevenção já faz parte da rotina dos produtores. Práticas como controle de acesso, desinfecção de equipamentos, manejo sanitário e vacinação são adotadas para reduzir riscos.

No entanto, segundo a pesquisadora, esse cuidado precisa ser ampliado. “Essas medidas devem ser fortalecidas e melhor documentadas, especialmente diante de uma ameaça como o TiLV”, orienta.

Ela também destaca a importância da notificação de casos suspeitos. “É fundamental comunicar imediatamente os serviços veterinários oficiais em situações de mortalidade anormal, para que haja diagnóstico e resposta rápida”, completa.

Crescimento exige vigilância permanente

Com uma cadeia em expansão e cada vez mais relevante para a economia paulista, o desafio agora é garantir que o avanço produtivo seja acompanhado por rigor sanitário. “O setor está em crescimento consistente, mas isso exige vigilância constante. Todas as medidas e atores envolvidos devem aplicar o princípio da precaução para assegurar a condição sanitária atual da piscicultura brasileira”, conclui a pesquisadora.

Ao apostar na prevenção, São Paulo tenta proteger sua produção e a competitividade de um setor estratégico que ganha cada vez mais espaço no agronegócio nacional.