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Série Mobilidade

Deslocamentos diários se tornam mais lentos

Crescimento populacional e de veículos em Sorocaba provocam congestionamentos em vias principais

19 de Março de 2026 às 21:47
Tom Rocha [email protected]
Avenida Dom Aguirre tem saturação de veículos e morosidade nos horários de pico
Avenida Dom Aguirre tem saturação de veículos e morosidade nos horários de pico (Crédito: FÁBIO ROGÉRIO / ARQUIVO JCS (25/2/2026))

Se movimentar por Sorocaba exige mais do que preparo no volante, necessita de planejamento para definir rotas, tolerância com outros condutores e paciência para ficar parado no trânsito devido a congestionamentos frequentes, principalmente nos horários de pico.

O grande volume de veículos nas ruas, como mostrado na primeira reportagem da série sobre mobilidade em Sorocaba, publicada ontem (19), faz com que motoristas e passageiros demorem mais a chegar ao destino. A cidade cresce em população e número de veículos, fatores que saturam as principais avenidas.

Dados do Ministério dos Transportes dão conta que Sorocaba tem 573 mil veículos registrados, entre carros, caminhões, ônibus e motocicletas, entre outros. Os números são de janeiro de 2026, e cruzados com uma população estimada em 762 mil pessoas (informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE), dá uma proporção de três veículos a cada quatro pessoas.

Em janeiro de 2025, eram 555 mil veículos em Sorocaba, portanto houve crescimento da frota de 3,3% em um ano. A cidade tem 690 bairros, com 6.355 ruas e 210 avenidas.

“Hoje, pequenos deslocamentos que você realizava rapidamente, levam 15, 20, 30 minutos, a depender do horário. Então, é muito de se pensar se essa mobilidade que as pessoas desejam atende efetivamente aos interesses. Não basta você ter um veículo, precisa ter meios para se deslocar”, explica o advogado Renato Campestrini, especialista em trânsito, mobilidade e segurança viária.

“Ao contrário da facilidade que o cidadão tem para adquirir um veículo, o poder público não possui meios de expandir o seu sistema viário com financiamentos governamentais. E também tem uma limitação estrutural. A cidade em si já não comporta mais novas vias. É um debate muito importante para ser levado com a sociedade”, analisa Campestrini.

Soluções costumam esbarrar em camadas mais complexas de governança pública. “A experiência técnica demonstra que a ampliação viária isolada não resolve o problema de forma definitiva. Embora obras tragam melhorias pontuais, é importante reconhecer os esforços do poder público nesse sentido, elas tendem a ser absorvidas rapidamente pelo aumento da demanda”, afirma a engenheira e professora de infraestrutura de tráfego, Fabiola Bergamasco Palinkas.

Campestrini mora na zona oeste de Sorocaba e diz que percebe os impactos diariamente. “Eu moro na região do Wanel Ville, e os deslocamentos em direção ao Centro ou qualquer outro lado da cidade já não são mais feitos com aquela tranquilidade de outrora. Então, quando você transita pela região do Mangal, vê aquela quantidade enorme de prédios, de apartamentos surgindo. Fiquei pensando como essas pessoas terão que se deslocar, porque, em matéria de transporte coletivo e oferta de mobilidade urbana sustentável, é meio complicado. Você acaba levando pessoas a viver em uma região, até então, calma, tranquila de poucas residências e passa a ter ali a verticalização com centenas de famílias a ocupar o espaço onde antes uma ocupava. Então, isso vai levar a vias mais cheias, a dificuldade de deslocamento, ao uso do transporte, do modo de transporte individual, carro e motocicleta. Então, é algo a se pensar.”

Planejamento conjunto

Para Fabiola, nas cidades com forte crescimento da frota, como Sorocaba, as soluções mais eficazes podem envolver algumas frentes integradas, como planejamento metropolitano conjunto. “É inviável pensar mobilidade apenas dentro dos limites municipais. O tráfego é dinâmico e regional. A implantação de um grande empreendimento em uma cidade vizinha pode alterar completamente os fluxos. É fundamental articulação entre os municípios da região metropolitana, o governo estadual e as concessionárias de rodovias para o desenvolvimento de estudos técnicos integrados”, considera a professora.

Fabiola cita também o fortalecimento do transporte coletivo, melhoria da malha viária destinada ao transporte público, corredores estruturais, melhor conexão com rodovias que ligam a São Paulo, Campinas e demais cidades, e integração intermunicipal eficiente. “Sem um transporte coletivo competitivo, a população continuará optando pelo automóvel”, afirma.

Campestrini analisa a questão do crescimento da cidade versus a fluidez do trânsito. “O crescimento é bom? Mas até que ponto ele é sustentável? E a mobilidade urbana?”, observa. Para ele, o Sistema BRT é apontado como uma alternativa eficiente para o deslocamento em cidades de porte médio. Quando implantado com corredores exclusivos, prioridade semafórica e estrutura adequada junto ao canteiro central, o modelo pode atingir desempenho semelhante ao do metrô. Estudos realizados por idealizadores do sistema e análises comparativas com o Metrô de São Paulo, de acordo com Campestrini, indicam que um BRT bem estruturado alcança velocidade média entre 30 e 40 quilômetros por hora —- patamar equivalente ao transporte sobre trilhos na capital paulista.

Apesar do potencial, o Brasil ainda direciona a maior parte dos investimentos para o transporte individual e para a ampliação de vias, mantendo em segundo plano o transporte coletivo, afirma. A lógica predominante considera obras viárias como investimento, “enquanto os recursos destinados ao sistema público de mobilidade são mais limitados”. Para Campestrini, esse descompasso reforça o uso de carros e motos como principal meio de deslocamento. “Para o futuro, o desafio continuará enquanto o planejamento urbano priorizar o transporte individual.”

Transporte coletivo

A Prefeitura de Sorocaba afirma que “tem priorizado investimentos para a melhoria do transporte público, o que é uma tendência nas grandes cidades, de maneira a melhorar a eficiência do serviço e a segurança do sistema, assim como reduzindo o tempo de viagens, tanto é que Sorocaba anunciou a implantação de semáforos ‘inteligentes’ em corredores do Sistema BRT, cuja instalação está prevista para começar em breve”. A administração municipal afirma que essa iniciativa será viabilizada via contrato de financiamento entre a prefeitura, o Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal.

Atualmente, o sistema de transporte coletivo sorocabano opera com 357 veículos, além de 37 ônibus destinados à reserva técnica operacional, totalizando uma frota de 394. A frota, diz a prefeitura, “é 100% adaptada, com elevadores e locais para cadeirantes, sendo que está em processo, inclusive, a ampliação do número de veículos 100% elétricos”. Por mês, em média são transportados cerca de 4,5 milhões de passageiros. São 133 linhas em operação. Em 2020, eram 108 linhas e 300 ônibus.